21 de dez. de 2009

O pulsar do coração em "Apenas uma vez"

"Apenas uma vez" é uma agradável surpresa para os fãs de um cinema que conta boas histórias sem recorrer à pirotecnia. Rodado na bela Irlanda, de onde vêm imagens de encher os olhos, o filme de John Carney é a mais pura expressão da naturalidade e do realismo, ao retratar o encontro e o desencontro de duas pessoas absolutamente comuns no centro de Dublin. O aspecto documental é um detalhe que chama logo a atenção do espectador. Eles não são sequer nomeados, o que é mais um índice de
indeterminação dos dois sujeitos, por assim dizer.
Os dois se conhecem nas ruas da cidade, onde ele toca violão para obter algum dinheiro, quando não está ajudando seu pai na loja de instrumentos musicais da famíia. Ela precisa de alguém que possa consertar um velho aspirador de pó com defeito, e encontra a ajuda na figura dele. Está dado o início de um conto curto e muito comovente sobre aproximação e sublimação da vontade.

A música tem um papel decisivo na história dos dois, uma vez que ambos tocam. Ela tem habilidade com o piano, fato que se revela na cena em que eles vão até uma loja de um amigo dele e ambos compõem uma canção aproveitando a presença do instrumento no lugar. É dessa cena que sai a melodia mais bela de todo o filme, da qual sai a música-tema vencedora do Oscar em 2008. Trata-se de "Falling slowly", uma simples e bela música sobre um encontro fugaz de dois amantes, cantada lindamente pelos
protagonistas. Aliás, nenhum dos dois é ator profissional, o que ajuda a entender a enorme naturalidade com que atuam diante das câmeras. E o talento com a voz e os instrumentos não é mero acaso. O diretor os escolheu a dedo, pois, na vida real, ambos são cantores e compositores. Com isso, a fluidez evidente nas cenas musicais (quase todas do filme) tem uma explicação.

Cada momento do enredo é permeado por uma espécie de estética da sinceridade, em que se verificam duas pessoas daquelas com as quais se esbarra todos os dias nas ruas demonstrando tudo aquilo que são de verdade. Essa característica faz de "Apenas uma vez" um filme atraente e saboroso, que faz muito bem aos ouvidos. É de impressionar a beleza das letras das cançõesm, que traduzem prefeitamente as sensações de incerteza, de euforia e de desestrutura que acometem quem ama. Ainda que em algumas passagens a visão de Carney seja um tanto romanceada, nunca a história cai na ingenuidade. Tanto ele quanto ela se sentem atraídos um pelo outro, mas ambos também têm outras pessoas de quem se lembrar, não totalmente apagadas de suas vidas. No caso dela, há uma filha pequena que a faz lembrar disso diariamente.
O tempo de filmagem do longa é recorde: somente 17 dias, e com um baixo orçamento. Não deixa de ser um recado para os grandes produtores sedentos de cifras cada vez mais altas, que deveriam se preocupar um pouco menos com efeitos escalafobéticos e dar também atenção às histórias simples que falam ao coração. No caso do filme de John Carney, a sensação que fica ao final da sessão é a de que ainda é possível acreditar na magia do cinema.
No fundo, "Apenas uma vez" leva a refletir sobre a condição humana, sobre a fragilidade dos sentimentos e da incerteza diante de tudo, principalmente do amor. Tudo isso musicado com muita poesia e encantamento, num tom quase fabulístico.

12 de dez. de 2009

"Volver", uma história forte e comovente

Nas mãos de grandes diretores, mesmo as pequenas histórias podem ganhar uma dimensão de qualidade sem par. Exatamente como sucede a alguém que se chama Pedro Almodóvar, espanhol que é sinônimo de cinema de bom gosto. Em "Volver" ele mais uma vez destila sua verve dramática na condução de uma trama de predominância do sexo feminino, uma constante em sua obra. Aliás, a filmografia almodovariana passeia por vários estilos, mas sempre com uma base muito forte: as relações entre mães e filhos, mulheres com uma força incrível, entre outros elementos facilmente identificáveis pelo público, e que também são apontados pela crítica.

Rodado em 2006, essa nova obra-prima traz Penélope Cruz num reencontro com Almodóvar, depois de 7 anos de ausência em seus filmes. Foi um grande acerto do cineasta, pois ele deu a atriz um de seus melhores papéis de sua carreira, a intensa Raimunda. Seu drama começa quando a filha, uma adolescente na típica fase de autoafirmação, assassina o pai durante uma forte discussão. O fato é o elemtento desencadeador das reviravoltas do enredo, já que Raimunda se vê obrigada a tomar uma atitude drástica com o intuito de acobertar o crime da filha. A saída encontrada pela personagem é, no mínimo, inusitada.
Do assassinato em diante, ela precisa encontrar uma forma de ganhar dinheiro, e a oportunidade surge quando uma equipe de filmagem vai rodar um filme perto de sua casa. Logo, Raimunda se oferece para cozinhar para todos em troca de pagamento. A jovem viúva encanta os membros da equipe com seu talento culinário, e eles acabam prolongando mais um pouco sua permanência no local em que foram filmar.

Entretanto, outro fato importante ocorre e desmonta uma convicção da personagem: sua mãe, que ela e as irmãs julgavam estar morta, reaparece, somente para sua irmã mais nva, e, depois, para ela também. Inicialmente perturbada com a surpresa, Raimunda decide ajudar a mãe, que está mais viva do que nunca, a retomar sua rotina. Assim, Irene, a mãe morta-viva, começa a trabalhar no salão de beleza montado pela irmã mais nova de Raimunda em sua casa, fazendo-se passar por uma cabeleireira estrangeira.
O reaparecimento de Irene é o começo de um acerto de contas familiar para essas mulheres, que precisam lidar com questões traumáticas do passado, feridas que insistem em não cicatrizar. Sem alternativa, todas são confrontadas o tempo todo com o que fizeram de suas vidas até aquele momento.
Partindo desse argumento que rompe em certa medida a fronteira entre real e fictício, Almodóvar faz mais um filme de cores fortes, porém sóbrias se comparadas às suas produções oitentistas, e de diálogos passionais. Além de, mais uma vez, encher a tela com a presença magnética e vibrante de Cruz, indicada ao Oscar de atriz por sua Raimunda. A cena em que a personagem canta acompanhada de músicos num jantar é simplesmente apaixonante, já que, ali, toda a sua sensualidade se aflora. Se o espectador ainda não havia se deixado levar pelo encanto de Raimunda até então, não segue impassível a ela dessa cena em diante.

O espanhol expõe em "Volver" as suas obsessões, falando da grande força do sexo dito frágil, e brindando o público com passagens de rara beleza. A trilha sonora, a cargo de Alberto Iglesias, é um deleite para os ouvidos.
O filme também traz a figura talentosa de Carmen Maura, habituée do diretor em outros tempos, e que aqui, como as demais mulheres do elenco, é homengeada o tempo todo. A presença pífia dos homens, aliás, é fato recorrente em seus longas, que exaltam a força delas em detrimento da debilidade masculina.
A afetividade fica por conta da ambientação da história em La Mancha, terra natal de Almodóvar, e que, no filme, é constantemente castigada por fortes ventos, que já foram responsáveis por incêndios mortais. Sem ser manipulador, ele comove com uma história saborosamente bem contada, que faz bem ao olhar e à audição, reflexo de um roteiro bem escrito e um elenco que dá o melhor de si. "Volver" prova que a melhora pode vir mesmo com o tempo, tal qual sucede aos vinhos. Aqui, o cinesta mostra um estilo mais refinado e contido, sem abrir mão, porém, do talento. Resta a quem assiste embarcar na narrativa, aliado ao pacto ficcional, suspendendo sua descrença e se deixando comover pelo que vê na tela.

6 de dez. de 2009

Romantismo e fugacidade em "Todos dizem eu te amo"

A instabilidade dos sentimentos é o grande tema de "Todos dizem eu te amo", vigésimo sexto filme da carreira de Woody Allen. Cineasta dos mais produtivos, seu ritmo atual de produção, um filme por ano, começou ainda nos anos 80. De lá para cá, sua obra tem tido, segundo a crítica especializada, momentos de plena inspiração e instantes de certa debilidade criativa.

Mas para fãs essa divisão faz pouco sentido, visto que, a exemplo de outros filmes, "Todos dizem eu te amo" versa sobre temas corriqueiros para qualquer mortal. Estão lá os arrepios típicos da paixão, as besteiras que todos fazemos diante da
pessoa amada unicamente com o intuito de impressioná-la, e a incerteza em relação a uma vida inteira ao lado de uma pessoa. Pode ser que, em alguns casos, Allen não tenha sido muito feliz na captação desses assuntos em seus filmes, mas é sempre uma delícia acompanhar a trajetória de seus tipos desajustados, loucos adoráveis.
Num filme que fala escancaradamente de amor como esse, não poderiam ficar de fora cidades tão românticas como Paris e Veneza. E elas aparecem, com tal força que podem ser consideradas personagens da narrativa. A presença de ambas é luminosa, principalmente Paris, que serve de cenário para uma dança entre os personagens de Allen e Goldie Hawn.

"Todos dizem eu te amo" conta, de maneira musicada, as histórias de amor de uma família tipicamente novaiorquina (mais alleniano, impossível). Cada membro do clã dos quais Joe (Allen) e Steffi (Hawn) são patriarcas vive, à sua maneira, uma paixão. Como Skylar (Drew Barrymore), que está encantada por Holden (Edward Norton), com quem vai se casar logo. E também as irmãs Laura (Natalie Portman, ainda adolescente) e Lane (Gaby Hoffman), que estão experimentando o sentimento pela
primeira vez. Há vários outros personagens que transitam pela história ao longo de seu transcorrer, e citar todos seria como transcrever uma lista telefônica.
Cada um deles, ao se juntar, forma um coro divertido de canções, que servem de elemento de ligação entre as subtramas do filme. Aliás, ele pode ser apreciado como um musical desengonçado sobre as armadilhas do amor, e também sobre suas consequências, ora cômicas, ora dramáticas. Os personagens têm todos uma aura cativante, e são muitos os destaques em todo o longa. Julia Roberts, por exemplo,

está perfeita como uma mulher inconstante que deseja uma aventura para sair da mesmice do seu casamento, mas que, depois, percebe que precisa da rotina de antes. O avô da família também é outro achado, com suas atitudes insólitas, que enlouquecem a todos, principalmente a empregada. Há, ainda, espaço para discussões entre pai e filho por causa de diferenças de opinião política, e é essa uma das passagens em que o humor arguto de Allen entra em ação, questionando a validade do comunismo ou do capitalismo.
No geral, o filme tem um roteiro bastante inspirado, e entretém do início ao fim com suas piadas inteligentes e suas locações charmosas. Desde os primeiros minutos, o espectador é seduzido por cenas divertidas e situações inesperadas que podem surgir para os amantes. Como na sequência em que Holden vai a uma joalheria comprar um anel de noivado para Skylar, e se vê sem muitas escolhas por causa do alto preço das joias. Quando, enfim, escolhe uma, começa a cantar e dançar junto com os clientes do lugar, comemoranro seu casamento vindouro. Até mesmo fantasmas camaradas entram em cena. Assim, o público vai acompanhando com atenção e curiosidade o desenrolar das ações. Definindo em poucas palavras, pode-se dizer que é um filme recomendado para quem ama amar.

1 de dez. de 2009

A louca jornada de "A vida marinha com Steve Zissou"

Alguns cineastas são capazes da façanha de impor uma personalidade bastante própria às suas obras. Seus filmes se tornam facilmente reconhecíveis por marcas registradas que a eles ficam associadas, o que é uma qualidade ou um defeito, a depender do ponto de vista ou do gosto do espectador.
Talvez por isso Wes Anderson seja um diretor que divida opiniões. Seus trabalhos estão impregnados de uma visão algo cínica do mundo e da humanidade, sempre de uma maneira nada óbvia. Podem se encaixar em rótulos, mas sempre escapam a eles. Veja-se o caso de "A vida marinha com Steve Zissou", terceiro filme do cineasta. Pouco interessa aqui o enredo sobre o qual o roteiro está baseado, ainda que seja ele a mola propulsora do longa.

O elenco é algo que já depõe a favor da qualidade do filme: protagonizado por Bill Murray, um dos melhores atores em atividade, que vem ladeado por nomes como Anjelica Houston e Cate Blanchett, não se pode esperar nada menos do que ótimo. Na pele do protagonista, Murray faz um trabalho impecável, vivendo um oceanógrafo que perdeu um grande amigo morto por um tubarão numa de suas expedições submarinas. Seu desejo de revanche o move a um retorno às águas do trágico acidente, e com ele vão uma série de tripulantes, entre eles, uma jornalista (Blanchett), um jovem que pode ou não ser seu filho (Owen Wilson) e sua esposa (Houston). São apenas aperitivos da insólita jornada que está por vir.
A cada entrada de um personagem na história, um novo e curioso tipo é apresentado ao público, que tem a chance de se deliciar, já no meio da trama, com uma galeria de seres improváveis. O humor do filme surge dos momentos mais inusitados, e provocam sorrisos de canto de boca, não necessariamente garagalhadas temporárias, como a maioria das comédias (aí está a força dos rótulos) atuais, um apanhado de piadas descerebradas. Cada ator demonstra estar dando o melhor de si para o conjunto da obra, que é magnífica. Cate Blanchett, por exemplo, atuou grávida, depois de aceitar o papel que fora oferecido a Gwyneth Paltrow.

Um dos grandes achados do filme é a maneira com que Anderson concatena as partes da narrativa. É através do personagem de Seu Jorge, que toca canções em seu violão o filme inteiro, e são elas que delineiam os acontecimentos do filme. Versões brasileiras de músicas consagradas que bons observadores e ouvintes atentos reconhecerão certamente. O cantor, aliás, sai-se muito bem em sua função de ator ocasional, incorporando a melancolia irônica característica dos filmes do diretor, transmitida em seu olhar desviado do interlocutor.
A fotografia também é um aspecto que merece ser citado como uma das qualidades do filme. As imagens subaquáticas, com um quê de artificiais, sublinham a proposta de uma estética mambembe, digna de ser apreciada. Entre os elementos que a confirmam, está o uso de um tubarão falso nas sequências em que o tal acidente com o amigo de Zissou é lembrado. Por falar no protagnista, sua caracterização é uma homenagem ao grande Jacques Costeau, mais conhecido oceanógrafo.
Como seu longa precedente, "Os excêntricos Tenembaums", Anderson exercita em "A vida marinha..." seu talento para criar figuras carismáticas e capazes de gerar identificação com o espectador por suas fragilidades e pequenas loucuras. No fundo, sob a verniz da empáfia, escondem-se constatações sobre o bizarro da vida, que não pode ser levada totalmente a sério. Esse olhar acurado se traduz em reflexões sobre as contradições da existência, que marcam qualquer indivíduo em alguma fase de sua vida. Um filme interessado nessas questões, e que ainda proporciona entretenimento, é verdadeiramente uma opção maravilhosa, nas telas de cinema ou nas prateleiras de uma locadora.

30 de nov. de 2009

"Edukators", um louvor ao inconformismo

O cinema alemão recente tem se mostrado bastante profícuo em seus exemplares. Da safra atual, tem-se bons diretores e atores igualmente ótimos, para contar histórias interessantes de se acompanhar.

No caso de "Edukators", mais do que uma boa história, estão a serviço do espectador um série de outros elementos que fazem assistir ao filme valer a pena. Dirigido por Hans Weingartner, o longa traz a história de Jan (Daniel Brühl), Jule (Julia Jentsch) e Peter (Stipe Erceg), um trio de amigos que não se conforma com aqueles que possuem riquezas demais, segundo sua visão. Eles têm uma maneira um tanto original de demonstrar esse inconformismo: invadem as casas de quem consideram muito
ricos, e deixam suas mensagens de protesto. Uma delas, inclusive, é o título original do filme: "Die Fetten Jahre sind vorbei". Em bom português, "Seus dias de fartura estão contados". Fica claro desde o início da história que os amigos estão empenhados em transmitir uma moral, e subverter o sistema de alguma forma.
Nesse sentido, o filme apresenta um aparentamento com outras obras contemporâneas dele. A principal é "Os sonhadores", já que, no filme de Bertolucci, também há um trio de inconformados. Com a diferença de que, diferente dos jovens de "Edukators". aqui o inconformismo não sobrevive ao desejo.

Voltando ao primeiro filme, Weingartner trata dos sonhos que se desfazem, e das convicções que são jogadas por terra devido ao choque de realidade. Pouco a pouco, é que acontece com a militância política de Jan, Peter e Jule. Numa de suas invasões, Jule esquece um objeto dentro da casa invadida, e os três acabam sequestrando o dono do imóvel, que está chegando ao local no exato momento em que eles retornam para buscar o que foi esquecido. Daí, começa o degringolar da harmonia então presente entre eles.
O diretor joga com a visão de mundo dos personagens, e proporciona momentos de discussão sobre o capitalismo e o socialismo, através dos embates entre os amigos e o empresário que eles sequestram. São essas algumas das passagens mais interessantes de todo o filme. Nota-se que eles passam da inflexibilidade ao relativismo em suas opiniões, e demonstram não serem tão diferentes do homem que condenam inicialmente por sua riqueza "excessiva".
"Edukators" vale tanto pela sua forma quanto pelo seu conteúdo, marcado por bons diálogos, direção de atores eficiente e trilha sonora envolvente. Sinal de que há competência nos noems envolvidos na produção, que foi um grande sucesso em seu país de origem, e que merecia mais visibilidade em nossa terra. Sem dúvida, não é filme que se deva deixar passar despercebido.

26 de nov. de 2009

A volta ao início de "Reflexos da inocência"

A estreia de Bailie Walsch na direção de longas-metragens vem engrossar uma lista já composta de muitos nomes. Isso porque, a exemplo de Mark Romanek e Michel Gondry, Walsch é oriundo do universo dos videoclipes. Seus supre-citados predecessores foram felizes em suas incursões no celuloide, e pode-se dizer o mesmo de mais esse estreante.

Reflexos da inocência é protagonizado pelo festejado Daniel Craig, um ator que alterna presenças em filmes arrasa-quarteirão com participações em projetos mais pessoais. O caso do filme de Walsch é o segundo. Na história, Craig dá vida a um ator que vive um dia após o outro sem grandes perspectivas, entregando-se à esbórnia sem se preocupar com sua própria imagem. Seu mundo sofre uma reviravolta com a notícia da morte precoce de um amigo de infância.
A partir daí, desencadeiam-se uma série de recordações para o ator, lembranças essas de um tempo de absluto descompromisso e de descobertas diárias. A câmera de Walsch captura pequenos e singulares momentos em que a felicidade do protagonista parecia estar ao alcance de suas mãos, e que ele não soube aproveitar devidamente.

É sobre esse gosto de passado que se articula a narrativa do filme, que mais parece saído de um baú de confissões. A trilha sonora é um ponto positivo do longa, trazendo canções que embalam os romances vividos pelo personagem principal. Aliás, é bom que se diga que, apesar do nome de Craig aparecer enorme no cartaz do filme, Reflexos da inocência é mesmo de Harry Eden, que faz Joe, nome do protagonista, em sua fase jovem, e se sai muito bem.
Alguns elementos na premissa do filme podem fazê-lo soar melodramático: a perda da ingenuidade com uma mulher mais velha, um amor que se perdeu no tempo, a tragédia que abalou uma comunidade. Mas o interessante em uma história nunca é apenas seu enredo, e sim sua forma de condução. É nesse quesito que o longa ganha mais pontos a seu favor. Reflexos da inocência se encaixa no rol de filmes sobre memória, e merece um espaço entre os inesqucíveis, logo em sua abertura emocionante, ao som de uma música intensa e triste, que resume o que está por vir nas sequências seguintes. Histórias simples, belas e despojadas também devem ter sua vez.

15 de nov. de 2009

"Uma garota dividida em dois" ou a agonia de querer

Claude Chabrol é um cineasta que sabe das coisas. Veteraníssimo, sua importância para o cinema começa quando ele ainda era um dos membros do corpo de críticos da lendária Cahiers du cinéma, revista francesa ainda hoje reverenciada por amantes da sétima arte. Junto com Godard, Rohmer e Truffaut, ajudou a formar uma geração de cinéfilos, o que qualquer pessoa bem informada sabe muito bem.

Ao longo de uma carreira de mais de 30 anos, Chabrol produziu num ritmo relativamente intenso, se compararmos com outros diretores dados a hiatos mais longos. Recentemente, entregou ao público mais um exemplar de sua obra cheia de passionalidade, suspense e ambiguidade.
Trata-se de "Uma garota dividida em dois", que traz a queridinha do cinema francês atual, Ludivine Sagnier, na pele da personagem-título. Sua divisão decorre da paixão que ela desperta, quase ao mesmo tempo, em dois homens diferentes. Gabrielle, como se chama a jovem, é garota do tempo de uma emissora de TV, e tem plena consciência de sua beleza, e do fascínio que ela exerce sobre a ala masculina. Ela acaba se envolvendo com os dois homens que por ela se apaixonam, e esse triângulo amoroso será a perdição de cada um deles, de uma maneira ou de outra.

O tema do amor tripartido é recorrente no cinema e, por isso mesmo, necessita de um bom acabamento para não soar como mais uma tentativa coxa de dissecar os interstícios das relações amorosas que se constroem nesse caminho tortuoso. Felizmente, Chabrol tem enorme talento para isso, fazendo uma abordagem muitas vezes cínica e despudorada do assunto. Não há nudez explícita dos atores, mas, em várias cenas, a sensualidade é flagrante, exatamente por essa camuflagem.
O cineasta exercita seu olhar sobre a vaidade humana, lançando sua sentença sobre Gabrielle, que se sente cindida pelas diferentes possibilidades de felicidade (ou não) oferecidas por Charles (François Berléand) e Paul (Benoît Magimel). Enquanto um é maduro e capaz de ter várias mulheres ao mesmo tempo, sabendo como lidar com o sexo feminino, o outro é voluntarioso e move céus e terra para ter Gabrielle. Nas entrelinhas, vai se traçando uma guerra de egos entre os candidatos ao coração de Gabrielle, em que, mais do que a conquista de um amor, o que está em jogo é a vitória em uma competição.
Em nenhum momento, Chabrol deixa que a história resvale para o sentimentalismo, e jamais se utiliza do tom maniqueísta. A contraposição entre os dois homens deixa de existir algumas vezes, e se torna justaposição. Ambos têm suas fragilidades, e isso fica claro pelas suas atitudes. Mesmo com seus anos de experiência sobre Paul, Charles fica aturdido pela hipótese de perder Gabrielle para ele. E é nessa trajetória de gato e rato que a narrativa vai se aproximando de um desfecho um tanto trágico, delineado desde muito antes. É aí que reside a veia pessimista de Chabrol, que decreta a inexistência de inocentes quando se trata da paixão. O querer, na perspectiva do filme, pode ser devastador para todos os envolvidos.

14 de nov. de 2009

À procura de origens em "Poderosa Afrodite"

É fato incontestável que Woody Allen sabe fazer comédia. Seus filmes estão para o gênero como os de Hithcock estão para o suspense, sem qualquer medo de essa ser uma visão superestimante. Sua visão algo amarga da vida aparece sempre em seus filmes, na maior parte das vezes perpassada pelo humor.

Essas características são, portanto, encontradas facilmente em "Poderosa Afrodite", que, com frequência, enquadram-se entre os trabalhos "menores" de Allen. Puro preconceito. Mesmo numa obra considerada menos inspirada, o diretor consegue entreter e divertir, sem abrir mão da inteligência.
O enredo é simples, como de hábito em Allen: um casal adotou, há alguns anos, um menino. Com o passar do tempo,o casal percebeu que ele tinha uma inteligência acima do normal para sua idade. O pai (Lenny, vivido por Woody Allen), intrigado, decide sair à busca da verdadeira mãe da criança. Acaba chegando a uma prostituta sem a menor classe, a exuberante Linda Ash. Daí para se envolver amorosamente com ela, é um passo, mesmo casado com Amanda (Helena Bonham Carter, demonstrando competência).

Ter em mãos uma história aparentemente banal já é o suficiente para que o espectador embarque num punhado de referências ao longo da trama, principalmente à mitologia grega, com a qual o filme dialoga o tempo todo. Allen usa o recurso de alternar a história central com cenas de um suposto Olimpo, de onde os deuses opinam sobre os rumos tomados pelo protagonista.
Em "Poderosa Afrodite" o sarcasmo está novamente a serviço do roteiro, também de autoria de Allen, marcado também por um estilo bastante loquaz, que exige atenção a cada fala. O Lenny vivido pelo ator é um tipo recorrente em seu cinema: magro, baixinho e desajeitado, sentindo-se desolcado no mundo e, por isso, muito canhestro. Jogando com essa armas, ele é quase infalível em ganhar a plateia, mesmo que haja alguns detratores desse e de outros filmes de sua extensa carreira, iniciada em 1969.
Há quem diga que os melhores exemplares de sua obra se encontram nas décadas de 70 e 80, porém os anos 90 também reservaram ótimas surpresas vindas do diretor.
Em vários momentos, os personagens falam abertamente sobre sexo, principalmente a desenvolta personagem de Mira Sorvino, que levou o Oscar de atriz coadjuvante por seu desempenho. O único senão de Sorvino é sua voz altamente irritante, que faz mal a ouvidos mais sensíveis. Mas é detalhe que se consegue superar lá pela meia hora de filme.
"Poderosa Afrodite" vale pelo tom jocoso com que lida com questões de ordem prática da vida, e também com pequenas neuroses do ser humano. Neurose, aliás, é uma das palavras-chave do universo alleniano, que ele aborda, com grande variabilidade, em inúmeros filmes. Pode ser uma experiência muito interessante se reconhecer na tela a partir de um personagem em busca de sua verdade, ainda que trilhando caminhos tortuosos para isso. Quem nunca se viu atabalhoado em uma estrada que oferece bifurcações, talvez não entenda. Mas parece pouco provável que exista esse indivíduo.

30 de out. de 2009

O momento do recomeço em "Hora de voltar"

A estreia de Zach Braff na direção de longas é auspiciosa. Jovem, ele demonstra grande talento ao debutar atrás das câmeras com o singelo "Hora de voltar".
Com um baixo orçamento e uma série de elementos cativantes, Braff conta-nos a história banal de Andrew Largeman (vivido pelo próprio Braff), um ator que volta à sua terra natal para o enterro da sua mãe. O retorno ocorre após nove anos de ausência, e não deixará que ele passe incólume. Sim, este é um filme sobre volta, mas não "mais um filme sobre volta", vale ressaltar.

Aqui, o cineasta lança mão de uma trilha sonora pop, que passeia por baladas mais românticas e melancólicas e também por canções mais alegres. Cada qual sublinha uma passagem importante da vida do protagonista, um rapaz travado, que já chegou à idade adulta, mas tem dificuldades no relacionamento com as pessoas, seja para amizade, seja para amor. Por conta disso, seu pai e psicólogo (Ian Holm) sempre lhe receitou drogas para ansiedade. Uma vez de volta ao lugar onde viveu áureos tempos, decide abandonar essas "bengalas" e caminhar sozinho. Acaba se apaixonando por Sam (Natalie Portman), uma adorável trapaceira, que também conquista facilmente o público com suas tiradas cheias de um humor todo particular. Uma cena memorável do filme é quando os dois, pouco depois de se conhecer, falam sobre a mentira. Sam dispara que mente o tempo todo, como um vício, mas que o fato de ela falar que mente sempre também pode ser uma mentira. Large e Sam entram num divertido jogo dialético sobre o valor da verdade. Um belo achado.

O veículo de Large, uma mistura de lambreta com motocicleta, também é um charme do filme, que tem roteiro também escrito por Zach Braff. Nas três frentes, ele demonstra uma maturidade incrível para lidar com as questões existenciais que interessam a todos. Sempre com uma visão poética, e, às vezes, algo melancólica. É aí que está uma das marcas de relevância desse longa, uma feliz conjugação de talento com a eixtência de algo a dizer. Porque não adianta um gasto exacerbado com elenco e efeitos especiais se o filme não passa verdade, é descartável e se esquece imediatamente ao final de sua sessão.

Nesse sentido, "Hora de voltar" (Garden state, no original) se destaca em meio à pilhas de besteiras com que Hollywood insiste em entupir o grande público, que se habitua a voos rasantes em termos de narrativa cinematográfica. Nas entrelinhas, a grande sacada do filme é mostrar que a vida vale por pequenos fatos, e que a felicidade não vem apenas com eventos incrivelmente grandiosos. É uma nova leitura do bom e velho carpe diem, propalado muitas vezes de maneira errônea, e que quer dizer, na verdade, atentar para cada minuto da vida, sem grandes excessos de que se arrepender depois, mas sim com consciência plena. Vale muito a pena aceitar o convite que Braff nos faz.

25 de out. de 2009

"Dúvida", um filme sobre verdades ocultas

Nos últimos anos, a safra de filmes indicados ao Oscar tem sido fenomenal. Sobretudo em 2008 e em 2009, quando o público pôde conferir obras consistentes tratadas com talento e fluidez. Assim como "Dúvida", estreia de John Patrick Shanley na direção de longas. Trata-se da adaptação para o cinema da peça homônima dirigida pelo mesmo Shanley.

A seu favor, está um elenco formidável, encabeçado por Meryl Streep, sobre quem paira o sentimento do título durante todo o filme. Ela é a irmã Aloysius, uma freira extremamente conservadora que rege ferreamente um colégio infantil no Bronx dos anos 60. Preocupada em manter a ordem na instituição custe o que custar, ela começa a desconfiar de um de seus colegas, o padre Flynn, (um irrepreensível Philip Seymour Hoffman), que, na sua visão, dedica atenção demasiada a um aluno negro. Aloysius crê que há algo de errado nessa relação tão próxima, e decide investigar por conta própria.
Quem a ajuda, involuntariamente, a aumentar sua desconfiança é uma das professoras do menino, a jovem irmã James (Amy Smart, contida na medida certa), que acredita ter visto o padre e o garoto numa situação comprometedora. Mesmo sem ter provas concretas nas mãos, Aloysius inicia uma cruzada contra Flynn, disposta a afastá-lo do cargo na escola.

É sobre essa incerteza que "Dúvida" se alicerça, trazendo diálogos inspiradíssimos, rendendo momentos ímpares de atuações de Streep e Seymour Hoffman. Os embates entre seus personagens valem o filme, que deixa nas mãos do espectador o julgamento sobre o padre. Desde o início, a história faz jus ao seu título, se mostrando plena de ambiguidades e enviesamentos. Shanley convida o público a se posicionar a favor de um ou outro, sem diplomacia.
O roteiro, feito para o teatro, reforça o tempo todo a ideia de ênfase em cenas que aproximam muito o espectador dos personagens, muito mais do que em ações. A condução da trama é lenta, mas não compromete sua economia narrativa, que não ultrapassa as duas horas de duração. Cada detalhe vale ser pinçado, para que o quebra-cabeças possa ser montado, a depender do ponto de vista de quem está assistindo. O filme debate bastante a questão do que é real do que é fictício, que pode ser fruto da imaginação de uma pessoa ou não. Nos tempos hodiernos, reino da hipocrisia, a discussão é bastante oportuna. Em "Dúvida", os silêncios são valorizados, e também podem comunicar informações importantes.
É interessante esquadrinhar os meandros da incerteza, que pode desasossegar e cegar quem a possui. Muito do que se vê na trama está impregnado da visão de Aloysius, e é preciso um certo distanciamento de sua perspectiva (talvez) precipitada para se chegar (ou não) a uma conclusão pessoal. Nesse sentido, o filme é de um valor inenarrável, pois não oferece uma resposta pronta. Provavelmente, um enorme ponto de interrogação acompanhará o público ao final da sesão. De uma história chamada "Dúvida", não se poderia esperar outra característica.

22 de out. de 2009

O triunfo do silêncio em "Fale com ela"

Da fase mais madura de Pedro Almodóvar, vêm grandes pérolas para regozijo de cinéfilos ávidos de cinema bem feito. Um deles é "Fale com ela", que merece o título do obra-prima com muito louvor.
Rodado em 2002, o filme fala de silêncio, paradoxo sobre o qual se desenvolvem duas histórias inicialmente individuais: a de Marco (Darío Grandinetti) e Benigno (Javier Cámara). O primeiro é apaixonado por Lydia (Rosario Flores), apesar de ainda não ter muita consciência disso. O segundo ama Alicia (Leonor Watling), que ainda não teve tempo de corresponder ou não a esse amor.

Os dois então desconhecidos se encontram pela primeira vez em um teatro, onde se sentam lado a lado e se emocionam com o espetáculo a que assistem. Mas não se falam. Tempos depois, as respectivas mulheres de suas vidas farão com que eles se reaproximem, e aí, então, se conhecem. O que os une são as tragédias que se abateram sobre Alicia e Lydia, e que muda suas vidas definitivamente.
A condução desse enredo de forte carga dramática e emocional é feita com grande delicadeza por Almodóvar. O espanhol disseca cada sentimento submerso dos personagens, que precisam lidar com a nova vida que se lhes impõe sem aviso prévio. Nasce uma forte afinidade entre Marco e Benigno, e eles se veem confrontados com a necessidade de se doar por inteiro àquelas mulheres que tanto necessitam de cuidados especiais. É importante ressaltar que a narrativa nunca escorrega para o pantanoso terreno do dramalhão. Algumas cenas, como as das conversas entre Benigno e Alicia sãode levar às lágrimas, mas sem qualquer traço de pieguice.

Almodóvar dá provas concretas de que abandonou sua fase mais tresloucada, marcada por filmes como "Mulheres à beira de um ataque de nervos", mais no início de sua carreira. Não se trata, porém, de filmes melhores ou piores, são apenas momentos distintos de um trajetória que já soma mais de 20 anos. Aqui, ele está muito mais contido e, em parte, dissociado de um cinema de cores quentes e fortes que tanto o marcaram. Não significa porém, que "Fale com ela" não traga alguns elementos que podem caracterizar bem o que o cineasta faz em boa parte de suas obras. Também aqui, há a forte presença feminina, inclusive no título, e algumas inserções de iconoclastia e até de bizarrice, como numa sequência de sonho de um dos personagens.
Javier Cámara, por sua vez, oferece uma interpretação impecável como Benigno. O enfermeiro transpira desalento e abandono, o que, em certa altura da história, leva-o a uma atitude impensada que lhe rende tristes consequências.
As atrizes que passam o filme quase todo caladas e paradas também se mostram excelentes, trazendo, também elas, papeis de grande densidade.
O roteiro é de uma economia muito eficiente, alinhavado por mãos hábeis e sábias. Cada fotograma reafirma aquilo que desde o início, é um dos atributos do filme. Ele precisa ser sentido, acima de tudo. É uma história para se acompanhar de alma e coração abertos, sem medo de se entregar.

21 de out. de 2009

Falando de hipocrisia em "Longe do paraíso"

O ano de 2002 ofereceu aos cinéfilos obras memoráveis, que merecem ser vistas e revistas em sua excelência e encanto. Nesse mesmo ano, o público pode acompanhar mais uma ousadia de Charlie Kaufman com direção de Spike Jonze, o subestimado "Adaptação". Foi também em 2002 que se conferiu outro trabalho antológico de Stephen Daldry, "As horas".
Mas um filme especificamente passou quase despercebido pelos cinemas, e vem de uma época contígua à desses neoclássicos. Trata-se de "Longe do paraíso", do diretor Todd Haynes. Ele retoma sua parceria com Julianne Moore, depois de "A salvo", para contar uma história de amor, mentira e hipocrisia.

Os desejos velados são a mola propulsora da narrativa do filme. É em cima dessa matéria-prima que se apresentam os personagens principais da história, ambientada nos anos 50, época idílica para a cultura dos EUA. Numa mansão confortável e luxuosa vive o casal Cathellen (Moore) e Frank Whitaker (Dennis Quaid). Ela, uma mulher fútil que se distrai organizando festas para seus amigos da alta sociedade. Ele, um empresário ocupado demais em seu escritório. Logo no início, fica claro que nada na casa está o mar de rosas que Cathy tanto gostaria que fosse, o que demonstra em seus esforçoas para ser uma esposa adorável e mãe dedicada. Ainda assim, qualquer possibilidade de conflito permanece sendo varrida discretamente para debaixo do tapete.
Pois bem, até certo momento. Tudo começa a degringolar de vez no dia em que Cathy decide levar, ela mesma, a jantar de Frank, que está no escritório fazendo serão naquele dia. O que ela presencia ao chegar ao local é uma cena tão inesperada quanto decepcionante. Seu casamento, já claudicante, passa por uma metamorfose irreversível. Tanto ela quanto ele mergulham numa espiral de negação do próprio desejo, que cresce a cada dia, indenpendente de seus esforços em trilhar o caminho oposto. Em cada gesto, em cada olhar, em cada diálogo, Haynes evidencia essa quebra de encanto progressiva que se dá entre os dois.

Reside aí um dos pontos fortes de "Longe do paraíso": sua economia narrativa. Sem qualquer sobressalto, a trama se delineia paulatinamente, dimensionando para o especatador toda a intensidade dramática do filme. O debate sobre o preconceito também encontra espaço, a partir do momento em que Cathy se aproxima do jardineiro da família, um negro (Dennis Haysbert). As amigas dela tentam disfarçar, mas exalam a hipocrisia ao julgar esse contato tão próximo entre os dois.
Outro ponto a favor do longa é sua fotografia. Edward Lachman, responsável por ela, trasmite a aparente frivolidade que permeia a vida dos protagonistas, que criam para si seus próprios castelos e, uma vez enclausurados neles, pretendem ali ficar, sem assumir o que realmente são.
Julianne Moore, por sua vez, irradia brilho e desalento na pele de Cathy, uma mulher que escolhe sucumbir ao peso das convenções da época, sem se permitir viver o que deseja de verdade. De fato, o filme merece muito mais atenção do que a que lhe foi dispensada quando de seu lançamento. Até mesmo o Oscar fez pouco caso do filme, dsando quatro míseras indicações a ele, entre as quais a de melhor atriz para Moore, que perdeu para Niole Kidman. Ao menos era uma candidata à altura.
É sobre a angústia do querer que Haynes, também autor do roteiro, nos fala o tempo todo. E nos comove, de forma a nos tirar, em alguma instância da excessiva complacência.

11 de out. de 2009

"Crimes e pecados" ou a hora da verdade

Da safra de filmes dos anos 80 dirigidos por Woody Allen, "Crimes e pecados" é o que encerra a década. E o faz muito bem, diga-se de passagem. Nesta nova produção passada em sua adorada Nova York, o humor é discreto, e a temática preferida do cineasta, o impedimento moral, aparece com tintas mais existencialistas. O que Allen e propõe a tratar é sobre o preço que se paga a cada escolha que se faz na vida, seja ela boa ou ruim.

Para isso, se ocupa de contar duas histórias paralelas sobre dois homens comuns. Essa experiência de narrativa díptica voltaria a ser vivida por ele em outras produções, como o recente "Melinda e Melinda".
Em "Crimes e pecados", dão conta dessa tarefa o próprio Allen e o talentoso Martin Landau. O que há de comum entre os dois é que ambos estão vivenciando situações-limite, cada qual por um motivo.
Judah Rosenthal (Landau) é um oculista que vive um caso de longa data com uma charmosa mulher (Anjelica Houston, o retrato da neurose). Mas essa relação está se deteriorando cada vez mais, e ele decide que é o momento de dar um fim a tudo. Portanto, será obrigado a lançar mão de um artifício radical, sob pena de ver seu casamento naufragar. Quem pode ajudá-lo nessa questão é seu irmão mafioso, um homem que age mais do que fala.
Cliff Stern (Allen, no tom certo), por sua vez, é um cineasta que precisa decidir filmar ou não um documentário sobre seu cunhado, que detesta. Trata-se de Lester (Alan Alda), um sujeito intratável e egocêntrico. Ele ainda tenta lidar com sua paixão por Halley (Mia Farrow), uma assitente que está envolvida com o tal documentário.

Como se pode observar, tanto um quanto o outro está numa estrada que se bifurca em duas possibilidades. Uma vez que se escolhe qualquer uma delas, a outra está eliminada definitivamente. Então, é preciso pensar bastante. Através dessa história, Allen faz um diálogo quase direto com Doistoiévski, autor de "Crime e castigo". A referência à obra, entretanto, não é uma novidade, e o próprio título do filme a evidencia. Mas o diretor parece ter uma visão mais pessimista que a do escritor russo, que chega a oferecer uma alternativa de redenção para seu protagonista, diferentemente do que Allen propõe.
É importante ressaltar que esse é um dos trabalhos mais celebrados do veterano novaiorquino, pois tem o poder de conjugar humor e seriedade com perfeição. Espectadores habituados ao riso provocado por seus filmes podem estranhar a abordagem mais séria dada por ele, mas, mesmo aqui, há centelhas de humor, temperadas com legítimo sarcasmo, o que perimite, num segundo momento, constatar que se está diante de um exemplar da filmografia alleniana. Até sua amada Nova York aparece diferente, envolta em um atmosfera ebúrnea, que traduz algo de soturno na visão que o cineasta quer trazer. Suas tiradas, marca mais do que registrada, aparecem aqui também. Só que um pouco mais amargas, condizentes com o baixo grau de comicidade das histórias que vão sendo contadas.
Por esses e inúmeros outros fatores, "Crimes e pecados" se afirma como mais uma bela opção de cinema autoral e reflexivo, daqueles feitos pela mais alta estirpe de cineastas, que ganham facilmente a alcunha de clássicos absolutos. Mais do que um diretor, Woody Allen é um realizador, que fala das chagas humanas, sejam as do querer, sejam as do viver.

6 de out. de 2009

A viagem existencial de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças"

As histórias de amor nunca mais foram as mesmas depois de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". O filme é um feliz encontro de um diretor competente com um roteirista de talento comprovado. Trata-se da união entre Michel Gondry e Charlie Kaufman, respectivamente.

Aqui temos, novamente, uma maluquice oriunda da mente criativíssima de Kaufman, que navega pelos interstícios misteriosos do amor. Não há novidade no tema abordado, e sim na maneira como se o faz. Para os familiarizados com o baú de invenções do roteirista, é sabido que virá muita metalinguagem e passeios insanos pela mente humana.
Partindo dessa premissa, o espectador é convidado a acompanhar um conto sobre o nascimento e o ocaso do amor entre Joel (Jim Carrey, menos careteiro) e Clementine
(Kate Winslet, adoravelmente louca), que se conhece numa pequena estação de trem. Conversam um pouco e se apaixonam, dando início a um idílio tão intenso quanto fugaz. Isso porque Clementine se cansa da rotina na qual se transforma seu
relacionamento com Joel. Para alguém que é mutável por natureza (o que se traduz, entre outras coisas, na variedade de cores de seu cabelo), esse detalhe é inconcebível. Daí, vem o rompimento e, com ele, a ideia inovadora de Clementine:
passar por um tratamento na clínica do Dr. Howard (Tom Wilkinson). A experiência consiste em apagar da mente todas as lembranças relacionadas a alguém especificamente que, no caso dela, é Joel.

Inconformado com a atitude de sua ex-namorada, Joel decide passar pelo mesmo procedimento. O problema começa quando, no meio do processo, ele percebe o quanto ainda ama Clementine, e que não suportaria viver sem as reminiscências desse "enlace amoroso".
Contado em linhas gerais, o enredo já mostra um mescla de gêneros cinematográficos distintos. O filme consegue fundir romance, drama e ficção científica, além de uma dose de comédia, que surge das várias situações improváveis em que os personagens se metem. Essa mistura é um dos fatores que exigem a atenção do público, pois um simples piscar de olhos pode significar a perda de elementos importantes da narrativa, que não é convencional. Isso advém do fato de que, a partir da decisão de Joel em cancelar seu tratamento, várias ações se passam em sua cabeça, especificamente aquelas que se referem à sua relação com Clementine.
Essa é a chance que temos de acompanhar, mais desdobradamente, os momentos vividos pelo casal, tão banais quanto inusitados. Nessas sequências, o púbico pode mais facilmente se apaixonar pela história dos dois, mas não adiantará torcer por eles, já que, de antemão, sabe-se que não há muito futuro para os dois.
A exemplo de seus roteiros pregressos (Quero ser John Malkovich, Adaptação), Kaufman flagra, em "Brilho eterno...", a finitude da existência e a fragilidade dos laços humanos. É um cinema em que se encontram insights de reflexão, lançados sem ancoramento na realidade palatável a que estamos acostumados.
Felizmente, Gondry compreendeu essa essência, e houve harmonia entre ele e Kaufman, assim como o foi com Spike Jonze anteriormente. E, mais uma vez, há um elenco afiado para dar conta do nonsense (aparente) dessa viagem existencial. Também se tem verborragia e uma constatação cruel, ainda que não inédita: o amor não resiste à rotina.

1 de out. de 2009

"Os sonhadores", um deleite audiovisual

Os amantes de um bom cinema foram presenteados por Bernardo Bertolucci através de "Os sonhadores". O mais recente trabalho do cineasta italiano, autor de clássicos como "Último tango em Paris" e "A estratégia da aranha" novamente arrebata a plateia, a exemplo dos filmes citados anteriormente.

Tudo em "Os sonhadores" colabora para que o filme seja uma experiência inesquecível. A começar pela atmosfera de sonho e idealismo que envolve o trio de protagonistas,dos mais belos atores jovens do cinema atual. São eles Eva Green, Louis Garrel e Michael Pitt, que parecem ter sido escolhidos a dedo pelo diretor para dar vida a Isabelle, Theo e Matthew. O cenário são os protestos pelo fechamento da Cinemateca Francesa, em pelo maio de 68, data icônica no calendário ocidental, na qual eles se conhecem. É sobre esse momento efervescente que se debruça a narrativa
de "Os sonhadores", cujo título porta uma ambiguidade instigante.
Matthew é um estadunidense que chega a Paris para estudar, enquanto Theo e Isabelle são gêmeos que moram com os pais na cidade, e mantém uma intimidade maior do que a que existe usualmente entre irmãos.
Ao longo do desenvolvimento do enredo, pode-se inferir que o trio tanto é sonhador porque é eternamente otimista quanto porque vive em um mundo à parte, desprovido de qualquer conexão com a realidade da qual todos devem, ao menos em tese, compartilhar. Entender que tipo de sonhadores são os três, porém, não é o imprescindível neste filme de forte apelo sensual. Ao trancafiar seus protagonistas em um apartamento, no qual exercitam sua paixão pelo cinema de forma intensa, ignorado o mundo lá fora, Bertolucci os desnuda, inclusive literalmente, haja vista as várias cenas de nudez do trio.

O cineasta mexe com o desejo do espectador, manipulando-o, em certa medida, em sequências como a que mostra Theo, Isabelle e Matthew dividindo uma banheira. São ocasiões que exalam um erotismo mesclado a uma inocência quase pueril, já que, apesar de se mostrarem inicialmente a Matthew como libertários, num segundo momento se apresentam como algo conservadores.
Há também um punhado de referências a filmes famosos de todos os tempos, que cinéfilos mais ávidos saberão reconhecer quase de imediato. Estão lá citações a nomes como Marlene Dietrich e Robert Bresson, por meio dos enigmas propostos pelos gêmeos a Matthew. Cúmplice da ação, o espectador também se sente instado a adivinhar o título de cada obra.
Em outras palavras, "Os sonhadores" é um filme absolutamente sensorial, que convida o público a mergulhar num universo permeado por sensualidade e ousadia. Cada fotograma transpira a inquietação de quem quer afirmar sua identidade para o mundo, mesmo que ainda não esteja muito seguro dela. Tal qual os três protagonistas em seu tempo de descobertas.

29 de set. de 2009

"Retratos de uma obsessão": o poder da imagem

Nada como acompanhar uma história bem contada com um enredo instigante. O bom cinema depende bastante desse fatores unidos, assim como se vê em "Retratos de uma obsessão", estreia de Mark Romanek na direção de longas-metragens. Oriundo do mundo dos videoclipes, onde a velocidade da imagem quase sempre é frenética, ele faz em seu primeiro filme um caminho inverso. Aqui, temos imagens pausadas, longos planos-sequências e diálogos lentos, em sua maioria.

O que Romanek está interessado em observar é o poder que a imagem pode exercer sobre um indivíduo, e quais as consequências que isso pode gerar.
Para isso, foca suas lentes na história de Sly Parrish (um Robin Williams sério), que trabalha num pequeno laboratório de revelação de fotos. Ele revela, há anos, as fotos dos Yorkin, uma família que considera perfeita. Tudo indica que essa concepção venha do fato de que as imagens reveladas são sempre de momentos felizes vividos pel família, como aniversários e passeios. Sly crê piamente que existe uma harmonia inquebrável entre os membros, e sente dentro de si um desejo enorme de pertencer àquela família. O tom intimista do filme se manifesta desede o início, e uma prova cabal de que o sentimento dele pelos Yorkin passou da simples admiração é a cena em que aparece uma das paredes da sua casa coberta por fotos dos pais e do filho, os componentes da família.
Mas logo Sly faz uma triste decoberta: Will, o pai, está traindo a esposa com outra mulher. O fato causa uma grande perturbação em Sly, que decide intervir na vida dos familiares, no afã de restaurar um equilíbrio que ele julagava existir, mas que, há muito, já havia sido rompido por uma série de circunstâncias.
É a partir daí que o filme ganha em força dramática, e sua excelência se deve em grande parte à atuação visceral de Robin Williams, que se desvencilha de seus personagens cômicos para dar vida a um homem atormentado e solitário, cuja única referência de felicidade é perdida abruptamente, tirando seu chão. Ele entrega um trabalho diferente do qual nos habituamos a vê-lo fazer nos últimos anos, num papel que representa uma virada em sua carreira.
Outro mérito do filme é sua fotografia em tons esbranquiçados e um tanto monótona, que dá ao espectador a sensação de Sly diante da vida, que é totalmente sem perspectivas. A imagem tem presença determinante em sua vida, já que seu cotidiano é trazer para o papel momentos que as pessoas não querem esquecer nunca. Essa é uma das grandes sacadas do roteiro, que se apoia em um trama simples, narrada pelo próprio Sly, o que iremos descobrir na segund metade do filme.
No mais, é se deixar envolver por uma trama de ritmo lento, mas não claudicante, que procura desvendar os meandros do apego de um indivíduo a algo fantasioso, que existe apenas em sua imaginação.

26 de set. de 2009

Reencontro com o passado em "Os excêntricos Tenembaums"

Filmes sobre família existem aos montes. Principalmente sobre famílas desajustadas cujos membros tetanm se entender, mas vivem lavando roupa suja. Por isso, um filme que, em sua sinopse, apresenta alguma menção aos termos supra-citados podem ou não ser mera repetição de tema dissociada de talento.
Felizmente, no cinema desta década, temos exemplares do primeiro caso. Diretores como Jonathan Dayton e Valerie Falls, que entregaram ao público "Pequena Miss Sunshine", e Noah Baumbach, que oferece "A lula e a baleia" aos espectadores, fazem crer que é, sim, possível ultrapassar a barreira do óbvio e do convencional,guardadas as devidas proporções em cada um dos filmes citados.

"Os excêntricos Tenembaums" reforça essa lista de filmes sobre família com conteúdo interesante e abordagem idem, que conquista pela conjugação de vários elementos: elenco, trilha sonora, roteiro e direção, principalmente.
A câmera de Wes Anderson (Três é demais) captura a história do clã que dá título ao longa. O enredo nos é apresentado sob a forma de um livro, com direito a um prólogo que situa muito bem o espectador na trama. Os Tenembaums não são uma família comum, como fica evidente nessa introdução. Royal (Gene Hackman), o patriarca e Etheline (Anjelica Houston, num papel perfeito) se casaram e tiveram três filhos: Chas, Margot e Richie. Cada um deles se destacou desde muito pequeno em alguma área. Enquanto Chas e Richie apresentavam um tino incomum para os negócios e o esporte, respectivamente, Margot sempre demonstrou uma extraordinária capacidade para a dramaturgia, escrevendo peças excelentes já nos tempos do colégio. Royal, porém, deixou-os ainda pequenos, cabendo a Etheline todos os cuidados com o trio improvável.

Vinte e dois anos transcorrem e, adultos, os irmãos são vividos por Ben Stiller, Luke Wilson e Gwyneth Paltrow, nessa ordem. Os três mantêm um comportamento e uma maneira de ser estranhas, mas já não conseguiram se firmar fazendo aquilo que sabiam quando crianças. E é nessa condução estranha aos olhos mais habituados a banalidades que reside o charme e o interesse do filme de Anderson. O diretor faz um cinema de comédia, mas nunca voltado para arrancar risadas gratuitas. Como já definiu muito bem um crítico certa vez, ele é um observador contumaz da realidade, e leva para os seus filmes esse olhar tão particular sobre o homem e suas pequenas loucuras. Certamente há alguma partícula de identificação para cada um de nós, ainda que o viés usado seja o o absurdo.
Anderson coleciona sutis digressões sobre a família através dessa história. Voltando a ela, aliás, é depois dessas duas décadas que Royal decide voltar para a mulher e os filhos, forjando, para tal, uma doença terminal. Exatamente quando Etheline está prestes a se casar com um velho conhecido, vivido por Danny Glover. O retorno ao lar não será nada simples, e faz emergir feridas que ainda não cicatrizaram. Aqui, porém, não há espaço para melodrama - sem qualquer tom pejorativo - mas sim para uma sarcástica visão das relações familiares, rendendo momentos memoráveis.
É importante ressaltar que todos os atores rendem mais que a média, e constroem personagens que envolvem e despertam risos sinceros por uma identificação atravessada pela bagagem pessoal de cada espectador. A atmosfera é algo bizarra, e não deixa impassível a quem a assiste. Significa dizer que é um filme para amar ou detestar, pois Anderson não fica no meio termo. Mas é assim mesmo que vale: posicionar-se contra ou a favor de um filme, com uma opinião formada.
O conselho a ser dado é se deixar envolver por essa fábula de esquisitices, ancorada num jeito de encarar a vida com um humor refinado, mostransdo que é possível rir de si mesmo e das aberrações de cada dia. E o filme também é a prova de que se pode sempre dizer a mesma coisa, mas cada vez de um jeito novo.

24 de set. de 2009

"Hannah e suas irmãs", um filme sobre família

Acompanhar um filme dirigido por Woody Allen é sempre mergulhar em um universo um tanto particular. Não no sentido de inacessível, mas na acepção de mravilhoso. Com um cinema calcado no que há de mais humano em cada um de nós, Allen disseca nossas mazelas interiores com talento inenarrável, ora pelo viés cômico, ora pelo ângulo dramático. Essa dicotomia perpassa toda a sua obra, dotada de uma irregularidade apontada pela crítica. A natureza de "Hannah e suas irmãs" é a segunda, mas o filme pode facilmente oscilar entre os dois grandes grupos de produções do cineasta novaiorquino.

Filmado em 1986, pertence a uma safra um pouco mais antiga de sua extensa filmografia, e conta com um elenco afinadíssimo. O enredo é dos mais simples, mas essa nunca é a questão de maior relevância em seu cinema. Ainda assim, vamos a ele, em linhas gerais: Hannah, a personagem-título, vivida por Mia Farrow (presença constante nos filmes de Allen até o início da década de 90), é uma abnegada mulher que serve de esteio para sua família desestruturada, mas que permanece unida graças aos seus esforços. Cada membro apresenta algum tipo de conflito, fator que gera o desenrolar de fatos de que é feito o filme (ao menos na maioria dos casos...). Suas duas irmãs, vividas por Barbara Hershey e Diane Wiest, não estão satisfeitas com as vidas que levam. Uma delas é alvo da paixão secreta de seu cunhado, que acaba vindo à tona.
Originalidade é algo que os admiradores do cinema de Woody Allen não se preocupam em encontrar. Afinal, o diretor está sempre focando suas lentes no opróbrio sob o qual muitas vezes nós mesmos nos colocamos. Interessa sim, a cada novo filme lançado por ele, ver como se dará a abordagem desse tema crucil. A moral está presente na maioria dos casos, ainda que de maneira discreta no caso de "Hannah e suas irmãs".
É muito fácil se identificar com as histórias contadas por Allen, já que ele trata das neuroses de que todos compartilhamos em alguma medida. Os melhores momentos do filme são proporcionados pelo personagem de Michael Caine, ótimo na pele de um homem que não vê a hora de consumar seu amor pela cunhada. São cenas divertidas e até patéticas, mas com uma veracidade que quase as torna confessionais.
Com mais este exemplar de comédia Allen comprova também que é um tarimbado diretor de atores, extraindo excelentes interpretações de todo o elenco. Não há desempenhos medianos, todos oferecem ótimas composições de seus respectivos personagens.
Vale avisar, ainda, que em "Hannah e suas irmãs" não se vê grandes arroubos visuais ou de paixões em seus personagens. O que cativa, de fato, no filme, é sentir o doce sabor de uma história comum, mas muito bem contada.

14 de set. de 2009

"Paranoid Park" ou um olhar sobre o vazio

Dos cineastas contemporâneos, o que apresenta um olhar mais acurado sobre a juventude é Gus Van Sant. Cada trabalho seu é digno de grande atenção, pois em alguma medida o diretor fala do sentimento de tédio que parece assolar os jovens, não só os dos EUA, mas os jovens de qualquer lugar do mundo. Seus filmes parecem retratar realidades universais, o que traduz uma das características mais importantes do cinema: a de romper as barreiras da língua, do tempo, e do lugar.
Em "Paranoid Park", Van Sant volta a exercitar sua câmera na busca por um ângulo de visão aproximado de seu objeto preferido. A narrativa é centrada na figura de um jovem e sua extrema passividade diante da própria vida. Ele é um skatista que está sempre andando pelas ruas com seus amigos em busca de emoções sobre as quatro rodinhas. Pouco se sabe a respeito de seus pais ou de possíveis irmãos, apenas aquilo que o diretor deixa transparecer através dos pensamentos e relações de Alex, o protagonista do filme.
Como já fizera em "Elefante", aqui o cineasta apresenta diferentes perspectivas para uma mesma cena, ainda que sob a ótica de um mesmo personagem. Van Sant também abusa do tempo psicológico, injetando, assim, um realismo intenso a cada sequência. O fato de os atores não serem profissionais é outro fator determinanta para a naturalidade de seus desempenhos. A cada nova produção, o diretor reduz o número de caras conhecidas do público. Dessa vez, por exemplo, o elenco foi escolhido, em sua maioria, pelo My Space.
Outro grande atrativo de "Paranoid Park", que rendeu a Palma de Ouro a Gus Van Sant em Cannes, é sua fotografia. O espectador é deslumbrdo com belíssimas imagens coreografadas, que apresentam um balé no ar proporcionado pelas manobras mirabolantes dos skatistas do lugar que dá título ao filme. Alex, ao ir lá pela primeira vez, fica extasiado diante da audácia dos garotos que vê.
É depois de ir embora dali, porém, que a vida do rapaz dá uma guinada inesperada. Ele se envolve acidentalmente em um assassinato, fato que gera nele uma sensação de culpa. Esse sentimento passa a corroê-lo, de tal forma que ele procura apagar todas as evidências possíveis de seu delito involuntário.
Van Sant pode ser acusado de niilista, mas seu objetivo é justamente capturar o vazio, o que é paradoxal. É como a vida, já que viver é um eterno paradoxo.
No transcorrer da trama, enxuta em seus pouco mais de 90 minutos, seremos confrontados com a apatia e o tédio que dominam a rotina de Alex, o que, de certa forma, incomoda e leva a uma forte reflexão. O que fazemos diante de uma situação que se nos impõe sem aviso prévio e altera o rumo de nossas vidas? A falta de uma reação pode ser uma das respostas. Ou a ausência dela.

1 de set. de 2009

A consciência do fim em "O tempo que resta"

Uma das grandes angústias do ser humano é saber de sua finitude.Desde que nascemos, somo confrontados, de alguma maneira, com aquela que é a única certeza da vida. Imagine quando se sabe quase exatamente quando se vai morrer. É desse tema bastante espinhoso que trata "O tempo que resta".
Dirigido por François Ozon (Amor em cinco tempos), o filme é denso, triste e lindo. O protagonista é Romain (Mevil Poupaud), um celebrado fotógrafo de moda que vê seu mundo se desestabilizar ao descobrir que tem um câncer em estado terminal.A primeira reação apresentada por ele é a negação, já que se recusa a admitir sua condição. A esse sentimento se segue a revolta, que faz com que Romain maltrate todos ao seu
redor, inclusive seu namorado Sacha, com quem decide terminar. Sua rudeza atinge inclusive sua irmã mais nova, numa cena forte, em que ele a destrata e ofende até o sobrinho.
Tentando se acostumar com a ideia de seu fim próximo, Romain se recusa a fazer tratamento contra a doença, já que não se julga capaz de lidar com todas as dores e complicações que vêm com a quimioterapia. Ele, então, procura por sua avó Laura (Jeanne Moreau, em participação afetiva), com quem se abre. Quando ela lhe pergunta porque ele a procurou, Romain diz que, como ele, ela tem pouco tempo de vida. A sequência que mostra a conversa franca entre avó e neto, é simples e emocionante.
O tema da descoberta de uma doença terminal não é novo. Há inúmeros filmes que tratam a esse respeito. Mas há um diferencial em "O tempo que resta": o personagem principal não pensa em uma lista de extravagâncias para fazer antes de morrer. Diferentemente disso, Romain passa a ver a vida de modo mais contemplativo, sem necessariamente se tornar uma pessoa melhor. Ozon exala desilusão com seu longa, e apresenta a pequenez humana diante de uma doença, de um mal que se instala sem aviso prévio.
A cena final, em que Romain está diante do mar, resume bem o contraste entre a natureza e o homem: deitado sobre a areia está o fotógrafo e, à frente dele está o mar, impávido,arrebatador. A tese de que não somos nada diante de tudo que há no mundo é reforçada. De um modo poético,longe de um final no esquema hollywoodiano.

27 de ago. de 2009

"Morangos silvestres": a persistência da memória

A obra de Ingmar Bergman já se encontra inscrita no cânone cinematográfico. Tal qual Machado de Assis ou Fiódor Dostoiévski para a literatura universal, só para citar dois exemplos, a produção bergmaniana é preciosa para o cinema.
Sua filmografia é vasta, mas se tivéssemos de resumi-la em uma única palavra, talvez a melhor fosse: interiores. Daí, pode-se desdobrar o que configura a grande busca do diretor: o entendimento do que se passa no coração dos homens, a angústia que qualquer um tem diante da existência e de sua finitude, as incongruências da vida a dois, o silêncio que paira, latente e lancinante, entre os homens, ainda que se fale muito e se dialogue muito. Temas universais, como se vê, ainda que quase toda sua obra tenha sido filmada na longínqua Suécia.
No caso de “Morangos silvestres”, a chave para que se penetre no longa não está presente desde seu título, um tanto obscuro, mas interessante. O interesse de Bergman no filme é flagrar a memória, uma das mais importantes ferramentas que um indivíduo tem, pois se trata de uma aliada do conhecimento.
A memória específica de que o sueco fala no filme é a de um professor de idade avançada, que tem um prêmio importante para receber na cidade onde morou, por sua contribuição como docente e como médico. Para chegar ao local da honraria, toma seu carro, e para lá segue com sua nora. No caminho, é tomado por lembranças de episódios de sua longa vida. Lembranças boas e ruins, que trazem à boca e ao coração gosto de mel ou de fel, como ocorre com qualquer indivíduo. O mergulho feito pelo personagem em suas memórias é acompanhado pelo espectador, que flagra a infância do personagem ,na qual ele costumava colher morangos silvestres, o que justifica o título dado ao filme. O idoso relembra festas, diálogos, pessoas, cores, sabores, texturas e emoções que o atravessaram ao longo do tempo.

Ainda que em preto e branco, a história é contada com belas imagens, e num ritmo lento para os padrões contemporâneos. Lentidão que cabe às recordações de alguém que já não tem mais seus vinte anos. E vale lembrar também que o longa foi rodado no distante ano de 1957, época em que Bergman dirigira outra pérola: “O sétimo selo”. Apesar de longe no tempo, o cinema de Bergman não ficou datado. Suas questões são ainda atuais, pois o ser humano é sempre ser humano, em qualquer lugar ou momento histórico.
Os filmes do cineasta evocam todo tipo de discussão: filosófica, existencial, psicanalítica. A preocupação aqui não é enveredar por nenhum desses caminhos, mas apenas descrever o êxtase gerado pela contemplação de pequenas epifanias de alguém que já percoreu uma extensa trajetória, o que Bergman faz como poucos. Ele desnuda o humano, expondo suas fragilidades, tendo a câmera como cúmplice. É como se, em certa medida, o espectador também fosse desnudado, a partir da identificação que tem com as cenas apresentadas.
São esses fatores que, somados, dão beleza, graça e vitalidade a “Morangos silvestres”. É cinema autoral, que não se faz preocupado em arrebatar grandes platéias, e que deleita olhos enfadados de efeitos visuais escalafobéticos. Um cinema que se faz sem traço algum de maniqueísmo, sem a preocupação de se colocar um herói e seu antagonista. Até porque, sabe-se muito bem, nós mesmos podemos ser nossos maiores inimigos.
Assistir ao filme é tarefa obrigatória. Mas é uma obrigação que e cumpre com extremo prazer por aqueles que se interessam por vislumbrar a dimensão do humano, e que desejam compartilhar, ainda que pela simples contemplação, a dúvida sobre o sentido da vida, a maior inquietação que temos.

15 de ago. de 2009

"Pequena Miss Sunshine" ou a saga de um clã disfuncional

Um dos maiores achados dos últimos anos no cenário independente é, sem sombra de dúvida, "Pequena Miss Sunshine". O filme marca a estreia na direção do casal Jonathan Dayton e Valerie Falls. Estreia alvissareira, diga-se de passagem.
Nada como acompanhar uma história muito bem contada, com sabor de alegria e uma dose de lágrimas de comoção. Unindo esse dois polos aparentemente antagônicos, a dupla de diretores exibe um conto para toda a família, capaz de gerar identificação com algum dos tipos apresentados.
O clã retratado no filme está longe de representar o que o mundo ocidental conhece como o modo de vida "americano" (prefiro o termo estadunidense). Na verdade, eles são extamente o oposto desse modelo tão propagado por toda a parte.
Cada membro da fampília exibe algum tipo de disfuncionalidade. O patriarca é Edwin, vivido por um inspirado Alan Arkin, viciado em heroína e emissor de frases com alto teor de sarcasmo. Ele está ensaiando sua neta, a pequena Olive (Abigal Breslin) para um concurso de beleza infantil, que dá título ao filme. Os passos da coreografia são um segredo compartilhado pelos dois, o que gera uma certa preocupação nos pais da garota.
Richard (Greg Kinnear) é o pai, autor de um método de auto-ajuda que garante o sucesso em apenas alguns passos. Mas a única coisa que ele consegue com isso é o fracasso.
Seu filho mais velho, Dwayne (Paul Dano, ótimo), fez voto de silêncio, que durará até que ele se torne piloto, seu sonho de vida.
Para completar o festival de pequenas "bizarrices", o irmão de Sheryl (Toni Collette), a mãe, acaba de tentar o suicídio, depois de ter sido abandonado pelo namorado, que preferiu um outro homem mais especialista em Proust do que ele. O tio em questão é vivido pelo excelente Steve Carrel, que dá dignidade ao personagem, um dos primeiros interpretados por ele depois do estouro de "O virgem de 40 anos".
Com momentos oscilantes entre drama e humor, o filme exibe uma galeria de tipos carismáticos, que conquista desde o início o espectador. É difícil ficar indiferente à viagem que os familiares fazem em uma velha Kombi amarela para chegar ao local do concurso do qual Olive tanto sonha participar. Com sua doçura, a menina consegue fazer com que todos comprem seu desejo de vencer a competição e, no caminho, verdades virão à tona e um triste acontecimento marcará a família.
Recheado de passagens marcantes "Pequena Miss Sunshine" merece ser visto e revisto. O filme arrebatou o público desde sua primeira exibição, no festival de Sundance, reduto do cinema independente. No Oscar 2007, também se saiu muito bem, levando as estatuetas de melhor ator coadjuvante para Arkin e melhor roteiro original. Merecia muito mais.
Merece destaque o momento em que Dwayne descobre que não poderá ser piloto, e Olive, sem dizer uma única palavra, consegue convencer o irmão a seguir na viagem com todos. E também a louca coreografia apresentada pela menina quando concorre ao prêmio. A maneira como ela arrasta os pais, o tio e o irmão para acompanhá-las num ritmo um tanto inapropriado para sua idade.
E é assim, entre risos e lágrimas, que "Pequena Miss Sunshine" vai direto no coração, e ensina de maneira simples uma lição valiosa: família é sempre família, seja aqui, seja numa tribo remota de um lugarejo na África. O importante é saber conviver com aqueles que não escolheu.



9 de ago. de 2009

"A rosa púrpura do Cairo", uma declaração de amor ao cinema

Woody Allen adora se utilizar da metalinguagem, nas mais diferentes formas. Seja falando do universo dos ricos e famosos (Celebridades), seja desnudando as agruras existenciais de um diretor (Desconstruindo Harry), seja mostrando o mundo da magia (Scoop - O grade furo). De tempos em tempos, o cineasta se volta para esse profícuo terreno.
"A rosa púrpura do Cairo" talvez seja um dos exemplos mais felizes de incursão nesse ambiente. O próprio Allen já declarou que é o seu filme favorito.
Aqui, ele narra a história de uma simpática garçonete apaixonada por cinema. Quase todos dos dias, ela vai à sala escura de sua pequena cidade e se delicia com o que estiver em cartaz. Essas idas ao cinema são como escapadas que ela dá do mundo real. Uma espécie de refrigério em meio à realidade triste que ela vive. Seu marido (Danny Aiello) é um bronco que vive de explorá-la, o que a torna ainda mais desiludida.
Depois de ver e rever um filme chamado "A rosa púrpura do Cairo", ela testemunha o que parecia impossível: o ator principal, cujas falas ela já havia decorado, sai da tela, e passa a viver na realidade. O romance entre os dois é quase inevitável.
Desde o início, o filme é uma declaração apaixonada ao cinema, conduzida com simplicidade e genialidade. Estão lá algumas marcas de sua direção: diálogos ágeis, trama divertida sem abrir mão da inteligência, algumas neuroses dos personagens principais.
Não é preciso muito para que um filme se torne inesquecível, e "A rosa púrpura do Cairo" consegue o feito com poucos elementos. A sucessão de fatos engraçados que se dá após a saída do protagonista do filme é um dos achados do longa. Jeff Daniels se sai muito bem na pele do personagem, e também do ator que interpreta o personagem. O ator consegue imprimir uma marca diferente a cada um dos tipos, o que resulta numa interpretação de primeira.
Apesar da ausência de Allen na frente das câmeras, Mia Farrow segura muito bem o interesse por sua protagonista, e está no limite exato entre a doçura e a ingenuidade.
Esse é daqueles filmes que conquistam o espectador à primeira cena, por sua atmosfera de lirismo e encantamento. Da extensa galeria alleniana, é um dos que mais merecem ser visto e revisto. Trata-se de um convite à fantasia impossível de se recusar.