19 de abr. de 2010

A espionagem da essência juvenil de "Elefante"

Muitos diretores, ao longo de suas carreiras, desenvolvem afeição por temas específicos, e acabam por construir suas filmografias praticamente baseadas apenas em determinado assunto. Essa escolha não representa necessariamente um defeito, mas requer talento redobrado para se evitar a repetição. Quando consegue suplantar o mais do mesmo, um diretor se torna consagrado. E vai para uma galeria que já inclui Federico Fellini, com sua visão do vazio da vida, Ingmar Bergman, com sua busca por flagrar o abismo que mora entre os homens, Woody Allen, com sua paixão pelo universo do artista, e outros poucos e bons. Decerto Gus Van Sant merece figurar nesse "clube", já que vem demonstrando, filme após filme, uma grande capacidade de lançar novos olhares acerca do seu tema favorito: a juventude.

"Elefante", dirigido por ele em 2003, confirma perfeitamente essa máxima. O longa é um belo ensaio sobre os colapsos da adolescência retratado ao mesmo tempo com crueza e intimidade. Van Sant mostra que entende de quem está falando. Como se trata de um de seus trabalhos mais famosos, a sinopse já é conhecida por muitos. Trata-se de 24 horas na vida de dois amigos de escola, que dividem seu descontentamento com o mundo e as pessoas ao seu redor. Eles se consideram grandes injustiçados pelo destino, que lhes reservou uma rotina detestável, e colegas de turma que só lhe fazem mal. Por meio dessa simples ideia, o cineasta começa seu filme, no melhor estilo "câmera na mão". Suas lentes procuram captar o íntimo dos personagens, tão próximos do real que o rótulo de personagens parece quase incabível.
Aliado a uma filmagem que está pouco preocupada com o cenário, mas sim atenta ao estado de espírito de seus objetos de estudo, por assim dizer, Van Sant oferece vários pontos de vista para um mesmo acontecimento. Em determinado momento, dois jovens caminham pelos corredores da escola enquanto conversam, e são abordados por um outro amigo em comum, que vem na direção oposta. É uma sequência simples, sem grandes sobressaltos, mas que ganha força pela apresentação, alguns minutos depois, de um novo ângulo. Essa quase repetição permite ao espectador detectar outros aspectos dos diálogos e do estado dos personagens, que podem ter escapado na primeira observação. Tal caracterítica também faz com que tudo o que se vê na tela seja relativizado. A perspectiva de Van Sant nunca é tandenciosa, já que ele se preocupa em desvendar vários lados de uma mesma moeda. Com isso, levanta a questão: quem está certo quando o olhar é sobre um mesmo objeto? Tudo é uma questão de ponto de vista, de vivências particulares e de gostos pessoais.

Para rodar o filme, o cineasta abriu mão de nomes conhecidos, preferindo contar com muitos não-atores, o que confere ainda mais veracidade às sequências vistas. Sabe-se de antemão que os eventos apresentados desencadearão um massacre naquele lugar, o estado do Oregon, no interior dos Estados Unidos. A barbaridade foi impetrada por jovens que se sentiam ridicularizados por seus companheiros de classe, o que alerta para o problema do bullying, uma prática comum a muitos adolescentes em várias partes do mundo. Nesse ponto o cinema de Van Sant também contribui para estender uma discussão para além das fronteiras de seu país. Seus personagens geram forte identificação, porquanto não estão circunscritos a um ambiente específico, ou a uma realidade financeira e de conhecimento restrita. E o mais importante de tudo é que Van Sant consegue construir seu convite ao debate sem soar panfletário, trazendo a consciência de que determinismos e generalizações não representam nenhuma ajuda para entender e procurar possíveis soluções para a inquietude que paira sobre os jovens dos dias atuais. Esse é o grande tema de "Elefante", que se revela através do retrato de uma realidade angustiante, que aturde pela urgência com que pede transformação.
Van Sant está longe de ser manipulador, porque não condena nem passa a mão sobre a cabeça daqueles de quem se ocupa. Interessa muito mais à sua câmera e, por extensão, a ele, espiar, investigar e deduzir possibilidades para o tédio que tomou conta das relações juvenis, e que também é um pouco de todos nós. Com sua maneira de acompanhar o cotidiano de pessoas tão próximas do real, ele abre margem para discussões existencialistas, que muitos adoram enxergar em seus filmes. Seja como for, acima de qualquer coisa o diretor fala de nossas agonias, da grande dificuldade que é existir e se entender. E o caminho escolhido por ele para essa questão é o da imagem, que quase sempre tem mais eficácia de comunicação que longos diálogos. Na falta de palavras, se apoia em silêncios e pequenos gestos, e a escolha pela contemplação tem sempre uma força descomunal.

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