29 de ago. de 2010

"Cinema, aspirinas e urubus": uma ode à simplicidade

Quem menospreza o cinema nacional corre o sério risco de perder um grande filme como "Cinema, aspirinas e urubus". Aliás, a ojeriza à cinematografia de qualquer nação é completamente infundada, pois em qualquer lugar do mundo existem bons e maus diretores, bons e maus filmes. Cabe a cada espectador vasculhar no amplo universo de produções aquelas que mais lhe aprazem. Sempre haverá algum filme que agrade a algum gosto pessoal. No caso de "Cinema, aspirinas e urubus", o título um tanto estranho encobre uma obra em que a sensibilidade reina absoluta, através de diálogos, cenas e caracterização de personagens.

Quando de seu lançamento, em 2005, o longa atraiu tanto o público quanto a crítica, que rapidamente comprou a história de Johann (Peter Ketnath) e Ranulpho (João Miguel), dois homens em estado bruto que têm suas trajetórias ordinárias confrontadas em pleno sertão brasileiro. Cada qual por seu motivo, eles se unem para percorrer lugares áridos, marcados pela desesperança de seus habitantes, que encontram nas sessões de cinema do remédio vendido por Johann um regaço para suas almas cansadas de sofrimento. Suas longas viagens incluem no roteiro visitas a comunidades de gente simples, para quem o alívio chega sob a forma de pequenos comprimidos, a aspirina do título.
A época em que vivem é o início do século XX, durante a Segunda Guerra Mundial, período nebuloso da história ocidental recente, que justifica a vinda de Johann para o Brasil. Afinal, ele é um alemão, que acaba radicado em nosso país, por uma questão de sobrevivência. Como Ranulpho, ele não tem raízes fincadas em lugar algum, e deseja apenas ter para si o pão diário, através do qual vai sobrevivendo. Ambos apresentam outros pontos de convergência, como a simplicidade com que enxergam a vida, que nem sempre é vista como uma dádiva, mas como um fardo pesado que se deve carregar diligentemente. Juntos, eles sofrem baques, vivenciam experiências inesquecíveis diante da miserabilidade dos indivíduos para quem oferecem o medicamento, e buscam se adequar ao que as circunstâncias lhes apresentam.

A grande eficência do filme está, entre outras coisas, na direção segura de Marcelo Gomes, que reforça o tempo todo uma estética da simplicidade com os diálogos econômicos dos personagens centrais do longa. Cada fotograma é marcado pelo lirismo em seu sentido adjetivo, no qual assume o significado de expositor das impressões pessoais de um eu. Longe de qualquer ambição de análise teórica de "Cinema, aspirinas e urubus", essas linhas funcionam muito mais como uma impressão afetiva sobre uma história que tem brilho próprio. Tanto Peter Ketnath quanto João Miguel foram escolhas bastante acertadas para dar vida a Johann e a Ranulpho. Ao observá-los na tela, tem-se a nítida ideia de que eles nasceram para os papeis, e fica até mesmo a dúvida se eles estão mesmo interpretando.
A câmera de Gomes também é uma parceira eficaz. Sua observação do desenrolar dos acontecimentós é discreta, como a de uma fiel testemunha que apenas espia ao redor, isenta de qualquer sentença contra ou a favor do objeto de observação. O cineasta despe seus personagens de qualquer maquiagem, e não faz deles meras vítimas da vida, rejeitando a hipótese, remota que seja, de lhes imprimir uma aura de desvalidos e pobres de espírito. Pelo contrário, eles crescem com a longa jornada em que se inscrevem, colhendo fatos e situações para os quais não veem solução, mas que lhes servem de fonte de encantamento ou indignação. Extraem daquilo que vivem lições preciosas, e buscam obter vitórias em meio à limitação. Sombras discretas de um otimismo pairam em seu caminho, demonstrando que eles se conformam apenas com centelhas de um porvir mais positivo que os dias hodiernos.
Com "Cinema, aspirinas e urubus", Marcelo Gomes prova que a cinematografia brasileira pode ser bastante fecunda, apresentando títulos que dialogam com uma macrorrealidade, para além das fronteiras do nosso país. Àqueles que insistem em encerrar a produção brasileira a uma masmorra obscura, dentro da qual cabe somente o retrato violento de favelas - o que nem é um demérito, por razões de ordens diversas - a lição de que um bom cinema também pode abdicar dessa premissa é urgente e necessária. Depois da assistir ao filme, certamente a sensação que ficará é a de estar diante de um talento indiscutível de alguém que consegue radiografar as mazelas de uam sociedade doente, cujos problemas apresentados há décadas ainda não encontraram uma solução eficiente.
E tudo isso assinalado por um ritmo, uma montagem e uma edição que deixam o melhor para o espectador, sem fazê-lo tropeçar em concessões óbvias. Gomes faz a opção por uma drama de contornos naturaliastas, apresentando a realidade da qual fez um recorte em tom quase documental, espargindo progressivamente a tênue fronteira entre real e fictício. Não por acaso, a empatia é gerada no espectador sem grandes esforços, pois aquilo que está diante de seus olhos é uma realidade patente, isenta de vernizes filosóficos. E a paisagem é revelada através de um meticuloso estudo de cores contrastantes, jamais edulcorados por qualquer fagulha de idealização. Por meio de uma fotografia excelente, que demarca a solidão daqueles indivíduos que são dois entre tantos outros por que passam dia após dia, o filme cumpre um papel de porta para a reflexão sobre o cotidiano de seres que defendem honestamente seus víveres. E, mais do que isso, o papel de plataforma para o pensamento crítico a respeito da condição humana.

19 de ago. de 2010

O absurdo do dia a dia narrado em "Ervas daninhas"

O veterano Alain Resnais tem lugar cativo no imaginário cinéfilo há muito tempo, desde que dirigiu os estimados Hiroshima, meu amor (1959) e, posteriormente, Ano passado em Marienbad (1961). Com essa obras icônicas, o realizador francês pavimentou sua carreira, sendo o único entre os que praticam o chamado "cinema de autor" a não escrever os seus próprios roteiros. Seus 55 anos de estrada constituem um mosaico amplo a respeito da fragilidade humana, somado à angústia pela passagem do tempo e ao baú de recordações de que é formada a memória. E essa espécie de perseguição ao tipos humanos em sua incursões pelas entrelinhas do próprio pensamento mais uma vez é a tônica de um trabalho seu. Especificamente "Ervas daninhas" (2008), exibido no Festival de Cannes de 2009.
Trata-se de mais uma formidável caminhada pelo terreno fértil da inquietude dos homens por conta daquilo que não são capazes de dominar: a reação do outro às suas palavras, o peso de suas escolhas frustradas, além da inserção do absurdo no cotidiano. Tudo isso auxiliado por uma fotografia primorosa, marcada pelas tonalidades berrantes que, em primeira instância, denunciam a artificialidade das relações humanas na contemporaneidade. Em tempos de politicamente correto, Resnais se atreve a questionar os protocolos estabelecidos entre os indivíduos, quando precisam entrar em contato uns com os outros.
O estopim para essa discussão é o desaparecimento da bolsa de uma dentista, Marguerite (Sabine Azéma), que continha todo os seus documentos, fruto de um roubo quando ela está saindo de uma loja. Logo na abertura do filme, durante a exibição dos créditos iniciais - é sempre bom quando o filme apresenta créditos iniciais -, o espectador percebe que Marguerite é uma personagem algo inusitada. Com a ajuda de um narrador onisciente, vai-se descobrindo um pouco de sua personalidade anticonvencional, que se traduz, entre outras coisas, em uma certa compulsão pela compra de sapatos. Seus visual também traz elementos interessantes, do ponto de vista do fora do comum, já que ela adota cabelos ondulados, ruivos e desgrenhados.

Sua trajetória se cruza com a de um homem e sua vida absolutamente banal: Georges (André Dussolier), casado e pai de dois filhos já adultos, que desenvolve uma estranha obsessão por Marguerite. Aos poucos, Resnais vai alinhavando a estrutura de seu filme para conjugar o bom roteiro de Alex Reval e Laurent Herbiet, uma adaptação do romance de Christian Gailly, à atuação precisa e sem retoques de Azéma e Dussolier. Aliás, Azéma é uma habitual colaboradora do cineasta, tendo estado presente em filmes como "Amores parisienses" (1997), "Beijo na boca, não! (2003) e "Medos privados em lugares públicos" (2006). Nesse último, o realizador já dava indícios de que pretendia trabalhar a questão da dificuldade de relacionamento entre as pessoas, também se utilizando das cores estouradas.
Portanto, em "Ervas daninhas" essa preocupação, por assim dizer, ganha terreno mais uma vez, sendo o humor negro um grande aliado dos personagens. De uma maneira ou de outra, todos parecem estar perdidos nas escolhas que fazem, sem ter muita certeza daquilo que estão fazendo. Em meio a esse cenário de inusitado, surge um personagem enigmático como o de Mathieu Amalric, um dos atores mais assíduos do cinema francês contemporâneo, ao lado de Daniel Auteuil. É com ele uma das melhores cenas de todo o filme, quando Marguerite vai até a delegacia onde seu personagem trabalha, a fim de reaver a sua bolsa roubada, que lá é entregue por Georges. Uma vez presente no local, Marguerite desenvolve um diálogo inacreditável com o policial, que tem atitudes muito anticonvencionais em sua abordagem à cidadã.
O grande achado do longa é exatamente esse: lidar com o óbvio e o bizarro que permeiam as relações humanas o tempo todo. Resnais fabula sobre as nossas manias, esquisitices e da grande incomunicabilidade que paira, latente, sobre tudo o que tentamos dizer aos outros, com palavras, gestos, olhares e atitudes. No título original, as ervas são loucas, e não daninhas. Porém, de uma forma ou de outra, elas parecem traduzir a mesma ideia: para o ser humano, um simples acontecimento pode ser o bastante para desenvolver nele um pensamento corrosivo, que o leva a cometer extravagâncias em nome desse pensamento. Uma obsessão que não soa distante de uma realidade compartilhada por ser feita sob a costura perfeita de um mestre naquilo que se propõe a fazer. Resnais não está, nem de longe, preocupado em explicar a vida, mas em enternecer nossos corações com seu mergulho no que há de mais íngreme na ladeira de loucuras de que somos feitos. E, quando a vemos resplandecendo nos outros, no fundo, sentimo-nos menos sozinhos, ainda que a nossa loucura seja sempre diferente.

5 de ago. de 2010

Mágica, mistério e humor afiado em "Scoop - O grande furo"


A crítica costuma chamar despretensiosos os filmes que são produzidos sem o aval de cifras milionárias, sem elencos muito famosos, sem uma narrativa grandiloquente, sem cenas mirabolantes, sem grandes viradas de roteiro, entre outros fatores. Pois esse é o termo que melhor se encaixa numa qualificação rasteira de “Scoop – O grande furo”, a incursão de Woody Allen no cinema do ano de 2006. Todos os elementos que o cineasta deixara adormecido na década de 70 retornaram com grande força nessa produção, que, para além de ser uma trama divertida em sua despretensão, é uma joia que seduz fãs mais ardorosos, resistentes à ideia de apontar defeitos na obra de seu objeto de adoração – inclui-se, aqui, o autor dessa crítica – e aos menos entusiásticos do universo todo particular de Allen.
A força do longa está, como de hábito na filmografia do realizador vetusto, em diálogos muito bem escritos, proferidos, aqui, mais uma vez pelos belos e libidinosos lábios de Scarlett Johansson – que Ryan Reynolds não saiba ler português. São eles que movem as ações de uma protagonista atrapalhada em suas tentativas de acertar, mas vítima de sua própria ingenuidade. Sondra Pransky (Johansson) é uma estudante de jornalismo neófita atrás do furo de reportagem de sua vida, o que já é a razão de ser do título da obra. Na busca por uma notícia que seja a maior novidade, ela se envolve em uma trama de magia e vigarice, no melhor espírito das comédias setentistas.
Essa é a segunda colaboração de Johansson com Allen, que chegou a ser apontada como a musa desta década do diretor. Mas cada uma das parcerias traz uma faceta distinta da atriz. Se em “Ponto final” (2005) ela era o próprio retrato da sensualidade, elevada à sua máxima potência pela câmera do cineasta, em “Scoop – O grande furo”, sua Sondra é incrivelmente inocente, metendo os pés pelas mãos a cada novo passo que tenta dar. Com isso, fica evidente a aproximação da atriz com a persona criada por Allen para habitar dez entre dez filmes seus. Ela absorve trejeitos de diretor, mimetizando-se com grande talento à narrativa do filme. O curioso é que Allen costuma lançar mão de um alter ego apenas quando não está em cena. Entretanto, aqui, ele também aparece em frente às câmeras, o que se justifica pela paternidade (arranjada) entre seu personagem e Sondra. Um detalhe que chama a atenção é que, no fundo, existe uma semelhança física entre Johansson e Mia Farrow, musa de outrora do diretor. A caracterização de Sondra lembra bastante a de Halley Reed, personagem de Farrow em “Crimes e pecados” (1989). De certa forma, é como se Allen visse em Johansson uma versão mais jovem, e igualmente talentosa de Farrow.
Nas desventuras vividas por Sondra, surgem duas figuras carismáticas para interpelá-la, cada qual à sua maneira. Primeiro, é Sid Waterman (Allen), um mágico cheio de truques duvidosos que promete auxiliá-la em sua procura pela matéria perfeita. E tem ainda Peter Lyman (Hugh Jackman, mostrando mais que músculos e cara de mau), um charmoso aristocrata que tira a jovem do sério com seu jogo de sedução. Para os mais curiosos, o tal furo pelo qual Sondra procura diz respeito a Peter, que pode ser um terrível serial killer em busca de uma nova vítima. A deixa é dada por Joe Strombel (Ian McShane), uma espécie de oráculo que revela à jovem a existência desses crimes.

O longa também é o segundo de Allen rodado em Londres, depois de tantas obras centradas na sua Nova York natal. A troca de cidade fez bem à sua filmografia, e mostrou que a atmosfera londrina pode render não só um drama dostoievskiano, mas também uma singela comédia, como é o caso desse “Scoop” (no original). Tudo na trama é conduzido com uma leveza admirável, que resgata a mão de Allen para os enredos mais “inocentes”, por assim dizer. Entre os exemplares recentes de sua produção, apenas “O escorpião de jade” (2001) se aproxima desse clima de humor á moda antiga no qual o realizador é especialista. Não faltam, portanto, autorreferências feitas com muita habilidade.
Por conta de sua fluidez, o filme não apresenta grandes novidades em relação ao que Allen já produziu até hoje. As neuroses de um indivíduo, tão comuns em sua obra, mais uma vez são dissecadas aqui, de maneira minimalista, refletindo-se especialmente na figura de Sondra, que não sabe se se entrega de uma vez aos encantos de Peter, ou se deixa a voz da razão a conduzir ao final de sua investigação. Nesse delicioso mistério, a essa voz é ninguém menos que Sid, que a leva a algumas das situações mais hilárias do filme, que se define muito bem com uma excelente comédia de erros. Mais uma vez, por fim, Allen prova que não é preciso inovar o tempo todo para cativar a atenção de um espectador interessado em uma história simples. Alguns lugares-comuns, se bem administrados, podem render pequenas pérolas. E “Scoop – O grande furo” está aí para provar exatamente isso.

2 de ago. de 2010

"Na cama": o enredamento pelas palavras


Por meio de um longo diálogo, Matías Bize convida seu espectador a estar "Na cama". O longa do diretor chileno tem um título absolutamente convidativo, mas engana aos que pensam se tratar de uma obra de sexo vulgarizante. Para começar, as cenas ousadas são muito menos abundantes do que se pode supor, em se tratando de um filme assim intitulado. Logo na abertura, a câmera flagra um casal em pleno ato, focalizando nas carícias atrevidas e nos sutis gemidos de prazer. Com o passar de alguns minutos, o homem e a mulher que começaram a ser expostos diante do olhar do público têm a chance de começar a se mostrar por dentro.
É então que o filme se revela um vigoroso tratado das relações amorosas da contemporaneidade, cumprindo muito mais uma função reflexiva que excitante, malgrado a carga erótica que percorre cada fotograma de seus enxutos 80 minutos. A ação de "Na cama" trancorre totalmente em um único cenário: um quarto de motel onde seus protagonistas, e únicos personagens, fazem sexo e conversam, conversam e conversam. Seus nomes são ditos somente algum tempo depois do começo da trama. Eles se chamam Daniela (Blanca Lewin) e Bruno (Gonzalo Valenzuela), e não se sab muito bem de onde eles vêm ou para onde vão. A única certeza que transparece na conversa entre os dois é a de que aquela está sendo a primeira e a última noite deles. E, como não poderia deixar de ser, o teor do diálogo é, também, sobre como seria um possível relacionamento dos dois.
Nada é tão explicativo no que se refere ao casal. Aos poucos, o roteiro muito bem escrito de Julio Rojas deixa entrever que Bruno e Daniela se encontraram em uma noitada, e estão naquele motel para praticar sexo casual. Como mais um entre tantos casais, eles não estão à procura de compromisso sério, mas acabam esbarrando na possibilidade de viver algo mais que uma única noite. Nesse sentido, Bize acertou, pois apostou em uma composição minimalista, em que os diálogos são um rio caudaloso que dá contornos impressionantes aos sentimentos vertidos por seus personagens. Muito mais do que despi-los por fora, o cineasta os apresenta por dentro, com suas almas expostas, apesar de muitas reservas no início.
Naquele ambiente tão impessoal, Daniela e Bruno conversam, se beijam, se excitam, dançam, comem e bebem, e vão enredando o espectador para um espiral de desejo e incongruências conduzida com muita habilidade. Para espectadores menos afeitos a um blá blá blá, a experiência de assistir a "Na cama" também é válida, pois o texto proferido por seus personagens é de arrasar, não caindo em momento algum na vala do cansativo. De alguma maneira, eles resumem a essência da vaidade que acomete os indivíduos nos dias de hoje, ensoberbecidos de tal forma que amam muito mais sua independência e seu desapego a uma outra pessoa do que prezam a companhia perene do outro. Num mundo em que as relações se mostram cada vez mais voláteis, acompanhar a curta trajetória de envolvimento e posterior desenlace de Bruno e Daniela é se colocar diante de um espelho - côncavo ou convexo, a depender da distância a que se está do alvo.

O diretor Matías Bize despontou com "Na cama" no Festival do Rio de 2006, e conquistou muitos espectadores com sua verborragia. Durante o tempo que passam juntos, os personagens praticam o sexo verbal, muito mais do que qualquer outra modalidade de sexo. Com isso, o filme de Bize se assemelha aos de outros diretores que também decidiram calcar suas obras nas palavras. Um deles é Richard Linklater, que compôs dois singelos retratos do amor dos tempos atuais: "Antes do amanhecer" (1996) e "Antes do pôr-do-sol" (2004), em que os diálogos são a força motriz da ação. Uma ação quase inexistente, na verdade. Assim também acontece com o cinema de Eric Rohmer, que fez várias séries de filmes em que quase nada acontece, mas as falas dos personagens desenrolam uma infinidade de sentimentos e anseios. A quadrilogia dos contos das quatro estações é um magnífico exemplo desse cinema dialogal. O longa posterior de Bize, "O bom de chorar" (2007), jamais viu o escurinho das salas de cinema brasileiras, tendo sido exibido também no Festival do Rio. Nesse longa, em vez de um casal que ensaia o começo de um relacionamento, está um casal em vias de se separar, discutindo a relação numa caminhada noturna pelas ruas de Barcelona.
A estrutura de "Na cama" também acabou rendendo uma obra "genérica", filmada aqui no Brasil. Seu nome, inclusive, é muito semelhante ao do longa chileno: "Entre lençóis". Seus protagonistas, rostos conhecidos das novelas globais: Reynaldo Gianecchini e Paola Oliveira. Confesso que ainda não assisti a ele, em grande parte por um receio enorme de que não passe de um cópia piorada do longa "original". Por outro lado, é interessante notar que "Na cama" acabou fazendo escola por aqui. Há muitas qualidades, como já foi dito, que engrandecem o filme. Particularmente, não sou de acordo com o sexo eventual, como o praticado pelos personagens, e me prendo muito mais nos interessantes diálogos travados por Daniela e Bruno, que trazem muito de angústia existencial. Incapazes de lidar sequer consigo mesmos, eles tentam estabelecer uma conexão com o parceiro, na busca por uma sensação de completude que não se realiza nem mesmo depois de longos anos na companhia de outrem. No fim das contas, "Na cama" se revela como um longa sobre o abismo invisível que reina em qualquer relação humana.

15 de jul. de 2010

Retrocessos e sutis variações de pensamento ou "Amor sem escalas"

A cada novo filme em que coloca seu rosto, George Clooney mostra mais uma de suas várias facetas. Esse aspecto camaleônico é, obviamente, indispensável ao bom ator, mas nem por isso prescinde de ser omitido. Seus personagens sempre carregam, seja qual for a abordagem do diretor em questão, uma aura de humanidade que permite a empatia quase imediata do espectador. O mesmo pode ser verificado em "Amor sem escalas", terceiro filme do talentoso Jason Reitman.

Não há como não comentar a título brasileiro infeliz dado ao filme, que o deixa com ares de comediazinha-romântica-digna-da-sessão-da-tarde. Seu título original, por mais difícil de traduzir que seja - "Up in the air", algo como "Para as alturas" -, merecia ser mais cautelosamente escolhido. Caso idêntico é o de "Eu, meu irmão e nossa namorada", uma tradução boboca para "Dan in real life". A despeito dessas nomenclaturas equivocadas, acompanhar a história de um homem que está mais nos ares do que em terra firme é uma delícia.
Para Ryan Bingham (Clooney), a vida só parece ter sentido se for para acumular milhagens aéreas. Enquanto todo mundo quer estar perto daqueles a quem ama, ele deseja chegar à marca de 10 milhões de milhas, por pura exibição. 0 destino do protagonista só muda quando ele conhece uma mulher de senso igualmente prático, que o tira do sério em dois tempos: ela é Alex Goran (Vera Farmiga). O trabalho de Ryan consiste em demitir funcionários de empresas, evitando que os chefes desses funcionários tenham de executar essa desagradável função. É por conta desse emprego que está em constante viagem, o que parece levá-lo a encarar a vida como um momento efêmero, mais do que qualquer um. Tudo no comportamento de Ryan parece exteriorizar uma visão de que está apenas a passeio na vida.
Além de ser o "algoz" dos empregados que recebem a demissão, ele dá palestras de autoajuda, nas quais afirma que as pessoas devem se liberar dos pesos que carregam na vida, das bagagens que só as atrapalham. Nas entrelinhas, Ryan prega uma filosofia de vida idêntica à sua, já que ele não demonstra qualquer preocupação com família ou amigos íntimos. O que sacode a vida desse homem é, como já se disse, conhecer Alex, mas também ver passar em sua vida a decidida Natalie (Anna Kendryck), uma jovem que acaba de ser contratada pela empresa em que ele trabalha, e qeu traz uma ideia revolucionária para seus patrões. Em vez de demitir pessoalmente os funcionários de que as companhias não mais necessitam, ela apresenta a possibilidade de fazê-lo por meio de uma videoconferência, na qual o funcionário é informado dos motivo de sua demissão.

Com isso, as constantes viagens de que Ryan tanto gostava para estar sempre longe da terra firme (e, por conseguinte, de uma vida dita normal) perderiam a razão de ser. Uma facada no peito de um homem com o orgulho ferido. Mas, antes que essa ideia seja, de fato, implementada, Ryan e Natalie deverão empreender as últimas viagens agendadas para as demissões. Uma vez juntos nessa, eles terão de se entender, mesmo que, a princípio, a contragosto. Ao leitor dessa crítica, não custa nada salientar que, em qualquer momento da história esses dois personagens vão cair de amores um pelo outro, no que se configuraria a clássica trama dos opostos que discutem, e depois se veem diante de uma atração irresistível um pelo outro. Isso tampouco acontece com Ryan e Alex, que, como dois adultos vacinados, encontram-se ocasionalmente em algumas de suas numerosas escalas e conexões.
"Amor sem escalas" é um filme que seduz por sua abordagem sutil de um tema bastante caro ao cinema e ao público, em geral. O diretor Jason Reitman trata de pessoas perdidas em um mundo cada vez mais isomorfista, em que, juntamente com os avançoes tecnológicos, as distâncias emocionais entre os indivíduos cresce progressivamente. A novidade trazida por Natalie confirma essa tese. Torna uma tarefa por si só já ingrata, em algo ainda mais frio e distante. Outro aspecto que chama a atenção no longa são suas paisagens, áridas como os corações de seus protagonistas, que parecem cansados de sonhar com pessoas, e preferem estar apegados a coisas. Nas viagens de Ryan e Natalie, eles passam por cidades e estados pouco badalados dos EUA, e evidenciam nelas a crise que já vinha assolando o país. Também por esse sentido, "Amor sem escalas" é um filme totalmente de seu tempo, já que inclui em seu roteiro a situação caótica da contemporaneidade, que repercute na economia, na cultura e até no âmbito esportivo, mais do que nunca, um paliativo para as mazelas a que somos submetidos dia a dia.
O filme também tem uam trilha sonora envolvente e leve que casa perfeitamente com a atmosfera de desalente impressa pelo cineasta. Reitman, aliás, vem contruindo uma carreira louvável no cinema. Depois de "Obrigado por fumar" (2006) e "Juno" (2007), ele chega ao seu terceiro filme mostrando maturidade e eficiência na condução de uma história que precisa realmente de cada um dos seus minutos de duração para se desenvolver. O cinema praticado pelo diretor não é feito de excessos, mas de uma fluidez e de uma direção de atores eficaz, que muito contribuem para tornar cada um dos filmes irresistíveis.
De alguma maneira, é possível aproximar os três protagonistas apresentados por Reitman até agora. Tanto Nick Naylor (Aaron Eckhart) quanto Juno McGuff (Ellen Page) e Ryan Binghan (Clooney) são pessoas em busca de um lugar no mundo e no coração de alguém, mesmo que mascarem esse desejo, a tal ponto de sequer se dar conta deles. Os três também acabam se atrapalhando na forma como levam suas vidas, sendo, como muitos indivíduos, movidos pelas circunstâncias que se lhes apresentam cotidianamente. Com isso, o subtexto da filmografia de Reitman assinala traços importantes da condição humana. E esses traços podem ser expressos do ponto de vista de um representante cínico da indústria tabagista, que precisa do cinismo para sutentar sua carreira, de uma adolescente que não hesita em abrir mão do próprio filho por estar convicta de que ele veio na hora errada, ou de um homem que quer tanto se livrar de suas "bagagens" emocionais que, em algum momento, se vê confrontado com a necessidade de criar laços com alguém e mantê-los. Retrocessos ou sutis variações de pensamento?

13 de jul. de 2010

As chagas da passagem do tempo expostas em "Longe dela"

A crueldade com que o tempo trata a maioria dos seres humanos é a grande temática por trás da estreia de Sarah Polley na direção em "Longe dela" (Away from her). Sua debutação do outro lado das câmeras é alvissareira, já que se utiliza de uma matéria-prima simples para gerar um efeito de forte comoção com a história de Grant (Gordon Pinsent) e Fiona (Julie Christie). Eles são um casal de longa data que se vê ameaçado pela doença dela. A distância, que é mencionada logo no título, é muito mais emocional do que física.

Polley vem de uma carreira de filmes pouco vistos, que não foram arrasa-quarteirões. Em seu currículo está o terror "Madrugada dos mortos" (2004), experiência de Zack Snyder na direção anterior a "300" (2006), além do sensível e subestimado "Minha vida sem mim" (2004), primeira colaboração entre a atriz e a diretora catalã Isabel Coixet, que se repetiria dois anos depois com "A vida secreta das palavras" (2006), obra igualmente bela. Se na carreira de atriz a maioria de suas escolhas foi acertada, como diretora Polley também faz bonito, apostando numa história forte e emocionante, mas sem traços de pieguice, uma armadilha evitável quando um realizador se propõe a abordar a temática do amor.
Em "Longe dela", o amor é a força motriz para as ações de Grant, que não mede esforços para deixar a vida mais palatável para Fiona, mesmo que isso lhe custe um afastamento involuntário da realidade na qual sua esposa passa a viver. Não há vilões de carne e osso para se intercalar entre o casal. O grande mal que assola os dois é o diagonóstico de mal de Alzheimer dado a Fiona. É a partir do surgimento desse mal que a relação de tantas décadas vivida por ambos começa a desmoronar. Um desmoronamento silencioso, lento e gradativo que vai cavando suas marcas e deixando resquícios praticamente intransponíveis entre os dois.
Muito da força do filme reside na direção segura de Polley, também autora do roteiro. A cineasta opta por uma condução minimalista, em que a economia dos diálogos funciona como um elemento de apoio para o retrato das angústias interiores dos personagens. Christie brilha permanentemente em cena, no papel que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz, perdido em favor de Marion Cotillard, vencedora por "Piaf - Um hino ao amor" (2007). A Academia tem uma queda notável por cinebiografias, o que é um dos motivos para ter dado a estatueta a Cotillard - merecida, diga-se de passagem. Talvez se a história de Fiona fosse inspirada em um caso real, suas chances de ser premiada aumentassem substancialmente. O Sindicato de Atores dos EUA, porém, garantiram-lhe uma láurea. Mas nem só de prêmios oficiais vivem os bons atores. Independente de qualquer vitória em competições, o fato é que a interpretação da atriz é irretocável.

Polley faz uma radiografia dolorida dos sintomas que vão acometendo Fiona, sendo a perda de memória recente o principal deles. Ela não consegue mais absorver novos acontecimentos como antes, ficando presa somente a um passado mais distante. Nesse sentido, surge mais uma distância entre ela e Grant: a distância temporal, metafórica, mas quase palpável quando se observam as conversas que eles passam a ter. Discretamente, Grant tenta fazer com que tudo pareça absolutamente normal para a esposa, num esforço comovente. Quando se vê sem alternativa, interna a mulher em uma clínica, disposto a lutar pela sua cura.
É quando o casamento passa por sua fase mais conturbada, já que, uma vez internada naquele lugar que se esforça para não parecer um ambiente de tratamento de doentes, Fiona se distancia de vez de Grant. E essa distância chega ao seu apogeu exatamente por causa de uma terceira pessoa. Diante de seus olhos apopléticos e de suas mãos impotentes, ele vê Fiona dedicar um sentimento intenso e admirável por um paciente que conhece na clínica. A amizade sincera entre Fiona e seu compannheiro de tratamento é uma bela relação de carinho. Ele está num estágio ainda mais avançado da doença, o que parece despertar (ou manter avivado) o instinto de proteção dela. Mesmo diante da constatação cruel de que o amor de Fiona por ele está agonizando, Grant se mantém firme em sua vontade de ajudar a esposa, visitando-a regularmente. Quando seu estado se agrava, Fiona tem de passar para o andar superior da clínica, para o qual o médico garantira a Grant que ela não passaria.
Em sua essência, "Longe dela" é um filme que retrata os efeitos devastadores da passagem do tempo. A conclusão a que se chega é inevitável. O tempo não se apieda de nada nem de ninguém, e lutar contra ele é levantar a bandeira de uma causa quase perdida. Sua força descomunal não escolhe a quem, e Fiona e Grant são exemplos claros dessa insdiscriminação. A cada passo dado pelo casal, ele demonstra que a inexorabilidade é uma de suas características mais marcantes. E, curiosamente, um filme que trata da perda progressiva da memória, como o é este, sobrevive na cabeça muito tempo depois da subida de seus créditos finais.

9 de jul. de 2010

"Queime depois de ler" e o cômico inverossímil

O ano de 2008 foi prodigalíssimo para os irmãos Ethan e Joel Coen. Foi quando chegaram ao Brasil, com um intervalo de apenas 9 meses, dois novos filmes de suas carreiras, que merecem ser vistos e comentados. O primeiro deles se tornou um xodó na filmografia dos diretores, e tem inúmeros motivos para tal: "Onde os fracos não têm vez". É a incursão dos Coen pelo universo dos faroestes, na qual criaram uma atmosfera sufocante de tensão e medo crescentes. E, de quebra, brindaram o público com a interpretação antológica de Javier Bardem, assustadoramente competente sob a pele de Anton Chigurh. Não à toa, o longa faturou dezenas de prêmios de vários sindicatos, além de ter papado nada menos que quatro estatuetas do Oscar.

Já em "Queime depois de ler", o caminho percorrido é bem diferente. Os irmãos cineastas repetem a parceria com alguns atores para construir uma trama um tanto mirabolante sobre pessoas que parecem ser o tempo todo guiadas pela idiotice completa. Encabeçando o elenco, estão os über astros George Clooney e Brad Pitt. O primeiro já havia estado antes em um filme dos Coen, o pouco visto "E aí, meu irmão, cadê você?" (2000), e parece bastante à vontade caminhando pelo mundo insólito e extravagante dos diretores. Pitt, por sua vez, debuta sob o comando dos irmãos, mas não faz por menos em matéria de talento. Ambos os atores, aliás, já provaram, há muito, que não são apenas belas embalagens, mas que têm um conteúdo interessante, principalmente no que diz respeito à arte de interpretar.


O filme é uma comédia daquelas que não se vê toda hora entrando em cartaz, porque consegue articular com meticulosidade uma história interessante, um elenco afiado e uma condução bem pensada. Nem tudo que aparece em "Queime depois de ler" é o óbvio ululante, é necessário que o espectador também coloque o cérebro para funcionar. Durante toda a narrativa, veremos ums série de situações estúpidas, e de imbróglios que beiram sempre o absurdo. Para que o leitor desta crítica tenha uma noção do que é a trama, se os quando Osborne Cox(John Malkovich), um agente da CIA, é demitido por seu comportamento inadequado (ele é um beberrão). Ressentido pelo fato, ele decide publicar um livro em que denuncia toda a sujeira de que sabe, a quale ele vinha testemunhando durante todos os anos em que foi funcionário do órgão. Mas a complicação começa mesmo quando sua mulher, Katie (Tilda Swinton, uma atriz que merece ser melhor descoberta), quer se separar dele, à sua revelia, e rouba os escritos para chantageá-lo no processo de divórcio. Ela quer apressar a separação, pois já tem um caso com Harry Pfarrer (Clooney), um perfeito imbecil que comete uma série de enganos ao longo do filme.
Só com esse trio em cena, "Queime depois de ler" já rende momentos hilariantes, mas o roteiro dos Coen ainda apresenta outros focos de ação. Trata-se da aparição de Chad Feldheimer (Pitt) e Linda Litzke (Frances McDormand, esposa de um dos diretores, e habituée de seus filmes), dois funcionários malucos de uma academia, que se interessam pelo poder de fogo das verdades contidas no projeto de livro de Cox, e decidem roubar os arquivos do projeto para extorquir um bom dinheiro dele. Com isso, Linda pretende custear suas cinco cirurgias plásticas, algo de suma importância para alguém tão fútil como ela. Está montada a teia que entrelaçará todos os personagens, que, de inteligentes, têm bem pouco ou nada, como o desenrolar do enredo permite concluir.
spoilers não forem um problema, tudo começa
Um dos grandes achados do filme é a maneira como o roteiro vai delineando a série de (des)encontros dos personagens. Os Coen sabem muito bem como manipular a história a um modo bem colocado. Para além disso, têm o mérito de colocar dois grandes astros do cinema contemporâneo em papéis inusuais em suas carreiras. Tanto Chad quando Harry são um poço de estupidez, cada um ao seu modo. Pitt acertou ao investir numa composição cheia de cacoetes, que levam ao cômico mesmo quando seu personagem está calado. Nas poucas vezes em que se encontram, revelam a boa química que existe entre seus intérpretes, talhada ao longo dos filmes da série "Onze homens e um segredo", de Steven Soderbergh. Em "Queime depois de ler", as situações são sempre bizarras, e fogem do óbvio com destreza admirável. O longa dialoga o tempo todo com o bestial, por conta do comportamento caricatural dos seus personagens. Com isso, os Coen aliam mordazes diálogos e reflexões a cenas divertidas, que irão surpreender o público em vários momentos e em várias instâncias.
A trama sofre algumas reviravoltas interessantes. Harry também acaba tendo uma caso com Linda, depois de começar a se corresponder com ela em um chat na internet. Ao partirem para uma possível relação no mundo real, a paranoia de Harry atrapalha seriamente o romance que eles estavam ensaiando. Não sem antes Linda revelar um pouco de suas fantasias não muito ortodoxas, por assim dizer. Por isso, vibra quando Harry lhe apresenta uma certa cadeira, que leverá os mais pudicos a reagirem ruborizados do outro lado da tela, e os mais despudorados a gargalharem (ou não) diante da cena. Contar mais seria estragar as surpresas que o filme reserva. Certamente, está entre os melhores da produção recente dos cineastas, por sua pegada divertida e inusitada. E vale destacar que nem tudo que surge no filme precisa ser entendido. Aliás, o cinema de Ethan e Joel Coen também é formado por alguns pontos de suspensão. E "Queime depois de ler" é mais um deles, como não poderia deixar de ser.