24 de jun. de 2010

"O leitor", uma incômoda análise sobre os efeitos do silêncio

Desde que dirigiu "As horas" (2002), Stephen Daldry devia um novo filme aos seus espectadores. Afinal, tanto seu longa precedente quanto sua primeira produção (para quem não sabe ou não se lembra, "Billy Elliot", de 2000) foram muito bem recebidos pela crítica e pelo público sedento de reflexão e de boas histórias. Não foi à toa que Daldry recebeu indicações ao Oscar de melhor diretor por suas duas experiências atrás das câmeras. Passados seis anos desde a narrativa tríptica embasada na obra de Virginia Woolf, ele traz "O leitor" (The reader), mais um filme contundente e revelador, que trata do peso das escolhas, principalmente quando a principal dessas escolhas é a completa omissão diante de um fato lastimável. É uma adaptação do romance homônimo de Bernhard Schlink, feita pelo roteirista David Hare, também responsável pelo roteiro de "As horas".

Tudo começa com uma tarde chuvosa, bem ao estilo londrino, na década de 30. Michael (nessa fase, vivido por David Kross) está voltando para casa depois de mais um dia estudos, quando conhece Hanna Schmitz (Kate Winslet, mais uma vez irrepreensível), uma mulher rude e, ao mesmo tempo, encantadora para aquele jovem. Nesse primeiro momento, o filme se mostra como a crônica do nascimento do amor de um rapaz por uma mulher alguns anos mais velha que ele, um lugar-comum que pode levar os mais desavisados e precipitados a classificar "O leitor" como mais um filme de amor. Ideia errada. O romance de Michael e Hanna não envereda para um contexto idílico, que remeta aos contos de fadas.
Ela trabalha fiscalizando bilhetes de trem. É taciturna e, quando decide falar, não é das figuras mais simpáticas. É como se sempre quisesse se esconder sob uma carapaç que a isola do mundo em certa medida, permitindo apenas o contato estritamente necessário. Depois de conhecer Michael, sua vida monótona parece ganhar uma paleta de cores mais vasta, principalmente quando ele começa a ler obras da literatura universal para ela. Os dois passam a se encontrar para passar longas tardes juntos, enquanto Michael recita trechos imensos de textos clássicos e Hanna mergulha nas histórias que ouve. Há um segredo mantido a sete chaves por ela, mas do qual o espectador não tarda a desconfiar: Hanna é analfabeta. Quando a relação entre eles começa a ganhar contornos mais sérios, ela passa a caminhar na direção oposta, repelindo a presença do jovem.

Durante essa fase do filme, não faltam cenas ousadas entre os protagonistas, consideradas gratuitas por alguns, mas que se mostram por inteiro em sua nudez, e revelam a beleza de seu intérpretes. Winslet é daquelas atrizes que, para além de sua estampa ofuscante, oferece atuações brilhantes e soberbas, que fazem o público grudar os olhos nela, e não mais tirá-los. A Academia parece já saber disso há um tempo, mas só decidiu premiá-la depois da sexta indicação, exatamente por "O leitor". Antes, ela já havia sido indicada por "Razão e sensibilidade" (1995), "Titanic" (1997), "Iris" (2002), "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (2004) e "Pecados íntimos" (2006). Todas as indicações foram dignas, e sua vitória por "O leitor" é um reconhecimento tardio dos votantes. Felizmente, porém, ele aconteceu. Ela também levou o Globo de Ouro pelo papel. Por sua vez, Kross é um jovem ator que já vem demonstrando seu talento há algum tempo. Ele já esteve no elenco de um mesmo filme que Winslet antes, o já citado "Briho eterno de uma mente sem lembranças". Assim como ela, é de uma beleza que chama a atenção, e consegue transmitir a insegurança e a efusão de um garoto que descobriu o primeiro amor. Seus olhos refletem esse misto de sentimentos com habilidade notável. Com o fim de seu romance com Hanna, esses mesmos olhos se transfiguram em desalento.
O tempo transcorre, e Michael e Hanna permanecem separados, mas a lembrança dela atravessa os pensamentos dele. Adulto, Michael passa a ser vivido por Ralph Fiennes, também numa construção impecável como ator. Até que, um dia, eles se reecontram em uma situação extremamente desagradável: o julgamento de crimes de guerra em um tribunal. Hanna é uma das acusadas de colaborar com o regime nazista, favorecendo o extermínio de milhares de judeus nos campos de concentração. Diante da atestação dessa barbárie, Michael se vê ainda mais confrontado por seu passado com Hanna, no tempo em que ele era ainda um menino em busca de todo tipo de descoberta. Agora ele é um advogado de prestígio, e sabe do segredo de Hanna, podendo ajudá-la a se livrar da condenação. Ela mesma prefere omitir o fato, por se envergonhar de não saber ler. Mas Michael prefere se calar, e não agir em favor da mulher que um dia amou.
Esse é o eixo central de "O leitor". O filme se foca nesse dilema moral no qual Michel se encontra, e levanta o questinamento sobre a parcela de responsabilidade que podemos ter no destino de outrem. Quando decidimos guardar a verdade apenas para nós mesmos, podemos estar fazendo a escolha mais errada de nossas vidas. Daldry vem se tornando um especialista em retratar pessoas vivendo uma vida que não é a que desejam. Como o personagem-título de "Billy Elliot" e as mulheres de "As horas", Michael não tem a vida que que quer, e isso implica em carregar consigo sempre uma fagulha que seja de insatisfação e desventura. A filmografia do diretor, composta, até agora desses três longas, é, portanto, um tratado dos erros de cada um e do sufocamento que a aparente falta de saída gera naqueles que não se reconhecem mais em si mesmos.

10 de jun. de 2010

Entraves gerados pela chegada da adolescência em "À deriva"

Dono de uma filmografia ainda curta, Heitor Dhalia já vem mostrando que tem muito a dizer, e de uma forma deliciosa de se acompanhar. O realizador de "Nina" (2004), drama de tintas existencialistas inspirado na obra de Dostoiévski, e de "O cheiro do ralo" (2006), uma das melhores performances de Selton Mello nos últimos anos, chega ao seu terceiro filme interessado em observar as angústias geradas pelo crescimento, mais especificamente no período que corresponde ao final da infância e ao início da fase adolescente. Essa época da vida de um ser humano já serviu de material para inúmeros filmes, de diretores e nacionalidades o mais díspares possível. Só para citar os mais canônicos, há François Truffaut, que estreou no celuloide com o poético "Os incompreendidos" (1959), e o terno "Fanny e Alexander" (1982), de Ingmar Bergman.

Em seu filme mais recente, porém, Dhalia enveredou por um caminho bastante diferente daquele que seu antecessor levaria a supor. "À deriva" é uma espécie de baú de memórias revisitado pelo diretor e, como tal, carregado de linguagem subjetiva, filtrado pela sua perspectiva de indivíduo, que ele decidiu compartilhar com seu interlocutor que, por se tratar de uma obra filmada, acaba se tornando seu espectador. Não é um filme autobiográfico, entretanto. O longa pode ser definido como uma superposição de recordações vindas do universo infantil, que estão no coração de qualquer pessoa, ainda que indolentes e soterradas.

O objeto de filmagem do diretor brasileiro é a trajetória de Felipa (Laura Neiva, em composição acertada), uma menina de 13 anos que ainda não sabe muita coisa sobre a vida, como sua própria idade denuncia. Ela tem dois irmãos, com quem vive às turras, assim como acontece com qualquer outra família, e vem testemunhando involuntariamente o naufrágio silencioso do casamento de seus pais, vividos com muita competência por Débora Bloch e Vincent Cassel. O ator francês, conhecido por aqui por filmes como "Irreversível" (2002), "A isca perfeita" (2002) e "Doze homens e outro segredo" (2004) se sai muito bem na tarefa de aliar sua pronúncia do português a uma atuação marcante e precisa. Débora, por sua vez, também esbanja talento na pele de uma esposa amargurada e insegura com relação ao marido.

Como se vê, a trama proposta por Dhalia não apresenta muitos traços de originalidade. Trata-se, na verdade, de uma temática já bastante repisada no cenário artístico de uma maneira geral. Mas nem tudo num filme se resume à originalidade de ser argumento, e o diferencial de "À deriva" é a forma naturalista com que a ação se desenvolve. As lentes da câmera capturam a fragilidade de uma garota que ainda está se descobrindo como pessoa, e que tem todas as incertezas do mundo sobre o que realmente que ser e o que quer fazer da sua vida. Essa incertezas geram a inquietude e a angústia, porque ela nunca sabe exatamente como lidar com seus desejos, cometendo pequenos enganos que a narrativa do filme se ocupa de apresentar. Acompanhar a jornada de crescimento de Felipa é delicioso, pois traz à tona toda aquela gama de receios que perpassa a fase adolescente. Quem já a superou consegue perceber exatamente o quão graves se tornam quaisquer conflitos que atravessam o caminho de alguém que ainda não chegou ao vigésimo aniversário.
Os acontecimentos que mexem com o cotidiano de Felipa se dão em Búzios, cidade fluminense que é reduto de endinheirados em tempos de férias, um ambiente solar por natureza. O local serve com um ótimo contraponto para a personalidada introspectiva da protagonista, que se fecha como uma ostra ao menor sinal de ameaça. Diferentemente da cidade, que abre seus braços e acolhe a qualquer figura que a ela se dirija, sem distinção alguma. A rotina da garota inclui tardes idílicas na praia, aventuras com os amigos, e a descoberta de uma paixão, sentimento novo e inexplicável que a toma de assalto. Além da constatação de que seu pai, um escritor, está tendo um caso extraconjugal com uma modelo (Camila Belle) que está passando uma temporada na cidade. A junção desses pequenos acontecimentos vão formando os cacos de que a vida de Felipa passa a ser constituída. Cada um deles terá seu peso na formação do pensamento da menina, que terá de amadurecer, querendo ou não. É o momento do "adeus à inocência", chavão tão recorrentemente usado em críticas sobre filmes que versam sobre o final de infância quanto "dores do crescimento".
O fato de Laura Neiva ser uma estreante é um ponto que conta bastante a seu favor. Por se tratar de um rosto desconhecido, sua presença em cena injeta frescor a personagem, e traz um carisma inegável para si. Como atriz que se tornou, ela tem uma desenvoltura apaixonante, que remete a grandes estrelas que começaram na mesa idade que ela, como é o caso de Jodie Foster, que estreou em "Taxi driver" (1976), e de Brooke Shields, que foi lançada em "Pretty baby" (1978). A julgar pelo caminho trilhado pelas duas, o futuro de Laura é promissor. E o roteiro de Dhalia também premite uma duplicidade de atitudes muito oportunas. Felipa exibe um misto de ingenuidade com sensualismo, que transpiram com mais intensidade nas cenas em que ela tenta entender o que sente pelo namoradinho de ocasião, que também não sabe lidar com a devida destreza com o que sente pela menina, enfiando os pés pelas mãos a cada novo passo que tenta dar.
O título, se lido com bastante atenção, já entrega um pouco da perspectiva que acompanha Felipa. Como um barco que não sabe que rumo tomar, ela está à deriva, esperando um farol que a ilumine e a leve a um porto seguro, ou um leme que a conduza com menos sobressaltos por suas dúvidas. Em Cannes, o filme foi exibido em 2009, dentro da mostra "Un certain regard" (Um certo olhar), reservada a filmes de diretores com alguma experiência que trazem um ângulo diferente para um tema já visitado. O elenco, aliás, ainda conta com Cauã Reyomond, que tem conseguido cada vez mais espaço no cinema, como comporovam os longas "Se nada mais der certo" (2009) e "Divã" (2009).A recepção do público foi boa, e coroou o esforço de Dhalia em talhar uma obra que espia o abismo entre casais, as incongruências entre pensamento, fala e ação e o desejo de se afirmar mesmo quando não se sabe exatamente o que quer.

8 de jun. de 2010

"Abraços partidos" e o cinema dentro do cinema

Quando se fala a respeito de Pedro Almodóvar, uma série de conceitos a ele atrelados ganha força. O diretor é conhecido por suas abordagens de temas polêmicos vestidas com uma roupagem melodramática, que se traduzem em histórias memoráveis, circundadas por uma atmosfera algo bizarra. Entretanto, também é notório que seu estilo espalhafatoso vem dando lugar a uma maneira de filmar mais contida, mas não menos intensa, é bom que se diga. Almodóvar vem demonstrando um grande amadurecimento, filme a filme, principalmente nos últimos oito anos.

Essa virada teve início com "Fale com ela" (2002), em que o cineasta exerceu toda a sua sensibilidade, para presentear seu público com uma trama de encontro em meio ao caos e à dor. Prosseguiu com "Má educação" (2004), em que a questão do abuso sexual cometido por padres apresentou contornos de homoerotismo, e que, pela primeira vez, trouxe um universo masculino em evidência num filme seu. O refinamento atingiu um grau ainda mais alto com "Volver" (2006), no qual, além de seu reencontro com sua musa Penélope Cruz, ele apresentou um drama familiar sobre mulheres em busca de uma reconciliação consigo mesmas e com o mundo.
Depois desse breve retrospectiva, nossos olhares se voltam para "Abraços partidos" (2009), sua mais recente produção, que não deve em nada aos seus filmes pregressos, por trazer, em sua essência, o que há de melhor em termos de Almodóvar. Mais uma vez, o realizador espanhol recrutou Penélope Cruz para interpretar sua protagonista. Escolha mais do que acertada, já que, nos últimos filmes em que atuou, ela vem demonstrando cada vez mais talento - vide o já citado "Volver", "Fatal" (2008) e "Vicky Cristina Barcelona" (2008). Aqui, ela dá vida a Lena, uma mulher linda e fascinante que vira a cabeça de um diretor de cinema. Só por essa pequena informação já se pode notar que a inserção do componente metalinguístico parece ser a mais nova obsessão do diretor.

Como em "Abraços partidos", seus últimos dois filmes apresentam alguma relação do cinema com o próprio cinema. Em "Má educação", Ignácio (Gael García Bernal) se propõe a transformar em filme a história de sua infância, depois de reencontrar Enrique (Fele Martinez). Em "Volver", Raimunda (Cruz) acaba trabalhando como cozinheira para uma equipe de filmagem que está rodando um longa perto de sua casa. Essa porção de metalinguagem acaba funcionando não só como um sinal da paixão de Almodóvar por um fonte de entretenimento e reflexão que virou seu ofício, mas também de que discorrer sobre o próprio fazer cinematográfico é um manancial inesgotável para cobrir a falta de ideias. É como o cronista que, na falta de assunto para a crônica, escreve uma crônica exatamente sobre a falta de assunto, incluindo aqui e ali um traço de banilidade, ícones de uma existência prosaica.

Observações subjetivas à parte, "Abraços partidos" (uma tradução romanceada para "Los abrazos rotos", do original, que seria algo como "Os abraços rasgados") conta a história de Matteo Blanco (Lluís Homar, excepcional), um cineasta que já viveu dias muito melhores. Hoje, ele é um homem amargurado, que convive com a cegueira resultante de um acidente acontecido 14 anos antes, e que abandonou as câmeras, preferindo escrever romances. Suas reminiscências de um passado idílico são despertadas quando ele é interrogado por Diego (Tamar Novas, de "Mar adentro"), o filho de sua antiga diretora de produção. Então, a trama recua exatamente esses 14 anos, e transporta o espectador para o dia em que as trajetórias de Matteo e Lena se cruzaram. É quando surge, linda e lânguida, a personagem de Cruz. À procura de um médico para seu pai, ela esbarra em Ernesto (José Luis Gómez), um homem rico que se apaixona perdidamente por ela.
Não demora para que eles se casem, mas Matteo surge na vida de Lena para injetar a emoção que ela procura. Aspirante a atriz, ela acaba conseguindo o papel de protagonista de sua nova produção, que remete bastante ao passado de cores berrantes de Almodóvar. A graça de filme é também essa: identificar os ecos do diálogo do diretor com sua própria obra, o que gera autocitações aqui e acolá. Ao longo desse "filme dentro do filme", portanto, ele abre seu grande baú de recordações, assim como o faz Matteo. Durante as filmagens, o caso de Lena e Matteo vai ficando cada vez mais sério, até que Ernesto descobre a traição da esposa, mas não consegue conceber sua vida distante daquela mulher tão impetuosa e deslumbrante.
A partir daí, a trama ganha contornos de tragédia, no sentido adjetivo da palavra, já que a fúria de Ernesto culminará em um acidente terrível com o casal de amantes. Há ainda espaço para um certo Ray X (Rúben Ochandiano), uma figura enigmática traduz seu desejo de vingança (por razões que quem assiste ao filme descobre) em uma aparência repugnante. Também a relação que ele mantém com os outros personagens é descortinada por meio dos esclarecimentos que as memórias de Matteo permitem dar ao público. O fato é que a love story não ganha um final feliz. Por conta disso, Matteo se desiludiu com a vida e, por tabela, com o cinema, e assumiu para si uma nova persona, Harry Caine. A cegueira é o resquício concreto de uma perda irreparável em sua vida.
Como se pode depreender, o roteiro de Almodóvar é bem alinhavado, com uma trama que prende a atenção sem a necessidade de recorrer a insights de estroboscopia para que o espectador se sinta envolvido pela narrativa. O diretor não abre mão de toda a sua passionalidade, entregando sequências carregadas de emoção genuína, que comovem por sua maneira de fluir. A câmera do cineasta percorre uma Espanha viva e, ao mesmo tempo, sombria, que combina com as recordações que Harry / Matteo vai apresentando.
Inserindo na crítica uma dose de experiência pessoal, digo que assisti ao filme no cinema, numa sessão em que eu era o único espectador, mesmo sendo uma sexta-feira, pouco depois do horário de almoço. Malgrado a solidão nas poltronas que me rodeavam, pude me concentrar mais do nunca em um filme, e mergulhar num misto de drama e suspense denso, penetrante e encantador. Pude comprovar, mais uma vez, a habilidade de Almodóvar em contar uma boa história, sem qualquer excesso ou ausência de algum elemento narrativo. Essa peculiaridade só reforça minha ansiedade a cada novo filme lançado pelo diretor. Em Cannes, a recepção a "Abraços partidos" não foi das mais calorosas. Isso revela uma tremenda injustiça, já que o filme merece toda a acolhida e todos os elogios que a ele se possam dar. Logo, Almodóvar vem aí novamente, num reencontro com um "muso" de sua galeria de personagens inesquecíveis: Antonio Banderas. Ele filmará "La piel que habito", sua primeira incursão no gênero terror. Desde já, olhos e ouvidos devem estar a atentos ao que está por vir.

20 de mai. de 2010

"Paris, te amo", um passeio pela cidade do romance

Comumente associada ao glamour e às paixões arrebatadoras, Paris ganhou um filme à sua altura. E seu título não poderia ser outro senão "Paris, te amo". Filmado no ano de 2006, o longa é, na verdade, uma colagem de vários curtas-metragens, cada um com a duração de cinco minutos, que contam alguma história passada em Paris. E cada um desses curtas ganhou a assinatura de um diretor, o que garante uma grande multiplicidade de visões e de abordagens para um tema, a princípio, homogêneo. Para falar com propriedade de todos, porém, seriam necessárias linhas e mais linhas que discorressem com riqueza de detalhes os olhares que se descortinam diante dos olhos do público, ávido de viajar nas histórias propostas por tantos nomes distintos à frente e por trás das câmeras.

Entre eles estão velhos conhecidos dos cinéfilos de carteirinha, somados a descobertas mais recentes da cena cinematográfica mundial. No total, são vinte e três cineastas, que oferecem uma infinidade de perspectivas a respeito da capital francesa. Estão lá Olivier Assayas, Gurinder Chadha, Alexander Payne, Tom Tykwer, Gus Van Sant e Wes Craven, e vários outros. Alguns dividem a direção de um mesmo curta, como os badalados irmãos Ethan e Joel Coen, responsáveis por boa dose de humor negro do filme, e Walter Salles e Daniela Thomas, autores do segmento que trata da questão dos imigrantes em solo parisiense.

Como se trata de um filme formado por episódios, a crítica à falta de regularidade é quase um lugar-comum, e afeta também "Paris, te amo". Afinal, colocar diretores de calibres diferentes em sequência é uma forma de se notabilizar suas divergências criativas. Malgrado essa questão de ordem extremamente subjetiva, o filme é um irrestível convite a conhecer inúmeros recantos de um lugar que já se encontra inscrito no imaginário coletivo. Um dos curtas, protagonizado por Natalie Portman, por exemplo, narra a jornada de um jovem cego em busca de um encontro com sua musa inspiradora. O segmento se chama "Faubourg Saint-Denis", e a personagem de Natalie, Francine. É impossível não se apaixonar por ela ao primeiro olhar, o que nos faz constatar ainda que não é somente o olhar que pode nos despertar esse sentimento por alguém. O curta é de uma docilidade ímpar, e deixa uma leve sensação de orfandade quando chega ao seu final.
Vários são os momentos de brilho e de charme do filme, que é capaz de conquistar o espectador à primeira olhadela. Outro instante de inspiração legítima é o segmento "Père-Lachaise", dirigido por Wes Craven. O foco da história é um casal que começa a discutir durante uma visita turística ao cemitério homônimo, num momento de crise na relação. A grande sacada do curta é quando o fantasma de Oscar Wilde interefere no diálogo do casal, gerando uma sequência com um quê de hilariedade e de insolidez. O casal é vivido pelos talentosos Emily Mortimer e Rufus Sewell, e Alexander Payne, que também dá expediente como diretor em um outro curta, personifica o fantasma de um dos maiores escritores que a Inglaterra já teve. Vale lembrar que o cemitério do título é dos pontos turísticos mais valorizados da Cidade-Luz, que atrai multidões de curiosos anualmente. Ele compõe um novo nicho de mercado, o turismo de cemitérios. Lá estão enterradas várias personalidades de renome internacional. Além de Wilde, quem vai até lá encontra os túmulos de Honoré de Balzac, Marcel Proust, Max Ernst, Auguste Comte, Maria Callas, Édith Piaf, Fréderic Chopin e muitos outros.

O teor politizado fica por conta de Walter Salles e Daniela Thomas, que dirigem o segmento "Loin du 16ème". Protagonizado por Catalina Sandino Moreno (Maria cheia de graça), o curta narra a difícil jornada de uma jovem mãe, que precisa cuidar de um bebê que mora do outro lado da cidade, enquanto seu próprio filho permanece em uma creche, sob os cuidados de professoras que lhe são estranhas. A longa viagem da moça de sua casa até seu destino é o momento em que ela reflete sobre sua realidade, na condição de imigrante. Para esses, ainda que de maneira ingrata, Paris também reserva seu espaço, como fica transparente pelas lentes da dupla de diretores que, por aqui, voltaria a se reunir dois anos depois para filmar "Linha de passe", e conquistar em Cannes, outra importante cidade francesa, a Palma de Ouro de atriz para a então quase desconhecida Sandra Corveloni.

Encerrando a série de curtas, mas nem por isso sendo o menos importante e impactante de todos, está o que foi dirigido por Alexander Payne (dos estimados "As confissões de Schmit" e "Sideways - Entre umas e outras"), que traz singeleza ao retratar uma turista que acaba de chegar à capital francesa. Ela está sozinha, e começam a vir à sua mente todas as expectativas que tem em relação à cidade. Quem e o quê pode encontrar, do que pode ou não gostar em seus passeios. Mas, acima de tudo, ela fala de todos nós. Paris acaba sendo uma grande metáfora para a vida, já que é nela que todos depositam suas esperanças, descontam suas frustrações, amam e odeiam, encontram-se e perdem-se, esquecem e lembram, entre tantas outras antíteses inerentes a existência dos seres humanos. Talvez por isso, ou certamente por essa razão, seja o curta que mais nos toca, pois expõe nossos medos e fragilidades com um misto de resignação e humor cáustico.
Como foi dito anteriormente, citar cada curta e lhe dar a devida justificativa para que seja visto soa como uma tarefa insana. Mais vale deixar em suspenso algumas das surpresas que são reservadas para quem decida assistir a "Paris, te amo". O filme não é simplesmente uma colcha de retalhos que não prescinde da unidade. Pelo contrário, é em sua multiplicidade que está seu uniformitarismo. A Paris retratada pelos diretores vai muito além dos clichês já há tempos disseminados entre as pessoas, que fazem com que mesmo aqueles que nunca foram à cidade, como este que vos escreve, pensem que já a conhecem razoavelmente bem. A seleção de curtas, de responsabilidade de nomes de peso, é, ao mesmo tempo, uma viagem emocional pelas ruas da cidade, e uma pincelada sobre os variados universos que se descortinam em uma simples caminhada pelo lugar. Aqui se encontra a Paris dos amantes, dos solitários, dos imigrantes, dos abandonados, dos esperançosos, dos ricos, dos vagabundos. Cada um encontra para si a sua Paris do coração. Uma Paris que serve a inúmeros gostos e estilos, e que não abre mão de ser multifacetada, como qualquer centro urbano da contemporaneidade deve ser.

18 de mai. de 2010

"Waking life": perambulando pela falta de sentido do ser e do estar

Muito se discute se a animação seria um gênero de filme ou se ela, na verdade, pode comportar qualquer gênero cinematográfico dentro de si. A discussão frequentemente pode voltar à tona, especialmente quando se leva em consideração um filme da estirpe de "Waking life". Dirigido por Richard Linklater (Antes do amanhecer), o filme é uma viagem cerebral sem precedentes pela existência humana, apoiado exatamente na destituição de imagens reais em favor de uma visão e de uma linguagem oníricas.

Daí se torna novamente relvante entender que, mais do que admitir um rótulo de gênero, a animação se presta a diferenciados exercícios de estilo, desde os mais esdrúxulos aos mais sofisticados. E, múltipla como é, apresenta uma série de vertentes. Desde a animação em stop motion, da qual "O estranho mundo de Jack"(1997) é um bom exemplo, passando pela animação em 3D, do recente "Up - Altas aventuras" (2009) e pela rotoscopia de "Renaissance" (2007), até chegar às cores estouradas e instigantes desse "Waking life". Sim, porque o filme não é exatamente uma animação, mas também não pode ser encaixado com propriedade na classificação de filme.

Compartimentações à parte, o fato é que a invenção de Linklater merece crédito e atenção do espectador, por sua essência. No enredo do longa, nada de muito palatável, mas sim a certeza da incerteza, que permeia o pensamento ocidental desde os tempos platônicos, aristotélicos, socráticos e afins. "Waking life" quer ser metafísico, e se utiliza de inúmeros argumentos para isso. A grande questão que direciona a caminhada do seu protagonista é a seguinte: "Estamos feito sonâmbulos quando estamos acordados ou será que estamos conscientes quando sonhamos?". É o tipo de pergunta que requer acurada atenção, e que já desperta um mínimo de curiosidade pela proposta do diretor.

O que se segue são longas divagações, amplificadas por sua profundidade, a despeito de a duração do filme ser de apenas 99 minutos. Willey, o personagem principal, caminha longamente por um cidade anônima, que pode ser a minha ou a sua, a depender de sua vivência e de sua capacidade de percepção do familiar em meio ao desconhecido. Tomado pelo desejo de encontrar respostas para suas inquietações mais pulsantes, ele encontra pessoas, ouve conversas, pensa, sonha, acorda, reflete, pondera, sofre, sente, mergulha, entre outras coisas. Tudo dentro de um "caos organizado", em que aparecem figuras enigmáticas, extravagantes e interessantes. Linklater também aparece como um homem jogando pinball, e depois como um homem em um navio. Mas aquele pode ou não ser ele. Assim como o mundo em que Willey vive pode ou não existir.
Norteado por esse e outros princípios, o trajeto desse personagem é potencialmente perigoso, tanto do ponto de vista humano quanto do viés cinematográfico. Ao abordar temas tão universais pautando-se na imagem fantasiosa, o diretor lida com pensamentos angustiantes que todos teimam em salvaguardar nos sótãos escuros e empoeirados de suas consciências. Aquela consciência que fere, que impede a ingnorância e que lacera compulsoriamente as relações humanas, seja no amor, seja na amizade. Porque ter consciência é, acima de qualquer coisa, um fardo. Cinematograficamente falando, Linklater poderia incorrer no erro de reduzir tudo a uma colagem de imagens bonitinhas, sem um arremate final. De fato, manter a unidade não parece ter sido uma de suas preocupações ao dirigir o filme. Mas cada uma, de alguma maneira, contribui para o resultado envolvente do todo.
Nessa grande brincadeira chamada "Waking life" (algo como "caminhando pela vida"), há espaço também para uma boa dose de metalinguagem, através da presença de dois atores em versão "animada". São Ethan Hawke e Julie Delpy, que personificam novamente Jesse e Celine, seus personagens em "Antes do amanhecer", que rendeu uma sequência anos depois, "Antes do pôr-do-sol". Nos dois filmes, a palavra tem importância notável, pois é através dos diálogos entre os protagonistas que a trama evolui. Assim também acontece com "Waking life". Seu roteiro prima pelos longos diálogos, que facilmente conduzem à reflexão de que nada é duradouro o suficiente na vida, exceto a certeza de que, quanto mais vivemos, mais temos a aprender. Com Willey, o público também enxerga a falta de sentido da vida, que rende discussões intermináveis, que normalmente não chegam ao lugar algum.
Longe de parecer voltado para uma "filosofia de botequim", atividade que tem lá sua vantagem e não deveria ser vista com tanta pejoratividade, as reflexões de "Waking life" levam o cinema ao patamar da análise psicanalítica, mediado pelos delíros individuais de Willey, e que também podem ser os seus e os meus delírios. Nem tudo o que se vê e se ouve na tela precisa ser necessariamente compreendido. Como diria Camões, quanto mais ele escrevia, menos ele entendia. E falar longamente talvez seja apenas uma entre tantas maneiras de mitigar nossas chagas da dúvida, que nunca deixam de nos perseguir.

17 de mai. de 2010

A sublimação do desejo em "Amor à flor da pele"

No final da década passada, o público de cinema ganhou um presente e tanto pelas mãos talentosas de Wong Kar-Wai. Um filme que jamais seria esquecido, e que, seguramente, merece o título de clássico moderno, com todo o oxímoro contido na expressão. Em português, esse longa de beleza rara atende pelo nome de "Amor à flor da pele", e traz a todos os sentidos uma grande festa do prazer, com sua multiplicidade de cores e formas desfilando o tempo todo na tela.

Como o título já evidencia, a investigação proposta pelo realizador de "Dias selvagens" (1991) e "Felizes juntos" (1997) é a respeito dos meandros de um dos sentimentos mais dissecados e analisados pelo cinema, pela literatura, pelo teatro e por todas as outras formas de arte existentes. A tarefa não é simples, e requer uma qualidade que certamente se encontra em Kar-Wai: sensibilidade. É com essa importante característica que ele conduz o espectador por um espetáculo visual ímpar, ancorado nas atuações precisas (no melhor sentido que a palavra pode ter num contexto como esse) de Tony Leung Chiu Wai e Maggie Cheung. A dupla de atores é recorrente na filmografia do diretor, o que lhes garante um certa intimidade com o seu modo de filmar.
Eles dão vida a Chow Mo-wan e Su Li-zhen, respectivamente. Suas trajetórias distintas se cruzam quando eles se mudam para o mesmo edifício, acompanhados de seus respectivos cônjuges. Um detalhe que logo chama a atenção do espectador nessa questão é que os parceiros dos protagonistas jamais aparecem na tela, deixando apenas suas sombras e alguns ruídos no ar. O foco da câmera de Kar-Wai está realmente em Mo-wan e Li-zhen, que tomam conta de todas as cenas. Não demora para que eles descubram que são vizinhos, e iniciem uma bela e, por vezes, ingênua amizade.

Então, passam longas horas juntos, conversando sobre trivialidades, e desenvolvendo uma cumplicidade que não encontram nos seus casamentos, o que lhes gera um flagrante desconforto. Na verdade, ambos estão sempre sendo deixados de lado por seus parceiros, e isso os aproxima dia após dia. Até que chega o momento em que eles descobrem que, nas longas viagens que seus cônjuges fazem, eles acabaram tendo um caso. A descoberta deixa Mo-wan e Li-zhen estarrecidos, e os deixa ainda mais próximos. Mas, diferentemente do que se poderia esperar da evolução da narrativa, eles mantêm a dignidade, e decidem não repetir o erro cometido pelos amantes.
Nessa decisão tomada em comum acordo por eles, Kar-Wai deixa claro que seu filme não envereda pelo caminho do óbvio. O cineasta prefere trilhar as veredas da sublimação. Seus protagonistas transpiram desejo a cada cena, mas ele nunca chega a ser consumado. Em "Amor à flor da pele" reina o imagético, e a economia nos diálogos leva a atenção do público a se voltar para a beleza da fotografia de Christopher Doyle e Mark Lee Ping-bin, uma dupla tarimbada, que se encaixa perfeitamente na maneira que Kar-Wai tem de se lançar sobre seus objetos. Doyle, aliás, é um colaborador frequente do diretor, estando em sua equipe também em "2046 - Os segredos do amor" (2004) e "Eros" (2004), no segmento dirigido por Kar-Wai.
Aqui o cuidado com o visual se traduz em figurinos deslumbrantes usados pela personagem de Maggie Cheung. É sempre o mesmo modelo, o que muda são as estampas e desenhos de cada um. Tudo ideia de William Chang, que assina essa parte do filme. É através dessas roupas que o passar do tempo da história é percebido em sua sutileza. Essa é uma das obsessões do cineasta, que sempre apresenta um olhar aguçado para a rotina e os elementos mínimos de que ela é feita. Some-se a isso o fato de ele ser oriental, o que já lhe garante um espírito contemplativo inato. Resumindo, "Amor à flor da pele" representa o abandono da verborragia em prol de uma observação de cenas e situações que, por si só, já falam bastante.

13 de mai. de 2010

A importância da sorte observada em "Ponto final"

Acostumado a ambientar suas produções em Nova York, Woody Allen decidiu mudar de ares em 2005, quando dirigiu "Ponto final". Sua tão amada cidade saiu de cena para dar lugar a Londres, um dos recantos mais caros e charmosos de toda a Europa. A mudança não se deu apenas nesse filme, mas se estendeu para seus dois trabalhos seguintes, a comédia "Scoop - O grande furo" e o drama "O sonho de Cassandra". Involuntariamente, portanto, Allen acabou criando a "trilogia londrina". Para além dessa novidade em sua filmografia, o diretor também decidiu abrir mão do jazz, que acompanha quase todos os seus filmes, e utilizou na trilha sonora de "Ponto final" belas óperas.

De fato, esse outro estilo de composição harmoniza melhor com o tom intimista que ele imprime em sua primeira produção inglesa. Allen também se limita a ficar atrás das câmeras, como fizera no ano anterior, em "Melinda e Melinda". Segundo o próprio, ele já estaria muito velho para acumular as funções de ator e diretor em um mesmo filme. Para seus detratores, que o julgam egocêntrico, é uma razão a menos de crítica. "Ponto final" também representa uma novidade no universo alleniano nesse sentido
Ao longo de sua carreira, ele sempre atuou nos filmes que dirigiu e, quando não o fazia, algum ator assumia o papel de seu alter ego. Assim o foi em "Neblina e sombras" (1992), em que John Cusack incorporou seus trejeitos com perfeição, e também em "Celebridades" (1998), filme em que ficou a cargo de Kenneth Branagh a interpretação do indivíduo neurótico, inseguro e tartamudo que protagoniza as ações dramáticas. Mas isso não acontece em "Ponto final". O protagonista desse longa não lembra nem de longe as esquisitices que são tão caras ao diretor. Na verdade, Allen navega por águas mais densas dessa vez. O que não significa dizer que suas comédias de até então não sejam dotadas de profundidade.
Chris Wilton (Jonathan Rhys-Meyers) é o jovem protagonista agora, que deseja ardentemente ascender na escala social. Nem que para isso tenha de abrir mão de alguns princípios básicos que regem a moral humana desde tempos imemoriais. Ele é um ex-tenista que agora sobrevive dando aulas de tênis em um clube. Tem sim, certa dose de inquietude e de hesitação, o que o torna tão humano quanto qualquer um de nós. Ponto para Allen nesse sentido, pois seus roteiros sempre acabam encontrando uma maneira de aproximar os personagens de qualquer um de nós, gerando uma empatia quase imediata nos espectadores. A diferença é que nesse "Match point" (o título original, e também o outro nome pelo qual o filme é conhecido no Brasil) todo o comportamento do personagem é canalizado para uma esfera mais contida, sem as conhecidas pantomimas impressas pelo diretor.

A grande chance de virada na vida de Chris, que então vinha sobrevivendo graças às aulas de tênis que dava em clubes, surge na figura de Tom Hewett (Matthew Goode). Os dois se conhecem numa das idas de Tom ao clube, e Chris fica logo sabendo que aquele jovem é rico e importante na cidade. Não tarda para que haja uma aproximação entre eles, e Chris também descobre que seu mais novo amigo tem uma irmã trintona, que há muito espera por um namorado. Ela se chama Chloe (Emily Mortimer, uma atriz subestimada), e é doce e tímida. A isca perfeita para que nosso jovem se aproveite e alcance sua tão sonhada prosperidade.
E Chris realmente consegue. Pouco tempo depois, eles se casam, para felicidade de todos os envolvidos na história. Mas nada é tão simples como parece, e a complicação atende pelo nome de Nola Rice (Scarlett Johansson), uma mulher sensual e atraente que pode representar um grande perigo na escalada do rapaz. Nola é a futura esposa de Tom e, portanto, futura cunhada de Chris. Um fato importante que se torna um mero detalhe diante da força do desejo que opera sobre eles. Por isso, acabam se tornando amantes dos mais voluptuosos. O mundo externo parece ser esquecido por eles a cada novo encontro furtivo, e Allen não faz por menos em sequência carregadas de erotismo, temperadas com sugestivas árias de ópera, que arrastam a plateia para a posição de cúmplices daquele adultério.
O noivado de Nola e Tom não vai à frente, e Chloe, por sua vez, tem grande dificuldade para engravidar. Com o fim de seu noivado, Nola só pensa em assumir o romance que mantém com Chris. Fica claro a essa altura do filme que a narrativa é marcada pelo tempo psicológico, já que apenas quando o protagonista percebe os fatos e suas consequências que se nota que já se passaram vários meses. Diante da insistência de Nola para que Chris se separe da mulher, o relacionamento entre eles entra numa espiral de discussões e conflitos. Instaura-se então o impedimento moral para o personagem, o que também caracteriza a obra de Woody Allen. O jovem precisa encontrar um equilíbrio entre sua boa vida, rodeado de amigos e de viagens a belos países e seu caso secreto com Nola, que não mais se conforma com sua condição de amante.
A solução encontrada por Chris para seus problemas é, no mínimo, inesperada, tanto em termos de filmes allenianos quanto em termos de cinema em geral e vida cotidiana. Nesse ponto a ausência de julgamento do diretor fica patente, já que ele deixa ainda mais claro com que peças vinha jogando esse xadrez até então para traçar o percurso cheio de percalços de Chris: com os peões da amoralidade. Como muito já se falou em várias críticas a respeito do longa, há em "Ponto final", um diálogo indireto com "Crime e castigo", famosa obra literária de Fiódor Dostoiévski. Essa intertextualidade entre um roteiro seu e o romance da literatura russa já havia sido testada 16 anos antes, quando Allen dirigiu "Crimes e pecados" (1989). A grande questão levantada pelo cineasta é: até que ponto a sorte responde por aquilo que nos acontece ou que deixa de nos acontecer? Em cima dessa indagação, o novaiorquino fez um de seus trabalhos mais brilhantes, talhado por um estilo sofisticado, com diálogos inspirados, mas dessa vez voltados para o drama, que ele mostra também dominar. Além disso, o sentimento de culpa também aparece com grande força na história, mas não necessariamente existindo, por assim dizer.
Acompanhar o desdobramento dos fatos que se seguem à grande encruzilhada na qual Chris se encontra é tentar entender como podemos ser responsáveis pelos nossos destinos, e que muitas das escolhas estão em nossas mãos. Ninguém mais pode ser responsabilizado por nossos fracassos e nossos êxitos a não ser nós mesmos, quando damos poder demais a quem está ao nosso redor, sem que nos demos conta de que a felicidade não está nas coisas nem nas pessoas. Onde então ela estará? Respostas, existem muitas. Mas nenhuma ainda pode ser considerada definitiva nesse mundo de cientificismo e extrema racionalidade.