29 de mar. de 2010

"Adaptação", uma jogada de um mestre da metalinguagem

Quando se fala em Charlie Kaufman logo se pensa em histórias mirabolantes, pouco compromissadas com a lógica e a verossimilhança. Seus desvarios sempre são dignos de reações diversificadas: uns amam, outros não entendem, alguns detestam, outros simplesmente ainda não conhecem tão bem. Nenhuma das opiniões acima, porém, pode ser obstáculo para que se assista a "Adaptação", um grande filme roteirizado por esse que é um dos melhores profissionais de sua área em atividade. Uma viagem insana está garantida aos seus espectadores, a começar pelo seu protagonista, vivido por um inspirado Nicolas Cage, num de seus melhores papéis em anos.

Ele é Charlie Kaufman, ninguém menos que o próprio roteirista do filme, o que até pode ser interpretado como um eficiente exercício de egolatria. É típico de alguém tão idiossincrático como ele, mas não vem exatamente ao caso. A missão de Charlie é adaptar um livro sobre orquídeas, da escritora Susan Orlean, magistralmente defendida por Meryl Streep. Mas isso não é nada simples, já que ele tem que lidar com uma série de frustrações que o acompanham há tempos. Uma delas é seu irmão gêmeo Donald, que morre de inveja dele e quer ocupar a função que ele vem tentando desempenhar a duras penas. Charlie também está enfrentando problemas de ordem sexual, o que significa dizer que ele está lidando com sua impotência. Vale ressaltar que não é o principal tentar descobrir se há algm teor autobiográfico na descrição desse protagonista. Até porque Kaufman cria uma grande brincadeira com a metalinguagem.
E essa brincadeira se dá através de um jogo complexo e intrincado que ele propõe ao espectador, que vai ficando cada vez mais interessante exatamente à medida em que sua profundidade vai aumentando. Traduzir tudo o que surge no filme é estragar muitas supresas que estão reservadas para quem assistir a ele, já que há espaço para vários acontecimentos. Há até mesmo um filme dentro do filme. A bem da verdade, o discurso metalinguístico funciona como um mannacial eterno para a escassez de ideias. Parte-se da questão da ausência do que dizer, para começar a dizer algo. É um recusro presente na literatura, e que o cinema incorporou muito bem. Grandes diretores, numa espécie de desrto criativo, recorreram a esse expediente muito eficaz. Federico Fellini, ao dirigir o legendário "8 1/2", enveredou por esse caminho, e o filme é hoje um dos melhores de sua carreira. Woody Allen, mais de uma vez, seguiu trilha semelhante, como quando dirigiu "A rosa púrpura do Cairo", e mais
tarde, ao entregar "Dirigindo no escuro". O resultado de ambos foi excelente. E há apenas dois anos, por ocasião do aniversário de 60 anos do festival de Cannes, um time de diretores magníficos foi responsável pelo engenhoso "Cada um com seu cinema", um poema coletivo de apreço à sétima arte.
Voltando a "Adaptação", a maneira com que o filme é conduzido é sua grande qualidade. Essa também é a segunda parceria entre Kaufman e o diretor Spike Jonze, depois do não menos inusitado "Quero ser John Malkovich". A sintonia entre os dois já parece consolidada, pois se percebe que Jonze está plenamente inserido nos devaneios perpretados pelo roteirista. A junção entre eles representa o tráfego pelos delírios da mente humana e por um cinema que não está ancorado numa realidade convencional, mas numa quase verdade muito mais inventiva e atraente. Kaufman é o narrador de histórias maravilhosas, para as quais o público é convidado sem qualque cerimônia, e que dificilmente causa arrependimento a quem embarca nelas. O horizonte de expectativas de quem vê um filme escrito por ele deve ser o mais amplo possível, já que nada é tão óbvio quanto possa insinuar que seja.
Quanto ao livro a ser adaptado por Kaufman - o personagem de Cage -, ele se chama "O ladrão de orquídeas", e o escritor tem a chance de se encontrar com sua autora. É a chance de os espectador ver uma Meryl Streep muito diferente daquela a que está acostmado, já que a atriz se despe de sua aura de sofisticada para encarnar uma personagem que se permite todo tipo de prática, como fumar maconha. Pelo papel, a Academia a indicou ao Oscar de atriz coadjuvante, mas ela perdeu. Seu companheiro de cena, Chris Cooper, em atuação igualmente inspirada, também foi indicado, e acabou levando a estatueta em sua categoria. Por tudo isso, "Adaptação" vale ser visto. É o tipo de filme que fala por si só, necessitando de pouquíssimas palavras para que seja legitimado.

26 de mar. de 2010

"Não estou lá", o caleidoscópio de uma lenda viva

O subgênero da cinebiografia ganhou um novo exemplar quando Todd Haynes decidiu dirigir "Não estou lá". É uma obra que se debruça sobre a vida de ninguém menos que Bob Dylan, uma importante figura do mundo musical, que merece todo o respeito e consideração por suas contribuições para esse ambiente. Multifacetado, o artista impingiu no diretor uma necessidade de retratá-lo da maneira mais múltipla possível, o que se verifica desde o início de seu filme. Com isso, Hanynes transformou a experiência de seu "Não estou lá" numa viagem maravilhosa pela vida e pela obra desse homem tão fascinante.

A começar pela forma com que o elenco vive as várias fases de Dylan, o longa tem características que o tornam pouco comum entre os demais de seu tempo e de seu gênero. Para personificar as épocas distintas de sua trajetória, o diretor recrutou nada menos do que seis atores, que representam não exatamente a pessoa Bob Dylan, mas a essência de cada momento de sua carreira brilhante e profícua. Entre os nomes que se encarregam da função nada simples de dar vida e corpo ao artista estão Richard Gere, capaz de mostrar um talento muito maior que na interpretação de outros personagens. Também dá vida a ele o excelente Heath Ledger, perfeito em sua composição detalhista do cantor. E o que dizer de Cate Blanchett, que entrega uma das mais emblemáticas atuações de toda a sua carreira? Por mais lugar-comum que seja, a constatação de que ela desaparece no personagem é altamente válida. Desde que ela surge em cena, não é possível se lembrar que se trata de uma mulher dando vida a um homem.

Mas "Não estou lá" ainda tem outros elementos louváveis ao longo de suas duas horas de duração. A jornada pela vida de Bob Dylan é contada de forma não linear, o que permite que suas idas e vindas no tempo não mantenham o espectador ancorado numa visão única a respeito do artista. Haynes se utiliza muito bem desse recurso, e imprime vitalidade a um filme que não resvala para a mera rasgação de seda diante de um ídolo. São mostradas algumas passagens negativas da vida dele também. Há também uma leva mescla de ficção com documentário, em sequências nas quais nomes como Julianne Moore dão vida a personalidades importantes que tiveram contato direto com a figura inquietante do cantor. A participação da atriz no filme é quase afetiva, já que ela surge na tela como um foguete. Moore vem de parcerias anteriores com Todd Haynes, nos filmes "A salvo" e "Longe do paraíso". A oportunidade de desfrutar de seu talento é fugaz, por isso deve ser vivida intensamente nesse longa.
Aspectos fundamentais da vida de Bob são mostrados aqui, como seu autodidatismo para aprender piano e guitarra, primeiras provas de seu grande talento para a música. Seu encantamento pela folk music também é registrado, reflexo da profunda admiração que desenvolveu por Woody Guthrie, um importante nome desse movimento. A década de 60 foi a época mais intensa na carreira de Bob Dylan, já que foi quando se deram as suas maiores metamorfoses. Tudo começou mesmo em 1962, quando ele lançou o primeiro de mais de 45 álbuns, o que o levaria mais tarde a ser eleito pela revista "Rolling stone" o segundo melhor artista de todos os tempos, atrás apenas dos Beatles. Ao longo de todos esses anos, Dylan já recebeu todo tipo de rótulo, mas sempre acabou
escapando deles, de uma forma ou de outra. Isso diz bastante a respeito de sua personalidade, sempre desconstruída para dar início a mais uma fase.
Haynes filma a maior parte de "Não estou lá" usando uma paleta de cores muito diversificada, mas também a abandona em certa altura, quando entra a versão de Cate Blanchett para o artista. Na verdade, cada ator que tem a função de viver Bob Dylan expressa um momento distinto de sua longa caminhada. Além disso, cada um tem um outro personagem para interpretar, o que faz do filme um constante jogo de quebra-cabeças. A linguagem é fragmentária, o que pode desagradar aos mais conservadores. Mas todas essas peculiaridades de que Haynes lança mão são absolutamente condizentes com a figura singular desse homem extraordinário. Cada fotograma da produção se assemelha a um caleidoscópio gigante, aqueles brinquedinho a que somos apresentados na infância e que nos entretém tanto com sua diversidade imagética. A metáfora se aplica com eficiência ao longa, que não se propõe uma lição de casa sobre Bob Dylan. Pelo contrário. O roteiro um tanto dotado de hermetismos passa longe da abordagem didática. Mesmo assim, para quem conhece pouco ou nada da obra de artista, é possível ter uma dimensão de sua representatividade para o âmbito musical, e também para além dele, já que sua influência se estende inclusive para a política e para o mundo das artes em geral. Essa é uma das principais características de sua obra, o diálogo com inúmeras frentes, o que a mantém com um senso de atualidade frequente e a potencializa para além de qualquer fronteira com a qual se queira delimitá-la. Por isso Haynes é tão feliz ao não optar pela unilateralidade. Depois de um filme tão sensível e delicado como "Longe do paraíso", é surpreendente ver o diretor no comando de uma obra tão desobrável, o que só assegura sua versatilidade e talento.
Distante de parecer uma colcha de retalhos, o filme só ganha em qualidade também com sua trilha sonora fabulosa. Como não poderia deixar de ser, aliás. O músico tem uma série de canções memoráveis, que não ficaram de fora desse filme. Pode soar como pretensão uma ou outra alternativa adotada na abordagem de Todd Haynes para "Não estou lá", mas essa é uma impressão que desaparece quando se assiste a sua visão plural desse artista tão completo. Com muita categoria, Dylan exprime um sentimento que é flagrante na modernidade, o de que somos muitos dentro de um só. Seu desdobramento em numerosas personalidades só reafirma o que, já em Fernando Pessoa se mostrava com grande veemência. Assim como o português lançou mão de seus heterônimos, numa tentativa de dar conta de seu mimetismo e de sua multiplicidade, Dylan trafega por estradas de muitas bifurcações para estabelecer pontes com vários ambientes, estações, ideias e ações.

A verborragia reinante de "Pauline na praia"

Palavras, palavras, palavras... é através delas que Eric Rohmer enreda seu espectador em "Pauline na praia". Na verdade, essa é uma tendência de seu cinema compo um todo, praticado há tempos, desde o final da década de 50. Egresso de um time de ouro que exercia a crítica cinematográfica na legendária "Cahiers du cinéma", Rohmer privilegia os diálogos em seus filmes, de maneira que a ação é quase mínima na maioria deles. Isso ocorre também com "Pauline na praia", que ele filmou em 1983. Essa é a grande qualidade do longa, que lida com as questões mais banais da vida com muita propriedade.

A trama que se desenrola ao longo de pouco mais de uma hora e meia é muito comum também: durante alguns dias, uma adolescente esperta fica numa casa de veraneio com sua prima mais velha. Ela acaba conhecendo um garoto que a atrai, e se deixa envolver por ele, ao mesmo tempo em que descobre que o namorado de ocasião de sua prima a está enganando, mantendo um romance paralelo com outra mulher bem debaixo de seus olhos. A narrativa do filme se resume praticamente a esses elementos, que acabam servindo apenas como pano de fundo para uma série de discussões a respeito da efemeridade da vida, da inconsistência dos sentimentos humanos e do mistério que é tentar entender os próprios desejos e os desejos do outro. E Rohmer consegue levar essa discussão adiante por meio de diálogos envolventes e criativos, que aguçam o pensamento do espectador acerca desses assuntos tão pertinentes para qualquer um.
A paisagem idílica eleita pelo cineasta para rodar essa obra também diz bastante sobre a condição do homem: mesmo em meio a toda a belez que houver, sua insatisfação dará mostras de que se mantém viva. E a ideia de colocar uma jovem e uma mulher mais velha vivendo seus amores lado a lado evidencia uma questão interessante. Nas atitudes tomadas por uma e outra, nota-se que há sempre uma certa dose de imaturidade do indivíduo diante do amor. Pauline é muito inteligente e já tem noção do que espera de uma rapaz, mas muitas vezes escorrega na maneira como busca o que quer. O mesmo acaba valendo para sua prima que, mesmo se dizendo muito entendida na área não se dá conta de que está sendo passada para trás.

Assistir a "Pauline na praia" exige do público uma certa dose de paciência, já que Rohmer não está preocupado em levar a cabo suas discussões tão rapidamente. Um filme do diretor se pauta mormente no exercício da contemplação, que afugenta boa parte dos espectadores, incluindo certas classes de cinéfilos. O mergulho nas diferentes visões que o diretor apresenta a cada filme é o mais interessante que ele tem a oferecer. Ele é daquela estirpe de realizadores que consegue navegar pelas mesmas águas quase sempre, porém encontrando novos ângulos de observação onde já se sente tão à vontade. Não é uma caractarística que se possa atribuir a qualquer cineasta. De talento semelhante, só alguns poucos, como Woody Allen, Pedro Almodóvar e François Ozon. Esses importantes nomes não têm compromisso direto com a originalidade, mas com a busca constante de analisar e entender a inquietude do ser humano sob vários aspectos. Não significa dizer que sempre são felizes em suas abordagens, afinal, os mais geniais também cometem seus deslizes vez por outra. Mas isso não desmerece suas obras em nenhum centímetro.
O cineasta pertenceu a uma geração que filmava à moda antiga, da qual existem hoje poucos representantes vivos. Os enquadramentos da câmera são muito pontuais, e ele se utiliza dela para dissecar os interiores de seus personagens com muita perícia. Não se trata de um cinema factual, mas sim de uma produção voltada para dentro. Essa peculiaridade pode ser uma das razões mais fortes para que ele nunca tenha sido uma unanimidade, tanto entre o público como para a crítica. Mas ele sempre pareceu pouco atento a esse detalhe, e tinha plena consciência do que estava fazendo. Já exercera o ofício da crítica antes de enveredar pelo caminho da direção. Na vida pessoal, Rohmer sempre adotou uma postura discreta, o que permitiu que sua obra aparecesse mais que sua personalidade. Mas mesmo que autor e obra não se confundam, é possível que se pense que um pouco de seus ideais estejam presentes em seus filmes. Partindo dessa premissa, pode-se dizer que Rohmer não é do tipo que emita opiniõess hipócritas sobre os sentimentos, e que sua sentença para o ser humano é a de que exista nele uma grande necessidade de eterno aprendizado

22 de mar. de 2010

"Igual a tudo na vida" e o peso das pequenas coisas

Com um carreira que já contabiliza 41 filmes, Woody Allen não precisa mais provar nada a ninguém. O diretor sempre trabalha com os atores que quer, e acaba sempre dando um jeito de supreender nas abordagens dos temas que lhe são caros. "Igual a tudo na vida" não foge à regra, embora seja um dos filmes menos inspirados desta década em seu cinema. Não importa. Allen nunca deixa de ter relevância, mesmo quando passa por instantes de brilho mediano.

Quando dirigiu este "Anything else" (no original), ele já estava quase septuagenário, e muitos dizem que esse filme se trata de um "Noivo neurótico, noiva nervosa" revisitado. Não é uma afirmação totalmente sem sentido, já que "Igual a tudo na vida" guarda mesmo algumas semelhanças com a obra mais famosa do cineasta. Como no filme de 1977, aqui também há uma mulher que leva um homem à beira de loucura, e armadilhas que envenenam a relação a dois surgindo uma após a outra, sem que ambos se deem conta de que o fim da paixão está para chegar. Ela tem uma grande volubilidade, enquanto ele se esforça o quanto pode para entendê-la e satisfazê-la. Entretanto, sintetizar esse longa como uma cópia do outro é extremamente limitador. Afinal, "Igual a tudo na vida" também tem seus méritos próprios.
A começar por seu título em português, o filme é sincero em se demonstrar como uma visão de banalidades que acontecem a toda hora com qualquer pessoa. Foi um escolha feliz batizá-lo assim. Desde seu nome, a história não engana ninguém. Tem-se aqui a vida de Jerry Falk (Jason Biggs), um escritor que vive uma crise sem precedentes, e precisa fazer as pazes consigo mesmo. Só na sucinta descrição do protagnista, percebe-se que Allen apresentará algumas gags sobre um tema que já dissecara antes. Em "Desconstruindo Harry", ele era um escritor que comprava brigas com todos à sua volta pela sua visão provocadora de amigos e parentes. Em outros filmes ele também entrava por esse caminho. Por isso, além de igual a tudo na vida, o filme também é igual, mas não totalmente, a outras obras allenianas. Isso não chega a ser um demérito, pois Woody Allen consegue manter o interesse no espectador. É possívek assistir ao filme movido pela seguinte interrogação: como será que ele vai falardas neuroses individuais e coletivas dessa vez? Essa simples questão já funciona como uma boa justificativa para que se descubra o que ele tem a dizer.

Voltando à sinopse, um dos grandes problemas enfrentados por Jerry é sua relação intempestiva com Amanda (Christina Ricci), uma mulher tão linda quanto escorregadia. Ela nunca parece estar inteiramente ao alcance do rapaz, que se vê desconsolado com sua distância constantee progressiva. A paixão de Jeey por Amanda foi à primeira vista. Mas logo vem Allen com sua lente de aumento e maximiza as pequenas loucuras desse casal, despertando risadas que vêm acompanhadas de uma dose de identificação, algo que o cinema do diretor sempre consegue gerar, de uma maneira ou de outra. Ele abriu mão do papel de protagonista, preferindo escalar Jason Biggs para o posto. Mas não deixa de aparecer em cena, dessa vez como David Dobel, um escritor veterano que dá alguns conselhos insanos para o jovem e ainda inexperiente Jerry. A escolha de Biggs para o personagem é um tanto questionável, já que sua filomgrafia pregressa exibia pérolas de gosto duvidoso, como a série "American pie". Ainda assim, parece que Allen quis dar um voto de confiança para o ator, e até que não fez mal de todo. Como de costume, um ator que fica com o papel que seria do diretor incorpora seus trejeitos, e eleva à potência máxima a insegurança quanto às mulheres, o questionamento da vida em todos os ses aspectos, uma cota de mau humor que o leva a reclamar muito, entre outras características. Por isso, mais do que Jerry Falk, Jason Biggs tem a responsabilidade de encarnar o alter ego de Woody Allen. De um modo geral, ele consegue dar conta do recado, embora fique aquém do desempenho de outros atores que desempenharam essa mesma função, como Kenneth Branagh em "Celebridades". A comparação também se torna inevitável porque desta vez o próprio Allen também está em cena, o que evidencia alguma discrepância na atuação dos dois. Sim, porque o diretor também sabe atuar muito bem, e tem grande domínio do timing cômico nas mãos. A trama, como já se disse, é absolutamente simples, e acaba servindo para que ele debara sobre questões diárias com eficácia, mais uma vez. Ainda estão presentes no elencos ótimos coadjuvantes, como Danny DeVito, muito bem na pele do agente de Jerry, e Stockard Channing, que arrasa interpretando Paula. As tiradas geniais, grande trunfo de Allen, também aparecem com veemência. Na conversa de Jerry com um taxista, tem-se uma discussão interessante sobre a existência, uma preocupação constante do diretor. E o jazz, outra paixão declarada dele, novamente tem seu espaço, numa agradável sequência em que Diana Krall é citada por causa de uma apresentação sua num piano bar. "Igual a tudo na vida" é isso. Um filme que não é melhor nem pior que tantas outras comédias, apenas mais consistente e instigante que a visão de diretores menos experimentados e parcos de conteúdo. Com uma simples ideia, Allen construiu praticamente toda a sua filmografia, sem esgotar as possibilidades de diálogos sobre tudo o que mexe com a cabeça e o coração dos homens. Ao começo da exibição dos créditos finais, fica a sensação de que se teve mais uma conversa proveitosa com um velho conhecido que expõe sua visão contributiva sobre as pequenezas que têm grande peso.

Emoção, força e docilidade em "As chaves de casa"

Delicadeza é a principal carcterística e também a maior qualidade de "As chaves de casa", do italiano Gianni Amelio. O cineasta é responsável por levar a plateia às lágrimas sem lançar mão de um pingo de sentimentalismo. Ele conta apenas com a emoção que, por si só, a história que deseja contar desperta. O longa acompanha uma jornada dolorida de um homem (Kim Rossi Stuart), que decide finalmente se aproximar do filho de 15 anos, com quem nunca teve muito contato. Acontece que o garoto tem uma deficiência que faz com que ele tenha que ir, anualmente, até Berlim, onde faz sua terapia.

Essa acaba sendo a deixa para que o pai estreite seus laços com o menino, já que ele decide acompanhá-lo na sua próxima viagem à capital alemã. Está dada a premissa de um drama forte, que é muito mais impactante do que sua breve sinpose possa fazer parecer. Amelio tem uma ótima mão para conduzir as interpretações e desviá-las da pieguice. Ele se utiliza de muita ternura para extrair de todo o elenco uma sinceridade comovente. Kim Rossi Stuart demonstra todo o seu talento na pele de um pai culpado que passa a experimentar as dores e as delícias de se ter um filho. No caso de seu personagem, as dores são muito maiores que as delícias, já que ele tem de lidar com constantes avanços e reveses vividos pelo jovem Paolo.
Depois que chega ao hospital no qual o filho passa pelo tratamento, Gianni, o pai conhece Nicole, uma mulher que tem um filha também deficiente. Em alguns minutos de conversa com ela, é confrontado com a dura verdade que permeia a vida de quem precisa acompanhar a rotina de um eterno paciente em suas limitações. A mãe resignada e incansável é defendida com propriedade pela talentosa Charlotte Rampling, atriz dotada de uma versatilidade admirável. Ela transita muito bem entre o italiano, o francês e o alemão através de sua personagem, que ab funcionando como uma ponte para a entrada de um pai hesitante num universo desconhecido e inesperado. Ele vai aprendendo dia após dia a vencer muitas etapas importantes, sem ter a certeza de que amanhã será melhor do que hoje.

É nessa abordagem que se equilibra bem entre o emocional e o prático que reside a relevância de "As chaves de casa". O diretor nunca permite qe Paolo desperte o sentimento de comiseração no espectador. Ele tem, sim, um grande problema, mas consegue trazer alegria a Gianni a cada nova conquista, e se mostra muito mais ciente do mundo ao seu redor do que faz seu pai imaginar. Isso também conta a favor de Amelio, porque faz com que seu filme não soe panfletário. Antes de tudo, trata-se de um conto sobre as infinitas possibilidades da vida, e sobre a necessidade que todos temos de ajudar e ser ajudados pelas pessoas que estão à nossa volta. Gianni, em sua decisão de ficar mais perto de Paolo, percebe a importância de se reinventar, adequando-se à nova situação que começa a viver. A transformação do personagem em prol do filho é tocante, e leva reflexões intensas acerca das relações paternais. Mais do que isso, remete ao pensamento sobre como os seres humanos estão se relacionando uns com os outros atualmente. Num mundo cujo contato pessoal está cada vez mais escasso, e todos estão cada dia mais virtualizados e cibernéticos, uma discussão a respeito do tema tem relevância máxima. Por todas essas características, "As chaves de casa" não é um filme que se deva deixar passar despercebido. Ele prova que o cinema italiano ainda rende exclentes histórias, e faz com que lindas experiências possam ser compartilhadas.

20 de mar. de 2010

A investigação do nascimento de um mal em "A fita branca"

Nos filmes de Michael Haneke, nota-se que o diretor não parece preocupado em responder a todas as questões que levanta. Como um investigador que está atrás de evidências para comprovar sua teoria, ele imerge em águas por vezes turvas, na tentativa de entender o mal do mundo. Mas seu entendimento não necessariamente coincide com o olhar do espectador. Em "Caché", sua câmera observadora se voltou para o cotidiano de um casal parisiense que tinha a paz abalada pelo envio sistemático de estranhos vídeos que mostravam sua rotina. A partir desse argumento, Haneke falava sobre feridas que carregamos sem nem sempre nos darmos conta, além de demonstrar que a desconfiança pode acometer até as mais sólidas relações, quando menos se espera. Entretanto, sua perscrutação chegava a um suposto fim sem todas as perguntas respondidas.

Esse também é o caso de "A fita branca", mais uma produção que não se importa em dar todas as resoluções de bandeja para o público. Sair com um ponto de interrogação ao final da exibição do filme é quase certo. Para contar uma história que se presta a tentar encontrar as raízes do "mal" na Alemanha, ele usa o preto e branco, resultando numa fotografia belíssima. A trama começa com a narração de um homem cuja voz denuncia sua velhice. Ele conta sobre estranhos acontecimentos que se deram em um vilarejo no começo do século XX, onde habitava. Cenas de que ouviu falar e que guardou na memória, mas das quais ele não tem absoluta certeza. É assim, já envolto em uma névoa de mistério, que o filme prossegue. O ritmo das cenas é lento, adequado à vida de uma comunidade rural de quase cem anos atrás. Tudo acontece vagarosamente, gerando uma prolixidade não em palavras, mas em duração. São mais de duas horas nas quais o público vê expostos pensamentos e atitudes com as quais nem sempre irá concordar.
O narrador dos acontecimentos era o maestro do coral de crianças da localidade e, aos poucos, vai dando sua visão do que se deu por ali. Uma visão que parece pouco tendenciosa, pelo menos à primeira vista. Ali, uma armadilha é colocada para derrubar o médico que vem montado em seu cavalo, um celeiro é incendiado sem explicação aparente e duas crianças passam por tortura depois de terem sido sequestradas. Cada fato parece ser independente um do outro, mas logo eles parecem formar uma unidade, que quem assiste o filme pode encontrar ou não. A maneira quase cientificista com que Haneke apresenta sua história pode soar chocante em alguns momentos, mas isso não é novidade na carreira do diretor. Afinal, ele polemizou com seu "A professora de piano", um de seus filmes mais controversos, e em vários outros, como "Violância gratuita", que ganhou recentemente um refilmagem no sentido mais literal da palavra. Trata-se de um diretor que não busca o meio-termo, o que faz dele mais que um mero contador de histórias. Seu cinema é feito de instigantes convites à reflexão, pautados pela ideia de que há muitas verdades, para a maioria dos fatos ou das suposições, sendo uma questão de ângulo acreditar em uma ou em outra.

A ausência de cores do filme não impede que se note a lividez das crianças, sempre muito resignadas em suas atitudes. Uma cena em especial evidencia essa visão conformista da vida que elas compartilham. A filha do barão local, ao ser perguntada pelo irmão mais novo se a pai deles morrerá, responde que sim, que um dia ele morrerá. O menino prossegue, e pergunta se isso acontecerá também à irmã, ao que ela responde também positivamente. Ele ainda insiste, e pergunta se todos um dia morrerão, e a confirmação da menina o deixa num misto de desolação e desesperança. Muito já se disse a respeito desse comportamento passivo desses personagens, inclusive que aquela seria a geração que apoiaria o nazismo décadas mais tarde, com a ascenção de Hitler ao poder. Mas essa é apenas uma questão, e há muitas outras interpretações possíveis para as atitudes daqueles meninos e meninas.
Haneke não se utiliza de grandes invenções narrativas, preferindo conduzir seu enredo com parcimônia, o que revela um filme muito mais simples do que se possa supor. O foco é na investigação do mal, que parece estar para nascer naquela região. O diretor leva sua câmera a um estágio de observação que se parece muito com a estética naturalista, que descreve a realidade sem fazer grandes julgamentos. Os fatos estão ali, para quem quiser ver e tirar suas próprias conclusões. O maestro, que toma para si a missão de descobrir o que está por trás daqueles acontecimentos sinistros. Ele está certo de que existe uma verdade aterradora escondida naquele vilarejo. Seus alunos, sempre contidos e de poucas falas, parecem carregar culpa pelos atos que cometem. É por causa de um desses atos que o barão decide castigar seus filhos, impondo-lhes o uso de uma fita branca, com o intuito de lhes evocar a necessidade de se preservar a pureza e a inocência. Daí o título da obra ser exatamente esse em bom alemão: "Das weisse band" (A fita branca).
No geral, esse é um filme destinado a pequenas plateias. O discurso de Haneke não é eloquente, a violência apresentada não resvala para a mera espetacularização e não há cenas que buscam a comoção do público a todo custo. O diretor é favorável a dizer muitas coisas com o mínimo possível. A longa duração de "A fita branca" contrasta com sua economia em diálogos e ações, que se traduzem num tipo específico de concisão, para além do que as imagens possam traduzir. Aliás, é nas imagens que reside a grande força do longa, que não demonstra uma intenção de causar impacto. Se acompanhado apenas sob um olhar contemplativo, também despertará muita inquietação e dúvida. Porque ninguém tem as respostas prontas para tudo o que há no mundo. Tudo tem uma esfera de insondável.

18 de mar. de 2010

"Viagem a Darjeeling", uma nova loucura de um grande diretor

A filmografia excelente de Wes Anderson ganhou um novo exemplar em 2007, quando ele rodou "Viagem a Darjeeling". O longa é mais uma comédia inusitada protagonizada por tipos estranhos, com os quais o espectador vai se habituando aos poucos. Se em "Os excêntricos Tenembaums" ele falava de laços familiares sob uma perspectiva algo bizarra, e em "A vida marinha com Steve Zissou" trouxe um olhar diferenciado para um filme de viagem, neste mais recente longa ele volta a exercitar sua visão aquilina para flagrar pequenezas que põem em xeque a normalidade de seus personagens, sempre apenas uma aparência.

Para contar essa nova história, ele reúne Jason Schwartzman, Adrien Brody e Owen Wilson para personificar três irmãos que estão vivendo uma relação deteriorada pelo tempo e pelo afastamento. Eles não se veem dsde que o pai foi enterrado, um ano antes dev seu reencontro. Cada um com seu rumo tomado, eles se dão conta de que não podem mais se manter distantes. Na verdade, a iniciativa parte de Francis (Wilson), que logo no início do filme aparece com o rosto envolto em curativos, resultado de um acidente de moto. Aliás, especulou-se nos bastidores, na época do filme, que Wilson teria tentado se matar na vida real e, portanto, seus curtivos não eram ficção. Verdade ou não, é um assunto que não cabe para determinar a análise do longa. Francis convoca seus dois irmãos, Peter (Brody) e Jack (Schwartzman) para uma jornada espiritual, na qual eles terão um encontro consigo mesmos. A proposta de Francis, em si, já é o primeiro passo para uma série de dados insólitos que acompanharão a trajetória desse trio.
As marcas de Anderson, como seu modo oblíquo de narrar a trama que apresenta, estão evidentes, o que deixa claro logo de cara que não se trata de um filme comum. O tom cômico aparece em várias sequências, mas sempre envolto em uma atmosfera surrealista. Os elementos que evocam esse aspecto incluem a fotografia, que é marcada pelas cores um tanto berrantes, o que revela um quê de Almodóvar. Mas aqui ela parece traduzir uma crítica a artificialidade da vida, um pouco como faz Alain Resnais em seus filmes. A caracterização dos três irmãos também ajuda a mergulhar no clima um tanto soturno que os acompanha na viagem ao lugar do título.

Francis, o autor da ideia da viagem, não é o único com problemas. Peter passa por uma certa crise existencial depois de descobrir a gravidez de sua mulher, e Jack ainda não se refez do fora que levou da namorada, e quer tê-la de volta a todo custo. O rompimento dos dois é mostrado em "Hotel Chevalier", um curta que precede "Viagem a Darjeeling". Ali, o espectador tem a chance de acompanhar as últimas palavras ditas por eles antes do fim da relação. A expressão turbada de Jack resume seu desconsolo pelo fato. A sequência de 13 minutos traz Natalie Portman num esplendor de beleza e frivolidade. Sua personagem sequer é nomeada, é apenas a "namorada de Jack". "Hotel Chevalier" serve como um prólogo para que se comece a assistir aos descaminhos de Francis, Peter e Jack, entendendo-se um pouco melhor como estão suas vidas pouco antes de voltarem a se ver. Ao final da viagem empreendida por eles, chagarão a uma espécie dev retiro espiritual onde se encontra a mãe deles, da qual se perderam pouco a pouco.
O caminho é percorrido dentro do expresso Darjeeling, um trem simpático e pitoresco no qual eles conversam, divagam, discutem, sofrem, lembram-se e se apoiam. Naquela louca jornada, eles só têm um ao outro. Alguns itens incomuns estão presentes na bagagem dos irmãos, como um spray de pimenta que será empregado na hora certa, e uma máquina plastificadora, que parece não ter utilidade alguma naquele périplo. A viagem a Darjeeling é feita de momentos hilariantes, que trazem consigo um teor de reflexão muito interessante. Pode parecer um filme como tantos outros, mas este não é mais um sobre viagem. Anderson tem sempre algo mais a oferecer, com filmes que nunca se contentam apenas com a superfície. Eles sempre vão além disso, do óbvio ululante que reina em nossos dias. Aqui não há fórmular prontas, diálogos débeis e a previsibilidade passa longe do enredo. O diretor se usa de uma premissa banal para falar de dificuldades inerentes a qualquer ser humano. Os problemas de comunicação, que assolam qualquer tipo de relacionamento, não são evitados aqui. Os três irmãos não se odeiam, mas também não morrem de amores um pelo outro e têm problemas em expor o que realmente está se passando com eles.
Há também espaço para que se critique os mundo místico, que a toda hora lança sua novidades e atrai legiões de crédulos. Na busca dos três para um encontro consigo memsmos, eles são confrontados com a validade dos métodos que lhes apresentam diante dos olhos. Até onde não se trata de uma estetização, um embelezamento que torna todos mais plastificados e autocentrados? Em dado momento da história, surge um negociador que lhes faz uma oferta curiosa, que só quem ver o filme saberá qual é. Ele é vivido por Bill Murray, colaborador habitual nas produções de Anderson desde "Três é demais". O ator já parece bastante à vontade no universo particular do cineasta, assim como Owen Wilson, que já escreveu roteiros em parceria com ele, e aqui faz seu terceiro trabalho sob a batuta de Anderson. No fundo, o realizador se debruça sobre os mesmos temas de seus filmes anteriores, mas não se esgota pela repetição. Ele sempre acaba encontrando uma maneira nova de discorrer sobre assuntos que interessam a gregos e troianos, ainda que seu resultado final não goze de uma apreciação unânime.
"Viagem a Darjeeling" chega ao seu fim trazendo a certeza de que escolher um caminho que se desvencilhe do lugar-comum ainda é possível no cinema atual. Essa arte precisa sempre de novas ideias e de novas linguagens para se debater temas recorrentes, ou de novos temas que venham a ser trabalhados com igual originalidade, a fim de que seu fôlego sempre exista. Nesse filme mais recente, Wes Anderson propõe uma viagem no sentido mais amplo da palavra, enveredando por caminhos improváveis e interessantes. Acaba por importar mais o caminho em si do que chegar ao destino final. E é triste ter que se despedir de companheiros de viagem que pareciam tão reais, tamanha a identificação que despertam.