15 de out. de 2010

“As invasões bárbaras” ou quando antigos sonhos e ideais se tornam pó

Filmado no ano de 2003, As invasões bárbaras é um exemplar precioso de bom cinema originário de um país do qual poucas produções no chegam: o Canadá. Felizmente, os espectadores brasileiros puderam ter acesso à obra, realizada em conjunto com a França, e que dá continuidade à história que o cineasta Denys Arcand havia começado a narrar em 1986, quando lançou O declínio do império americano. Nesse longa, um grupo de amigos se dividia entre homens e mulheres, reunindo-se em lugares diferentes, para discutir sobre os mais variados temas, mas privilegiando sempre o aspecto político em suas conversas. Enquanto os homens
preparavam um jantar numa casa de campo, as mulheres se refestelavam em uma academia de ginástica, onde podiam falar à vontade sobre homens, e eles sobre elas. Como o próprio título evidenciava, a questão central desse diálogos era a falência de um domínio que já não comportava em si todos os anseios e necessidades de uma geração, a mesma que havia, duas décadas antes, mostrado sua faceta mais incendiária num certo mês de maio.
Em As invasões bárbaras, Arcand prossegue esquadrinhando os medos, dilemas, alegrias e mazelas de que é composto o ser humano, mas, dessa vez, com uma fagulha ínfima de esperança, que já vinha entrando em estado de decomposição no filme anterior. Diferentemente de O declínio..., entretanto, em que todos os personagens tinha igual peso na narrativa, o centro da trama desse filme está em Rémy (Rémy Girard), que é o grande responsável pela nova reunião dos amigos. Se antes eles eram mais jovens, e não abriam mão de expor suas aspirações com a certeza de que as alcançariam, agora o discurso de cada um é bastante marcado pela modalização em cada frase. A grande temática do longa é a implosão de sonhos que vinham sendo alimentados ao longo do tempo, mas que foram sendo apagados pela força das circunstâncias contrárias. Todos eles se reencontram depois de serem informados por Sébastien (Stéphane Rouseau), o filho de Rémy, sobre o estado grave do amigo, que está na fase terminal de um câncer.
Nem é preciso dizer que o novo encontro entre eles é marcado pela melancolia, já que, de uma maneira patente, o tempo se mostra implacável e cruel com cada um, que não apresenta mais aquele doce brilho da juventude. E o que move esses amigos é, novamente, a verborragia. O roteiro, a cargo do próprio Arcand, parece ter sido
escrito para ser dito em uma curva melódica descendente, reafirmando a certeza de que nada é mais como antes, nem voltará a ser jamais. Fica evidente a tese de que todos mudamos o tempo todo, e que não podemos evitar a passagem do tempo. O ataque às Torres Gêmeas do World Trade Center, ocorrido em setembro de 2001, apenas dois anos antes das filmagens do longa, também entram em pauta, e justificam o título utilizado na produção, também entrando em pauta como um índice de que o fim de todas as coisas acaba chegando, inevitavelmente. Ao contrário do que possa parecer, no entanto, Arcand repele qualquer traço de sentimentalismo barato no reencontro de Rémy com seus amigos. Os diálogos travados entre os personagens são de uma atualidade incrível, e refletem exatamente a condição humana de nossos dias. Não há personagens planos em As invasões bárbaras, pois cada um apresenta suas várias facetas a cada instante da trama.
Desde o início do filme, percebe-se que a relação entre Rémy e Sébastien é bastante tumultuada, e isso é exteriorizado na forma como eles se tratam. Tal dissonância entre pai e filho se deve principalmente ao fato de Sébastien ter se transformado exatamente naquilo que Rémy mais detesta: um alto executivo de uma multinacional, a verdadeira encarnação do “american way of life”, tão repudiado por ele em suas aulas de história. É daí que surgem os embates homéricos que vão permeando a complicada relação deles. Vale ressaltar que as conversas entre os amigos é sempre bastante despudorada, já que eles não se privam de falar sobre assunto algum, tendo sempre um teorização a respeito daquilo sobre o que estão falando. Desse modo, o texto flui como água de nascente, sem qualquer freio ou obstáculo à naturalidade. No ano de 2004, o filme eleito o representante franco-canadense na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro, e acabou faturando o prêmio, uma láurea importante que acentuou o interesse do público pela obra.
Mas, independentemente do fato de ter sido premiado, As invasões bárbaras é um filme de valor inestimável, pois toca em temas graves, sem medo de expor feridas que cicatrizam com dificuldade, e que todos procuramos manter escondidas. Para quem assistiu a O declínio do império americano - pré-requisito para esse filme, aliás, fica nítido que o avanço dos anos trouxe muitas dessas feridas ao grupo de amigos. Se antes os sonhos eram tidos como praticamente certos de se realizar, agora todos estão cientes de que não foram plenamente capazes de mudar o mundo com suas concepções inovadoras. Nas entrelinhas de suas conversas, eles exalam um forte conformismo, que se agrava com a evolução da doença de Rémy. É por ele e para ele que todos estão novamente unidos, e é a sua condição física que acaba deflagrando um série de conflitos e reconciliações, inclusive com Sébastien. Com isso, vem a certeza de que, no fim da vida, a constatação da impotência humana parece ser remediada apenas pela proximidade daqueles que amamos.

14 de out. de 2010

"Soul kitchen”, uma comédia rasgada com atestado de qualidade

Quando se pensa em filmes cômicos, é frequente a associação com temas banais sendo tratados com superficialidade, interpretados por elencos com uma baixa capacidade de desvencilhamento do personagem que encarnam. A sinonímia, de fato, muita vezes se revela verdadeira, como quando “pérolas” como Não é mais um besteirol americano ou A hora do rango chegam às salas de exibição. Mas nem tudo está perdido nesse nicho onde a sede de divisas parece ser a única força motriz de produtores e ditos cineastas.

Soul kitchen existe, entre outras coisas, para contrariar esse pensamento pessimista, por assim dizer, do senso comum. O mais recente filme de Fatih Akin é uma jogada de mestre em termos de roteiro, atuações, cenários, trilha sonora e andamento, só para citar os aspectos que mais saltam aos olhos do espectador que decidir assistir a ele. Trata-se de uma comédia, mas uma comédia muito mais benfeita que a maior parte dos filmes que entopem os cinemas toda semana. E as qualidades de “Soul kitchen” se mostram logo em seus primeiros minutos de exibição. Na tela, acompanha-se a história de Zinos Kazantsakis (Adam Bousdoukos), um jovem dono de um restaurante que anda mal das pernas, e que dá nome ao longa. Aparentemente fadado ao fracasso, ele pensa em estratégias que visem à arrecadação de dinheiro para tirar o estabelecimento de sua situação precária.
Mas este é apenas um dos vários problemas que vão surgindo, em sucessão, na vida de Zinos. E é a partir daí que começam as sacadas geniais do roteiro do próprio Akin, que se debruça sobre uma conjunção de pequenos acidentes que transtornam a vida do protagonista. São acontecimentos simples, se considerados isoladamente, mas que, juntos, deixam Zinos sem saber que rumo dar às coisas. O roteiro do filme, a propósito, foi premiado no festival de Veneza de 2009, coroando o esforço do realizador teuto-turco em escrever uma trama que navegasse pelas águas do riso. Ele confessou, à época do lançamento do filme na cidade italiana, que teve muitas dificuldades para conduzir a história em que havia pensado, e que percebeu que a comédia é muito mais difícil de ser construída do que o drama.
E Akin vem de dramas pesados antes de Soul kitchen. Ele é responsável por um dos filmes alemães mais catárticos dos últimos anos, o também premiado Contra a parede (2003), exibido com louvor em Berlim, de onde saiu ganhador do Urso de Ouro. Em seguida, entregou um ensaio amargo sobre colapsos civilizatórios chamado Do outro lado (2007), em que aprofundou seus temas favoritos: a dificuldade de comunicação entre as pessoas, o apego às tradições como tentativa de autoconhecimento e a multiculturalidade como aspecto patente dos dias atuais. Por isso, uma incursão do iretor no âmbito cômico poderia ser, no mínimo, escorregadia, já que nem sempre os realizadores são felizes no que tange à versatilidade. Para o deleite dos fãs de um bom cinema, Akin se sai muito bem em sua mudança de rumo, já que, mais do se prestar a um entretenimento e arrancar boas risadas, Soul kitchen é um filme sobre a procura de um lugar num mundo em que a pasteurização de ideias, ações e gostos parece ter atingidos níveis altíssimos. Nas suas entrelinhas, filme tem sempre muito a dizer, e essa é a qualidade de cineastas que, por trás de assuntos triviais, conseguem apresentar visões interessantes sobre a realidade.

Não se trata, porém, de se fazer uma análise preciosista de um filme que, para além de qualquer coisa, não se propõe um ensaio sobre as contradições humanas, como quem quer encontrar algo de subjetivo até mesmo em Todo mundo em pânico, mas de enxergar que, sob uma superfície, pode se esconder um oásis de criatividade. Esse é o caso de Soul kitchen. Na história de Zinos, a cada nova surpresa que se lhe apresenta, ele é confrontado com a necessidade de encontrar um saída plausível para a resolução de seu problema. Além das dificuldades em lidar com os prejuízos que seu restaurante vem causando, Zinos tem de lidar com seu irmão Illias (Moritz Bleibtreu, de O grupo Baader Meinhof), que acabou de obter liberdade condicional. Ele quer um emprego de fachada para se manter livre nas ruas, e pede ajuda ao irmão para d
conseguir arquitetar sua farsa. Some-se a isso o cozinheiro contratado por Zinos para modernizar o cardápio do restaurante, um tipo iracundo e que não admite qualquer opinião sobre sua maneira de trabalhar. O personagem é interpretado por Birol Ünel, que já havia trabalhado com o diretor em Contra a parede, e que repete a parceria com Akin de maneira brilhante. Sua postura de enraivecimento a cada palpite dado por Zinos ou por um de seus funcionários é sempre hilária, e ele acaba sendo, em parte, responsável pela quase falência do restaurante.
A namorada de Zinos se transforma em outro de seus problemas, já que ela decide se mudar para Xangai por conta de um emprego, e o abandona sem a menor cerimônia na Alemanha. Tudo colabora para que ele decida vender o restaurante, antes que sua situação fique ainda mais complicada. Mas um conjunto de pequenas mudanças vai fazer com que os rumos de seu negócio se modifiquem, em mais um virada inventiva de Akin no roteiro do filme. Depois de muita insistência de Zinos, o chef do restaurante decide cozinhar aquilo que ele sempre sugeriu, e um DJ começa a tocar no estabelecimento, animando as noites dali e atraindo a curiosidade de pessoas que ouvem falar do Soul Kitchen. Artistas também ficam interessados pelo lugar, passando a exibir suas obras para os freqüentadores. Todos esses acontecimentos são mostrados de maneira rápida no filme, em uma seqüência embalada pela maravilhosa trilha sonora, um detalhe que sempre chama a atenção na obra de Fatih Akin, reforçando o clima de tudo-ao-mesmo-tempo-agora injetado na trajetória do protagonista. Como na vida real, ele vai do inferno ao paraíso quase sem escalas, dando uma guinada importante.
No que concerne à música, vale lembrar que Akin dirigiu um documentário em que caminhava pelo cenário musical turco, apresentando a produção de um país que ainda é visto por aqui com estereótipos. O filme se chama Atravessando a ponte – O som de Istambul (2006), e comprova a maturidade do realizador em traçar retratos da mescla de influências que rege os contatos interpessoais nos dias em que vivemos. E a música desempenha um papel importante também em Soul kitchen, podendo ser considerada como quase um personagem da narrativa. Akin impõe ao filme um ritmo bastante acelerado, entregando diálogos ágeis e inteligentes, que são capazes de deixar o público com um sorriso de satisfação no rosto a cada novo fotograma, já que ele sabe como trabalhar a palavra exatamente a favor da reação que deseja causar em sua platéia. Em sua duração, o filme traz um pouco de drama, mas a preponderância é da comédia, que se mostra muitas vezes rasgada, mas sem um laivo sequer de mediocridade.

2 de out. de 2010

"A fonte da donzela", uma teia soturna de coincidências

A cada novo olhar lançado por Ingmar Bergman sobre aspectos vários da natureza de homem, sua perspectiva se mostrava ainda mais acurada. Com um cinema do qual uma série de diretores é tributário declarado, não há como se manter impassível ante os seus retratos contundentes das vicissitudes moldando o ser humano. Em A fonte da donzela, o realizador sueco se deebruça novamente sobre a temática da Idade Medieval, que já rendera poucos anos antes uma obra-prima chamada O sétimo selo. Filmada em 1959, a trama gira em torno de uma família tipicamente medieval, com sua crença na vontade soberana de Deus para explicar todos os fenômenos da natureza.

Nesse contexto, já é possível vislumbrar que Bergman se propõe, mais uma vez, a tratar de um tema que é recorrente em sua filmografia: a crise da fé. É ela que vai permear toda a história, de duração inferior a uma hora e meia. Os pais são católicos fervorosos, convencidos de que a filha adolescente deve ser criada segundo os mais rígidos preceitos da religião cristã. Töre (Max Von Sydow), o pai da jovem, é casado com Märeta (Birgitta Valberg), a mãe, e eles incumbem a menina de levar velas para acender em homenagem à Virgem Maria, em uma igreja que fica na região. Essa família vive na Suécia do século XIV, um período em que a população estava dividida entre o cristianismo e o paganismo, tendo sido o segundo incorporado pelo primeiro paulatinamente. Para chegar ao seu destino, a menina tem um longo caminho a
percorrer, e o faz montada em um cavalo pertencente à família, já que o casal é dono de uma propriedade rural.
Karin (Birgitta Pettersson), a filha adolescente do casal, é uma jovem bastante arquetípica, em se tratando do ambiente em que está inserida: sonha em se entregar para um único homem, que será aquele que ela amar verdadeiramente, e com quem poderá se casar e ter filhos. Como se percebe, é a emergência de um velho dogma do catolicismo, que apregoa o sexo apenas depois do casamento. A menina é a imagem clara da pureza, reforçada o tempo todo por sua postura de devoção a Maria e por sua obediência sem questionametos aos pais. Bergman fez uma escolha feliz ao escalar a jovem atriz para dar vida a personagem, e soube expor a fragilidade de que necessitava para fazer com que o público se torne seu cúmplice e se choque com a tragédia que se lhe abate.

Antes que o fato cruel suceda, no entanto, Bergman se preocupa em dissecar os meandros da fé que nutre aquela pequena família, expondo seu cotidiano de muito trabalho e de um temor no invisível que quase beira a alienação. Diferentemente do que se possa supor, contudo, o diretor não dá à Idade Média a antonomásia clássica de "Idade das Trevas". Não em seu sentido mais corriqueiro, pelo menos. E, com a progressão da narrativa, chega-se à conclusão de que não é mesmo essa a abordagem do cineasta. Se há trevas naquele período, não significa que elas sejam exclusivas dele. A condução do filme faz perceber que, onde houver o homem, sempre haverá espaço para sentimentos e atitudes negativas, como a violência, a crueldade, a lascívia e o sadismo, ainda que em estado latente. Tal consideração permite que se faça um paralelo entre a situação verificada na tela e a conjuntura atual.
É importante salientar que Bergman refuta qualquer traço de maniqueísmo com A fonte da donzela, preferindo lançar suas observações sobre o caráter dual do homem. Voltando ao enredo do filme, é no caminho para a igreja que Karin sofre com a tragédia. Ela é abordada por dois pastores de cabras, que a estupram sem qualquer piedade e, em seguida, ela é assassinada por eles. A sequência é apresentada por Bergman pacientemente, e mistura uma certa dose de crueza com um quê de poesia, caracterizando o cineasta como um exemplar raro entre os seus, já que não está interessado em simplesmente filmar a violência por si só. Como em um filme posterior, Da vida das marionetes, em que analisa exaustivamente o episódio do assassinato de uma prostituta, aqui ele dedica alguns bons minutos a assinalar até onde um homem pode avançar em seu instinto de mais baixa vileza. Como um verdadeiro esteta da imagem, Bergman compõe um quadro de pura angústia e desolação ao apresentar ao espectador a morte dolorosa daquela personagem tão angélica.
O questionamento às instituições religiosars atravessa todo o filme, e reforça o apreço do realizador pelo tratamento das dúvidas a respeito da existência: por que estamos aqui?, qual o sentido de viver e morrer?, se Deus existe, por que não se comunica?, entre outras questões geradoras de inquietude. Seguindo-se à morte de Karin, vem uma grande e terrível coincidência sobre a família, que não entende porque a menina demora tanto a voltar para casa. Os mesmos pastores que foram responsáveis pelo assassinato da adolescente de 15 anos vão prosseguindo em sua caminhada, até que chegam à casa de Töre e Märeta para pedir-lhes comida e água. A mãe já se encontra aflita, pois não tem notícias da filha e quer que ela volte, o que faz com que o marido procure tranquilizá-la, lembrando-lhe que a garota já dormiu na cidade em outras ocasiões em que fora à igreja.
Não tarda, porém, para que os pais de Karin constatem que a menina está morta, o que se traduz na percepção de que os pastores estão com a roupa que a filha vestia quando de sua partida. Ao relatar o fato a sós para o marido, instaura nele um forte desejo de vingança, do qual ela também se torna imediatamente partidária. A partir daí, o filme ganha contornos ainda mais obscuros, acentuada pela fotografia de Sven
Nykvist, seu habitual colaborador, o diretor captura com sua câmera observadora o desenrolar da fúria de Töre contra os homens que desonraram e tiraram a vida de sua filha. No fim das contas, A fonte da donzela se estabelece como um inteligente debate sobre o valor da fé cega, e até que ponto a bondade pode resistir ao ataque do mal, mostrado sob a forma de uma alegoria, com a família que tem sua felicidade destruída por obra de malfeitores. Assistir ao filme atiça a necessidade de se discutir a respeito do tema, e é mais uma prova concreta de que Bergman sempre foi talentoso em espiar as agruras da condição humana, dessa vez, por meio de uma teia soturna de coincidências.

23 de set. de 2010

Alegrias e agruras de uma relação à distância em "Mary e Max - Uma amizade diferente"

Uma das mais gratas surpresas do ano de 2010 foi, sem sombra de dúvida, Mary e Max -Uma amizade diferente. A animação australiana, dirigida por Adam Elliott, é simplesmente um grande achado em termos de narrativa, de enredo e de como tocar fundo o coração de qualquer ser humano, mesmo aqueles que parecem não ter um. Ao longo de seus 80 minutos de duração, o cineasta vai criando no público uma sensação de pertencimento àquela história, que praticamente impede a quem está assistindo ao filme de passar incólume a ele. Tudo começa quando Mary, uma garotinha retraída e solitária de 8 anos,começa a aumentar seus questionamentos sobre o mundo e as pessoas. Incapaz de se relacionar normalmente com os colegas de sua escola, ela decide começar a se corresponder com uma pessoa escolhida ao acaso em uma lista telefônica.

Mary é baixinha e sente dificuldade enorme em pertencer a um grupo, como seria esperado para qualquer menina de sua idade. Ela tem uma mãe com quem não mantém qualquer diálogo saudável, o que agrava a sua desorientação perante a realidade. Depois de decidir escrever para um desconhecido, ela acaba tendo sua carta enviada para Max, um homem de 44 anos, que concentra uma série de características que só o tornam repelente para a sociedade em que vive: judeu, obeso, e com síndrome de Asperger, uma anomalia que o impede de se desenvolver mentalmente como um adulto normal, gerando-lhe um comportamento parecido com o de uma criança da idade de Mary. Os futuros amigos moram a quilômetros de distância um do outro, já que Mary vive na Austrália, mais precisamente em Melbourne, enquanto Max habita em Nova York.
Para quem imaginava uma animação nos moldes daquelas produzidas pela Disney/Pixar ou pela Dream Works, a surpresa já começa pelo início da sinopse, comentado acima. E Mary e Max - Uma amizade diferente, vai muito além disso. Na verdade, logo se percebe que o filme, apesar de um animação, não é exatamente recomendável para todos os públicos, já que oferece um tipo de reflexão de que, normalmente, filmes desse "nicho" não dão conta. Elliot subverte nossas expectativas ao colocar na tela uma Melbourne apática, bem como uma Noya York plúmbea, de céus opressores, análogos à percepção da realidade de Max. Vale o comentário de que a animação é inteiramente realizada com massa de modelar, por meio das quais os personagens e os cenários forma sendo construídos e, posteriormente, ganharam "vida" por computação gráfica. Independentemente desse fato, os protagonistas exalam uma humanidade que, certas vezes, não se verifica em atores de carne e osso.

Isso revela que a escolha de Adam Elliot pela animação em stop motion foi muito feliz, já que fica difícil imaginar um filme com atores reais, da forma que é conduzido. Na versão original, legendada em solo brasileiro, as vozes de Mary e Max pertencem, respectivamente, a Toni Collette e a Philip Seymour Hoffman, o que confere ainda mais charme aos personagens, para quem é fã do trabalhos desses intérpretes, além de conferir ainda mais humanidade aos protagonistas. Collette, por sinal, também é australiana. A amizade entre os dois vai se desenvolvendo gradativamente, mas sempre enfrentando agruras e alegrias que qualquer amizade enfrentaria, mas que, pelo fato de ser à distância, sao potencializadas para além do comum.
Com a resposta de Max à sua carta, em que vão perguntas variadas sobre a população dos EUA, sobre a qual sua mãe contou vários mitos, Mary se entusiasma e decide enviar uma nova missiva ao novo amigo. E, assim, anos a fio vão se transcorrendo, de maneira que eles vão ocupando suas rotinas com a troca de correspondências, em que discorrem acerca dos mais variados assuntos, sempre à procura de respostas para os enigmas que lhes vão interessando dia após dia. As dúvidas que surgem são um belo achado do roteiro, que valoriza sobretudo os diálogos nessa crônica cotidiana facilmente aprazível por espectadores ávidos de entrar em contato com uma boa história.

Não faltam nessas conversas aspectos interessantes e algo bizarros da natureza humana, como o cachorro-quente de chocolate idealizado por Mary, cuja receita ela envia para Max, que também se propõe a fazê-lo. Por conta de sua doença, Max tem a idade mental equiparada à idade biológica de Mary, e eles entram em una fina sintonia desde o início de seu contato por causa disso. Max expõe seus medos e seus traumas, e Mary, fazendo as vezes de mãe ou de irmã mais velha, vai aconselhando seu amigo a se abrir mais para as pessoas à sua volta. No ápice de suas crises de pânico, ele mal sabe como agir, pois, em suas próprias palavras, "os seres humanos são muito estranhos", e ele não consegue decifrar o que os outros querem dizer através da observação de seus olhares, que lhes são sempre enigmáticos e angustiantes por serem enigmáticos.
Quando é incentivado por Mary a procurar dar uma chance ao convívio com outras pessoas de sua cidade, Max decide experimentar, mas suas tentativas acabam sempre sendo frustradas, o que o leva a uma fuga dentro de seu apartamento, que é o cosmos onde ele se sente realmente à vontade. Na amizade que travam ao longo dos anos, Mary e Max têm um no outro uma janela para o mundo, um interlocutor constante para a expressão de suas inquietudes e interdições, sem que recebam de volta censura ou litígio. Como um animalzinho de estimação, que não cobra que as palavras de seu dono façam sentido, Mary e Max se mostram um para o outro com uma postura assumidamente fragmentária, sem a pretensão de que serão absolutamente capazes de juntar seus cacos.
Com o avanço do tempo, Mary se torna uma adolescente, e sua mudança natural de concepção sobre a vida a leva a arranjar um namorado, de quem ela fala sempre para Max, até o dia em que faz uma surpreendente constatação a respeito do rapaz. Na troca de correspondências entre os amigos, o roteirista insere pitadas de um humor amargo, causando a mistura de sensações de alegria e tristeza, de choro e riso, em que as ouve sendo lidas por eles. Elliott merece sem brindado por sua iniciativa de levar às telas uma animação tão diferente daquelas a que estamos habituados há tanto tempo. Faz bem à alma e o coração descansar os olhos da estroboscopia (que também tem seu valor, na hora certa), e mergulhar em uma narrativa sincera sobre a imprecisão da vida e da nossa impotência diante de certas descobertas da existência. Vale lembrar que, por seu teor de tristeza, reforçado pelo final que, certamente, soará impactante, Mary e Max - Uma amizade diferente não é um filme que se deva recomendar para crianças muito pequenas, que podem ser confrontadas com uma realidade assustadora. Os jovens e adultos, porém, podem se fartar com as inúmeras referências às desolações que assolam o seu mundo.

"Em Paris" ou simplesmente mais um dia como outro qualquer

No âmbito da cinematografia contemporânea francesa, é notável o talento de alguns diretores que, apesar de jovens, já vêm calcando suas carreiras com obras de qualidade inenarrável. Os dois grandes realizadores dessa nova safra são François Ozon, que vem dirigindo, em média, um filme por ano, e Christophe Honoré, também dono de uma filmografia iniciada há poucos anos, mas já apresentando um bom número de exemplares. Cada qual ao seu estilo, mas pertecentes à mesma geração, eles buscam entender o que se passa na cabeça dos jovens, ricos e entediados, que parecem levar suas existências em uma sucessão de dias banais, sem a preocupação de que o dia seguinte pode não chegar. Essa observação da rotina niilista da juventude atual alcançou seu apogeu com Em Paris, mas uma entre tantas produções que
carregam o nome da capital francesa em seu título, e cuja direção pertence a Honoré, também responsável por títulos como Ma mère (não lançado no Brasil), Canções de amor e A bela Junie.
A trama é focada em dois irmãos de comportamentos antagônicos, o que, em si, não representa qualquer inovação, visto que, anualmente, filmes aos montes são produzidos com base nesse argumento. Independente disso, originalidade não deve ser condição sine qua non para que se decida por assistir a um filme. Mais vale uma história corriqueira sendo bem contada que uma premissa fenomenal que não se desenvolve a contento - deixemos esse comentário para um certo Almas à venda, só para ficar em um exemplo recente. Digressões à parte, esse é apenas ponto de partida de Em Paris, cuja narrativa é condensada em um único dia na vida desses dois irmãos. A propósito, eles se chamam Paul (Romain Duris) e Jonathan (Louis Garrel), e voltam a morar juntos depois que o segundo se separa de sua namorada.
Com isso, suas personalidades diversas ficam novamente encerradas em um mesmo ambiente, o que faz com que eles contraponham e/ou justaponham suas visões sobre a vida, o amor, as mulheres e outros assuntos em suas conversas. O fato de Paul e Jonathan terem olhares bastante diferentes sobre o mundo não lhes impede de manter uma forte cumplicidade, que culmina com gestos íntimos de demonstração de carinho mútuo, que podem gerar certa desconfiança no espectador que começar a ver o filme depois de seu início. Há uma cena em que os um deles está na banheira, e outro entra nela também para consolá-lo, já que ele não se conforma com o fim do casamento. Durante as 24 horas que se sucedem na vida de Paul e Jonathan, eles explicitam a maneira como encaram a vida, adotando comportamentos distintos. Enquanto Paul permanece enclausurado no apartamento, onde também mora o pai deles, Mirko(Guy Marchand), Jonathan prefere caminhar pelas ruas, à caça de uma nova conquista a cada esquina.

É impressionante o charme de Jonathan, que, como logo se percebe, é o irmão mais novo. Personificado por Louis Garrel, cuja projeção se deu no já legendário Os sonhadores, ele é o retrato do bon vivant, que saracoteia inadvertidamente por veredas da desocupação, sem se interessar em fazer qualquer coisa de útil. Garrel se tornou o ator preferido de Honoré, e já soma cinco trabalho seguidos sob a batuta do realizador. De fato, é um ator muito talentoso, que sabe como hipnotizar a plateia a cada aparição de um personagem seu. Ao longo de Em Paris, é exatamente assim que ele sempre surge: livre e lépido, como uma lebre. Não perde tempo em conquistar, e sempre triunfa com o garbo de um Casanova que colhe o fruto que antes espreita com diligência, que, em seu caso, são as jovens em fase de efervescência hormonal, exalando estrogênio por onde passam, misturado a um feromônio que atrai inexoravelmente.
Por sua vez, Paul vai desenvolvendo o mesmo tipo de depressão que levou sua irmã ao suicídio, algum tempo antes, o que leva Mirko a várias tentativas de tirar o filho de sua inércia. Nesse sentido, Paul é realmente o extremo oposto de Jonathan. Se os dois fossem nuvens, Paul seria um cúmulo nimbo, daquele bem carregado, prestes a chover a qualquer momento, enquanto Jonathan seria um alto cirro, que se despedaça facilmente com o calor do sol, por ser fino e pouco consistente. De alguma forma, essa discrepância de naturezas os aproxima, refinando a afeição que nutrem um pelo outro. Com sua luminosidade, Jonathan vai tentando enredar Paul em um atmosfera de alegria, sufocando suas verbalizações de descontentamento, mas não é tão simples quanto possa parecer.
Como se pode depreender dessa crítica, a narrativa de Em Paris se fixa em um espaço circunscrito de um único dia para mostrar apenas aspectos ordinários da trajetória de seres absolutamente comuns. O pai dos dois, Mirko, também não apresenta nenhuma grandeza, e encara sua vida com a maior simplicidade possível. O intéprete de Mirko, por sinal, é um indício da homenagem que Honoré se propôs a render com esse longa à nouvelle vague. Trata-se de Guy Marchand, um ator habitualmente presente no elenco de filmes desse movimento cinematográfico. Os enquadramentos da câmera, a fotografia minimalista e a narrativa apontam para uma espécie de filiação do diretor aos grandes nomes que compuseram a nouvelle vague. Por meio de Em Paris, o jovem cineasta nos abre uma janela com vista para a filigrana do talento.
Acompanhar o filme é descobrir que Christophe Honoré desenvolve uma história simples e cotidiana com habilidade e desevelo, sem se preocupar demasiadamente em ser original, mas em se apresentar como tributário de uma forma de fazer cinema que muito modificou a perspctiva dos diretores franceses, assim como de boa parte da Europa. Orçado em apenas 1,5 milhão de euros, Em Paris é cinema em estado puro, com belas imagens oriundas do apuro visual de Jean-Louis Vialard, responsável pela fotografia, e com atuações seguras e econômicas dos protagonistas, que tornam os 92 minutos de projeção um belo programa para se fazer no cair da tarde de um sábado morno e reflexivo. Os questionamentos que todos nos fazemos sobre o dia a dia e a vida estão lá, longe de serem mascarados por um final feliz à Holywood, que pasteuriza até mesmo a ideia de felicidade.

20 de set. de 2010

"A outra": uma tentativa de satisfação de desejos velados pelo tempo

Ao longo de sua extensa filmografia, Woody Allen se permitiu fazer incursões muito bem-sucedidas pelo terreno da comédia, tornando o seu nome um dos mais inesquecíveis no gênero. Não é exagero, portanto, dizer que Allen está para a comédia assim como Hitchcock está para o suspense. Cada qual demonstra (demonstrou) ser exímio naquilo que faz (ou fez), o que torna a espera por seu próximo trabalho um delicioso suplício. Entretanto, Allen não se restringiu aos filmes que provocavam risos, e também se aventurou no drama, sendo responsável por alguns dos filmes mais subestimados do nosso tempo. Em fins dos anos 70, trouxe Interiores (1978), longa dotado de uma atmosfera bergmaniana flagrante. Ele nunca escondeu de ninguém que Bergman é seu diretor predileto, e voltou a demonstrar essa predileção dez anos depois com A outra.

Aqui, filmou a história de uma mulher em busca de um encontro consigo mesmam, vivida pela talentosa Gena Rowlands. Foi o bastante para que, como com Interiores, o cineasta fosse rechaçado, tendo seu filme definido como uma tentativa coxa de se aproximar do realizador sueco. Trata-se de uma tremenda injustiça, que merece ser corrigida. E a melhor forma de se fazê-lo é assistindo ao filme, o que não é sacrifício algum. A trama gira em torno de Marion Post (Rowlands), uma escritora que está em processo de construção de seu novo livro. Sua rotina começa a sofrer alterações quando ela precisa se mudar temporariamente para um apartamento onde poss escrever com mais tranquilidade. Com isso, isola-se em um lugar que tem um problema acústico, o que lhe permite ouvir as lamentações de uma paciente que se consulta com a psiquiatra que trabalha no apartamento ao lado.
É com esse argumento simples e atiçador que Allen desenvolve, durante enxutos 84 minutos, uma história de autodescoberta a partir da observação do outro em suas minúcias e contradições. Um teor fílmico bastante parecido com a obra de Bergman, que, a cada novo trabalho, procurava mais e mais dissecar os interstícios da natureza humana, o que resultava em belos ensaios sobre a condição dos homens. Allen também demonstra essa busca em A outra (Another woman, no original) talvez, no máximo, com uma perspectiva mais modesta. De fato, não está entre os grandes filmes do diretor. Mas um filme não tão bom de Woody Allen nos deixa, no mínimo, com a sensação de que estamos diante de um velho conhecido, ouvindo falar em um de seus dias de menos inspiração.
Voltando ao enredo do filme, a história de vida da mulher estranha que Marion ouve desperta-lhe o interesse, e ela quer conhecer melhor aquela pessoa que está em uma fase tão conturbada. Aquela mulher estranha se chama Hope, um nome bastante sugestivo, certamente não tendo sido escolhido ao acaso pelo diretor e roteirista, já que, em português, sua tradução é "esperança". É exatamente o sentimento que falta à personagem, que parece estar se afastando progressivamente da sanidade a cada novo passo que ensaia dar. Não demora para que Marion tente se aproximar um pouco mais de Hope, que se revela arredia, quase o extremo oposto dela.
Allen faz com que dois polos contrastantes entrem em contato, dando ao espectador a noção de que, o que nos atrai no outro pode ser muito daquilo que temos dentro de nós mesmos. Quando a arrogância ou a irreverência de alguém nos incomoda, pode ser porque estamos olhando como que por um espelho a outra pessoa. Quando reclamamos que fulano nos tira do sério, podemos estar nos referindo ao reflexo de nossa própria imagem sendo visto nessa pessoa.
Por esse motivo, dentre vários, A outra é um filme bastante atraente, pois coloca o público em contato com um lado incômodo de sua personalidade. Marion, envolvida pela forma libertária com que vê Hope levar a vida, livre de amarras que impõem o convívio social, inicia um romance canhestro com Larry (Gene Hackman), mesmo tendo um casamento de longa data com Ken (Ian Holm). A personagem é tomada por um desejo de revolução, e isso se dá, entre outras coisas, nesse quase namoro com um homem interessante, e que representa para ela uma saída possível para uma outra vida. Essa possibilidade, no entanto, acaba não se revelando eficaz, por razões que, quem assistir ao filme, poderá entender.
Em uma análise mais rasteira, A outra está longe de ostentar o brilho de muitas obras de Woody Allen, que já demonstrou ser capaz de muito mais, seja na comédia, que domina com habilidade inenarrável, seja no drama. Mesmo assim, significa ter contato com uma realidade audiovisual que não está distante de nosso cotidiano. Numa outra instância, é estar diante de um Allen psicanalítico, que não está preocupado em bancar Freud, mas em exteriorizar os fantasmas interiores que lhe atormentam, como acontece com qualquer pessoa. E o cinema, bem como o tragédia, em sua essência grega, presta-se excelentemente a esse esforço catártico.


P.S.: Não confundir com o filme homônimo de Justin Chadwick, lançado em 2008 com Scarlett Johannson e Natalie Portman no elenco.

16 de set. de 2010

A memória afetiva desdobrada em "O segredo dos seus olhos"

O cinema argentino vem sendo celebrado com frequência nos últimos anos. Tido como promissor, apresenta muitos nomes de relevância no cenário mundial, tais como Daniel Burman (O abraço partido, As leis de família), Marcelo Piñeyro (Plata quemada, Kamchatka) e Juan José Campanella, sendo este último bastante elogiado e lembrado por seu O filho da noiva (2001), que lhe rendeu importantes prêmios.
Dono de um estilo bastante afetuoso, Campanella mantém uma saudável parceria com Ricardo Darín, com quem trabalha pela quarta vez em O segredo dos seus olhos, depois de já tê-lo feito protagonista de O filho da noiva e, anteriormente, de O mesmo amor, a mesma chuva (1999), além de fazê-lo integrar o elenco principal de Clube da lua(2005).
Em O segredo dos seus olhos, Darín vive Benjamin Espósito, um investigador veterano que está à beira de sua aposentadoria, depois de anos de (bons) serviços prestados ao seu escritório. Finalmente, então, ele poderá se dedicar à escrita de seu livro, que versará sobre um crime que ele analisou há muitos anos, e que lhe deixou marcas profundas na memória. Uma memória um tanto afetiva, pelo fato de aquele crime ter sido objeto de seu trabalho. Querido por todos à sua volta, Benjamin tem um círculo de amigos interessante, que diverte por sua simplicidade, como é o caso de Gómez, interpretado pelo talentoso Javier Godino. Uma vez longe do trabalho, o protagonista poderá fazer a sua extensa pesquisa para compor os quadros que resultarão em seu romance.
A partir desse argumento, Campanella desdobra os meandros do crime que marcou Benjamin, fazendo com que o espectador entenda um pouco sobre como o fato se desenrolou. Porém, tudo é sempre filtrado pela ótica do personagem, vale lembrar. Com isso, vai sendo montado um grande mosaico de cores e formas de que derivará a consciência de que o crime não foi totalmente esclarecido. É quando começam as buscas de Benjamin para descobrir o que, de fato, ocorreu anos antes. Em meio às suas buscas, o personagem encontra tempo para divagar em sua paixão velada pela antiga colega de trabalho, a bela Irene (Soledad Villamil, um deleite para as retinas), com quem mantém uma relação pseudoprofissional, marcada pela languidez, principalmente da parte dela.

O segredo de seus olhos se baseia especificamente no mergulho de Benjamin nesse crime, e faz com que a narrativa do filme se alterne entre drama, comédia e suspense, num roteiro com todas as pontas muito bem amarradas, e isentas de previsibilidade. Para o espectador habituado a assumir a postura de um Sherlock Holmes, será interessante tentar descobrir que rumo o enredo tomará no fotograma seguinte, já que, de esclarecido, o crime não tem nada, o que desafia a compreensão de Benjamin. Uma cena que não se pode deixar de destacar é a que mostra a perseguição do protagonista ao criminoso em um estádio, onde a câmera de Campanella dimensiona o público para ângulos improváveis, capazes de tirar o fôlego de quem assiste à sequência. Definida como uma "ousadia narrativa" pela crítica, a cena faz muito cineasta reagir com estupefação.
É notável a desenvoltura com que Ricardo Darín se locomove no universo de Campanella, e sua naturalidade para a interpretação. Fica a dúvida: há muito de Espósito em Darín ou Darín absorveu toda a essência de Espósito. A sua química com Soledad Villamil também é evidente, o que torna o filme ainda mais irresistível. Sua vitória no Oscar de 2010, como melhor filme estrangeiro, só confirma a força de uma cinematografia de excelência e alta qualidade. Quando tudo parecia apontar para que A fita branca, de Michael Haneke, faturasse o prêmio, eis que uma história emotiva e bem contada avança no páreo. Ambos os filmes, cada qual à sua maneira, tem suas qualidades, o que demonstra a certeza de que, onde quer que se esteja, é possível fazer um bom cinema.