28 de abr. de 2010

"Casamento silencioso" e o uso do surreal para falar de política

O cinema romeno tem recebido muita atenção da crítica nos últimos anos, sobretudo pela dita qualidade de seus filmes, que têm ganho mais espaço no circuito comercial. De 2007 até 2009, chegaram pelo menos três filmes daquele país: "A leste de Bucareste", "Como eu festejei o fim do mundo" e "Casamento silencioso". É sobre este último que a crítica em questão se debruça. Com direção de Horatiu Malaele, é mais um longa a usar como pano de fundo de suas ações a queda do regime comunista, do qual Josef Stálin era o símbolo maior.

O diretor busca examinar os reflexos dessa derrocada num contexto rural, apontado suas lentes para a Romênia de 1953, ano da morte do ditador russo, e da consequente expiração de regime tão autoritário e punitivo. Tudo começa, porém, nos dias atuais, quando uma equipe de televisão local decide investigar os rumores de supostos eventos paranormais ocorridos em uma pequena cidade do interior do país. Na procura por pistas que comprovem os fenômenos, os repórteres abordam moradores da região, que não são nenhum modelo de gente educada, diga-se de passagem. Até que uma das entrevistadas conta de um casamento que ocorrera exatamente cinco décadas e meia antes, e que ficou marcado por ter sido uma cerimônia um tanto quanto atípica.
A partir desse gancho, a narrativa retrocede até o período citado, permitindo que o espectador entre em contato com a história propriamente dita. Então são apresentados os jovens Iancu (Alexandru Potocean) e Mara (Meda Victor), que estão em pelo ato sexual. Eles vivem um amor tão intenso quanto desagradável para alguns habitantes da pequena aldeia em que vivem, mas pouco se importam com essa repercussão negativa do que sentem um pelo outro. Prestes a se casar, eles nem podem esperar pela consumação do desejo, adotando um comportamento ousado para os padrões da época. Durante o tempo em que mostra os preparativos para a festa de casamento, Malaele flagra alguns costumes observados naquela década num país que, como o Brasil, tem como língua oficial uma derivação do latim.

Mas o filme fica mais interessante mesmo quando surge a ocasião da festa dos noivos apaixonados. Tudo começa na mais perfeita ordem e felicidade, até que surgem funcionários do governo para informá-los da má(?) notícia: Josef Stálin está morto. Por essa razão, foi decretado luto nacional por um período de uma semana, o que impede a realização de festas de qualquer natureza, desde casamentos a aniversários, passando por reuniões para a comemoração de qualquer conquista. Enfático, o oficial afirma que todo o aparato com que o casamento de Iancu e Mara estavam se casando precisa ser interrompido, por honra à memória daquele que era até então o chefe maior do dito mundo comunista. Surpresos com a exigência, aqueles homens e mulheres simplórios decidem acatar o que lhes foi ordenado. Porém, eles não admitem perder a chance de comemorar com muitos comes e bebes as bodas dos jovens.
Com isso, "Casamento silencioso" ganha tintas de comédia, e seu título começa finalmente a fazer sentido. Na tentativa de não desperdiçar tudo o que foi gasto para a preparação da festa, os pais dos noivos decidem manter a comemoração, mas fazendo tudo no mais absoluto silêncio, o que gera uma série de situações hilárias, justamente por seu toque de surreal. Malaele não deixa de fazer cinema político, mas não chega a se demonstrar tão engajado quanto outros diretores, como é o caso do inglês Ken Loach. Sua dosagem nessa aspecto é sutil, revelando no diretor um desejo de simplesmente mostrar consequências de um fato histórico no cotidiano de uma pequena comunidade. Fica nítido para o espectador mais atento os contornos mambembe que os personagens apresentam, como se estivessem em um espetáculo teatral. Os protagonistas, por exemplo, agem de forma pantomímica em muitas passagens, revelando uma faceta muito divertida de suas personalidades.
No geral, o filme acerta por sua maneira simples de narrar acontecimentos de ordem mundial repercutindo numa esfera menos ampla. OS desdobramentos da desobediência daqueles cidadãos não são dos mais positivos, fazendo com que a população masculina dali acabe sendo bastante reduzida, fato que traz a narrativa de volta para o presente. É quando os repórteres começam a entender o que levou a certas situações que presenciam no momento atual. "Casamento silencioso" consegue êxito na junção de elementos teatrais com certa parcela de entretenimento, sem tender exageradamente para um lado ou para o outro. E essa é uma qualidade que jamais pode ser desprezada. Os cinéfilos de certo juízo podem discordar da afirmação, mas não deveriam deixar passar a oportunidade de conferir a proposta de Horatiu Malaele.

26 de abr. de 2010

Diálogos sobre a frivolidade da vida em "O declínio do império americano"

Na década de 80, mais especificamente no ano de 1986, um diretor chamou a atenção do público e da crítica para si com "O declínio do império americano". Seu nome, Denys Arcand. Sua "arma", por assim dizer, eram os bons diálogos, travados em meio a um roteiro bem alinhavado, por personagens críveis e fascinantes em suas imperfeições. Com isso, fez grande sucesso, tanto que 17 anos depois produziu uma continuação, "As invasões bárbaras". Voltando ao primeiro filme, entretanto, contar do que ele se trata requer poucas linhas. As consequências de sua abordagem é que rendem discussões de horas.

Oito pessoas, sendo quatro homens e quatro mulheres, vão passar alguns dias em uma casa de campo para relaxar e se distrair dos problemas práticos do cotidiano. Eles se dividem de acordo com o sexo: enquanto os homens preparam o almoço e conversam sobre muitos assuntos, as mulheres ficam numa academia se exercitando, tanto física quanto verbalmente. E o filme se baseia praticamente só nessa divisão de grupos. Ao longo de pouco mais de uma hora e meia de projeção, o espectador tem contato com muito falatório, que parece não ter fim nunca. Para fãs de Eric Rohmer, que foi um amante das pelavras por excelência, essa característica intrínseca à história pode ser bastante agradável. Mas para um público um pouco menos contemplativo o resultado pode ser enfadonho. Mas Arcand está mesmo pouco preocupado em desenvolver ações. Seu cinema é muito mais prolixo que ativo.
Reunidos num cenário paradisíaco nos lagos canadenses, os amigos, e também amantes, comentam tudo e todos com uma desenvoltura impressionante. Com homens em um ambiente e mulheres em outro, o diretor acaba oferecendo um estudo contrastivo entre os objetos de análise preferidos de cada sexo, confrontando-os o tempo todo na tela. Na ala feminina estão Dominique (Dominique Michel), Louise (Dorothée Berryman), Diane, (Louise Portal) e Danielle (Geneviève Rioux). Em meio a séries de esteiras, bicicletas ergométricas e supinos, as amigas divagam sobre o comportamento dos homens, falam dos defeitos de si mesmas que mais as incomodam, e comentam sobre outros assuntos tão banais quanto interessantes. Os homens são Rémy (Rémy Girard), Pierre (Pierre Curzi), Alain (Daniel Brière) e Mario (Gabriel Arcand), todos professores universitários. Entre os os muitos temas que pautam sua longa conversa também está o sexo oposto, além de debates acalorados sobre a significância do amor para o ser humano, as transformações surgidas no contexto histórico ao longo dos séculos e o peso do passar dos anos para cada um deles.

Essencialmente, "O declínio do império americano" é um filme de diálogos. As conversas que os personagens mantêm uns com os outros é que servem de força motriz para seu desdobramento. Quem espera grandes reviravoltas na narrativa, é bom que esteja avisado: elas não acontecem. Isso porque Arcand faz uma outra caminhada, preferindo investigar os meandros das relações humanas, indo o mais fundo possível nessa procura. O canadense é bastante meticuloso, e causa a sensação de reconhecimento no outro em muitas cenas. Não é um filme com o qual se deva concordar o tempo inteiro, já que trata-se de uma espécie de debate em que o espectador adiciona suas opiniões pessoais, extraindo ou não ideias que estão previamente inseridas no contexto do longa. Seu título não foi dado em vão, já que um dos assuntos que os oito discutem é a decadência dessa superestrutura que foi a América de outrora, tomando de empréstimo um termo marxista que se encaixa muito bem aqui.
Alguns tópicos abordados por Arcand podem soar um tanto datados, afinal já se passaram 24 anos desde as filmagens do longa. Mas nada que chegue a ser um demérito, pois muitos dos fóruns propostos pelo roteiro acabam se revelando atemporais. Os homens e as mulheres, cada um com suas inseguranças, estão retratados ali, tentando negá-las, mas também reconhecendo-as. As pequenas frustrações que se vão acumulando também encontram guarida no cenário pintado por Arcand, auxiliado por uma fotografia colorida, na estética oitentista que o filme pede. Os figurinos acompanham essa tendência, sendo manifestos em roupas de ginástica meio constrangedoras para as mulheres de hoje, mas que não saltam tanto aos olhos do bom gosto no caso dos homens, que já aparentavam a sobriedade atual. Portanto, "O declínio do império americano" também é um filme belo aos olhos que o veem. É a reunião da argúcia de se comentar sobre temas pertinentes com imagens que enchem a tela, embevecendo seus contempladores.
No fundo, é o ser humano desnudado através das palavras, em conversas que, para além da simples distração, estão permeadas de reflexões interessantes sobre a fragilidade de nossas vidas e da falta de sentido que muitos acontecimentos têm sobre cada um de nós. A vida muitas vezes causa perplexidade, por seus descaminhos quase insondáveis. Existencialismo, silogismos e outras palavras-chave da filosofia aparecem sob uma capa de papo de esquina, tornando-se muito mais palatáveis, sem parecer tão inacessíveis, como querem muitos academicistas. Ali estão sonhos e ideais de uma geração, que pode não ser a minha nem a sua, mas apresenta muitos pontos em comum com desejos que se manifestam também hoje. Porque é cotidiano, porque é o que eu e você vivemos diariamente, porque é o pulsar de nossas inquietações, essa história não se destitui um só momento de relevância.

24 de abr. de 2010

A luta diária pela sobrevivência em "O silêncio de Lorna"

Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne são conhecidos por seu cinema engajado e realista, sempre voltado para dramas que se inserem em cotidianos de pessoas ordinárias, daquelas que se vê aos montes em qualquer lugar. Estão para a França como Ken Loach está para a Inglaterra. Depois de faturarem sua segunda Palma de Ouro em Cannes por "A criança", em 2005, eles voltaram so páreo com "O silêncio de Lorna", dessa vez disputando na categoria de melhor roteiro. Estrelado pela atriz Arta Dobroshi, o filme é mais uma oportunidade de se assistir ao desfile de certos elementos que já se tornaram tão característicos de sua obra.

O filme conta a história de Lorna, uma imigrante albanesa que sonha em obter cidadania belga, já que vive atualmente na Bélgica. Todavia, seu desejo não é muito fácil de se realizar, já que a burocracia torna tudo mais lento. Disposta a atingir rapidamente seu objetivo e, com isso, abrir uma lanchonete com o namorado Sokol (Alban Ukaj) e levar uma vida digna, ela concorda com um plano idealizado pelo rapaz. Lorna terá de se casar com Claudy Moreau (Jérémie Renier), um jovem viciado em drogas. Esse casamento de fachada é sugerido pelo criminoso Fabio (Fabrizio Rongione), que diz que, assim, logo ela terá sua tão sonhada cidadania belga. Mas casar Lorna com Claudy é apenas a primeira parte do plano, que inclui uma outra jogada importante. Lorna precisa ficar viúva, para que esteja livre para secasar novamente, dessa vez com um mafioso russo, que oferece muito dinheiro pela união farsesca. Para que Lorna fique viúva o quanto antes, a intenção de Fabio é assassinar Claudy, decisão que conta com a anuência da jovem.
Aquilo que parecia a solução perfeita para os problemas de todos os envolvidos, entretanto, logo se revela uma causa de novos imbróglios, já que Lorna acaba se apegando a Claudy. Mesmo tendo pouco tempo de conviver, eles logo desenvolvem uma estranha relação de dependência mútua. É nessa entrelinhas que o cinema humanista dos Dardenne ganha impulso, já que o foco dos irmãos é espiar o nascimento de uma afeição em meio a um cenário de completo caos e adversidade. Além de humanistas, os filmes da dupla de cineastas são feitos de revoluções internas aos seus personagens, que têm instantes de revelação quando se encontram imersos em ambientes de desespero. Os jovens Bruno e Sonia, de "A criança", eram confrontados com a necessidade de amadurecimento a partir do nascimento de um filho que não haviam planejado. Cada um lidou, à sua maneira, com o fato inesperado. Já em "O silêncio de Lorna", a protagonista se vê diante de sua própria ambição, a qual pode ser o motivo da ceifa de uma vida que ela aprendeu a querer bem. Seu silêncio vale a fim da existência de alguém?

Também depõe a favor do filme a atmosfera naturalista que o envolve, expressa não somente pela paisagem ao redor, e pela fotografia em cores frias e secas, mas também pelas atuações contidas de Renier e Dobroshi. A atriz, aliás, teve que passar pelo desafio de aprender francês em poucas semanas, para dar conta de interpretar a personagem principal. Nos extras do DVD do filme, Jean-Pierre e Luc elogiam o empenho dela, que se sai realmente muito bem no papel, que parece ter sido escrito especialmente para que ela o interpretasse. Nota-se bem a economia de seus gestos ao longo de toda a projeção, num equilíbrio que se vai rompendo paulatinamente, até resultar num tipo de pânico lá para perto do final do filme. O simples olhar da atriz já transmite toda a intensidade dramática da vicissitude pela qual a personagem está passando.
Renier, por sua vez, repete a perceria com os irmãos Dardenne, depois de ter vivido o jovem Bruno de "A criança". Novamente é uma escolha acertada da dupla, já que o ator imprime vitalidade a cada cena na qual aparece, e é lamentável que ele esteja por tão pouco tempo no filme. Se no longa anterior seu personagem era o retrato do abandono e da imaturidade, aqui seu Claudy não é menos desamparado e digno de compaixão, pelas atitudes impensadas que toma. O curto tempo em cena de Renier acaba sendo suficiente para que ele exercite seu talento para tipos deslocados, e seu fim trágico serve de alerta para muitos que enveredam pelo mesmo caminho que ele. E Jean-Pierre e Luc demonstram essa certeza não de forma moralista, mas de um modo seco e direto. "O silêncio de Lorna" não abre concessões para melodramas, mas sim para uma narrativa densa, que se aprofunda naquilo que se passa internamente com cada personagem. Cada um está precupado consigo mesmo, tentando sobreviver num mundo cão, que dá poucas chances de escolha a muitos, ainda que sempra haja escolha.
É um filme que se presta a elocubrações de ordem sociológica, levantando a questão polêmica de que o homem pode ou não ser fruto do meio em que está inserido. Quando seus interesses estão em jogo, é relevante poupar a vida de quem está por perto? Longe de fazer julgamentos, os cineastas não se preocupam em afirmar ou negar a tese, mas sim em espiar dramas humanos que aparecem todos os dias nas páginas dos jornais. São personagens de uma realidade que a maioria insiste em refutar, mas que compõem o traçado social da população do mundo. Com os Dardenne, os marginalizados têm vez, e podem se reconhecer em muitas cenas. Em seus descaminhos, Lorna, Claudy, Fabio e Sokol possuem muito mais de nós do que podemos imaginar.

23 de abr. de 2010

"Rebobine, por favor": um mergulho na alma do cinema

Os filmes de Michel Gondry definitivamente não têm um compromisso fiel com a realidade a que estamos acostumados. Longe de parecer convencional, sua obra se apoia em viagens delirantes protagonizadas por personagens que cativam ao primeiro olhar. Depois do celebrado "Brilho eterno de uma mente sem lembranças", ele filmou "Sonhando acordado", mas quase ninguém viu, principalmente os cariocas, já que o filme simplesmente não foi exibido no circuito comercial do Rio de Janeiro. Seu trabalho seguinte foi "Rebobine, por favor", até agora seu filme mais recente. Mas que também demorou uma eternidade para ganhar um espaço nos cinemas, fato que não encontra explicação plausível, principalmente depois que o espectador entra em contato com essa deliciosa história.

Desde o começo, fica claro que trata-se de uma fábula cômica sobre a arte de se fazer cinema, um tema que sempre rende ótimas produções, de gêneros, diretores e nacionalidades diversas. E essa fábula tem como protagonistas dois amigos muito atrapalhados: Jerry (Jack Black) e Mike(Mos Def). O segundo trabalha numa locadora de VHS, algo que já é bastante retrógrado para esses tempos de download ao alcance de todos. Até aí, porém, não há grande surpresa. O patrão de Mike é Elroy Fletcher (Danny Glover), um simpático senhor que lhe confia a missão de tomar conta de seu negócio enquanto tem de fazer uma viagem. Ciente de que tem uma importante responsabilidade nas mãos, Mike se promete não decepcionar o chefe. Mas com um amigo tresloucado como Jerry por perto, a missão se torna quase impossível. E o problema começa exatamente por conta de uma das atitudes destrambelhadas de Jerry.
Sem querer, ele passa por um processo de magnetização ao tentar invadir uma usina de energia elétrica, numa sequência hilária, em que Jack Black se utiliza de suas caras e bocas para provocar o riso. Depois disso, ele vai até a locadora onde Mike trabalha, e causa um grande problema para o amigo. Ele desmagnetiza todos os vídeos do acervo do lugar, devido à carga de energia do seu corpo. Diante da situação, os dois pensam numa alternativa no mínimo inusitada: refilmar cada produção ali presente, de modo que nenhum cliente perceba a mudança nos filmes. A partir dessa decisão tomada pelos dois é que o filme, que já vinha se mostrando divertido, dá uma grande guinada, para funcionar como uma homenagem muito original ao cinema. Logo, Jerry e Mike estarão refilmando clássicos de diferentes épocas, como "Conduzindo Miss Daisy", "Robocop", "Os caça-fantasmas", "King Kong" e alguns outros. À época do lançamento do filme, Gondry disse que elegeu muitas referências óbvias para que todos pudessem compartilhar dessa grande brincadeira por ele proposta. Essa estratégie funciona muito bem, pois fica quase impossível para o público não embarcar em seu saudável delírio. Para explicar aos clientes o motivo de os filmes estarem um pouco diferentes, os dois amigos dizem que as fitas foram "suecadas", ou seja, passaram por um tratamento de imagem e som na Suécia. É ou não uma saída extremamente corajosa e inventiva?

Mas essa "grande ideia" da dupla não vai muito longe, já que a farsa criada por eles não engana por muito tempo a população local. A única que não percebe que os filmes estão completamente alterados é Miss Falewicz, uma senhora cinéfila que simplesmente ama cada fita que aluga nessa locadora um tanto "diferente". O papel coube a Mia Farrow, há muito tempo longe de uma boa personagem, e que aqui faz aquilo que sabe melhor: encarnar uma pessao bondosa e que acredita plenamente na honestidade alheia. Ela logo ganha a simpatia do público, que sabe o tempo todo que ela está sendo enganada. A essa altura, Jerry e Mike já ganharam a ajuda de Alma, uma das primeiras a descobrir a loucura criada por eles. E enquanto o senhor Elroy não retorna, eles vão tentando contornar a confusão em que se colocaram. A situação, contudo, foge do controle dos amigos quando entra em cena uma representante da indústria cinematográfica, que exige o respeito aos direitos autorais. Ela é a senhorita Lawson, que surge interpretada por uma Sigourney Weaver bastante segura. Fica claro desde sua primeira aparição que ela está ali representando os grandes estúdios, muito mais interessandosem lucros a curto praz, sem qualquer preocupação com talento e conteúdo nos filmes, mas sim com o uso de fórmulas já atestadas como vendáveis, para acumular mais e mais divisas.
No fundo, essa é a grande qualidade de "Rebobine, por favor": contrapor o lado mambembe das produções modestas, que pouco espaço têm no circuito, com os arrasa quarteirões vindos de Hollywood, que tomam de assalto as salas de exibição e atraem multidões de espectadores ávidos de efeitos visuais grandiloquentes e ação ininterrupta, como carros explodindo, mocinhos invencíveis que dão o sangue para vencer vilões pavorosos. A esolha é sempre do público, que majoritariamente prefere a segunda opção, deixando sufocados os amantes de histórias simples e bem contadas, não por industriais, mas por artesãos da palavra e da imagem. Essa espécie está cada vez mais ameaçada de extinção, e com ela, seus entusiastas, que sabem apreciar joias que falam mais ao coração que ao bolso. Gondry parece já ter escolhido o seu lado há muito tempo, enquadrando-se perfeitamente na segunda categoria.

21 de abr. de 2010

"Adeus, Lênin" ou o lado cômico de um fato histórico

A derrocada do socialismo serve mais uma vez de matéria-prima para um filme. E esse filme se chama "Adeus, Lênin", dirigido pelo competente Wolfgang Becker. Ele traz para as telas uma produção que reúne várias boas características, fazendo com que assistir a ela seja aproveitar muito bem pouco mais de uma hora e meia do dia. O grande achado do enredo é abordar um tema considerado espinhoso com uma linguagem acessível e até divertida, o que não deixa o filme cansativo ou cercado de hermetismos. Protagonizada por Daniel Brühl, que dá vida a Alex, a trama conta a história de um jovem que acompanha o tratamento médico dispensado à sua mãe, que sofreu há pouco tempo um ataque cardíaco.

A razão do fato é que ela viu o filho participando de uma manifestação contra esss sistema, o que a desagradou profundamente, já que ela é uma entusiasta de tal regime. O problema de Alex, entretanto, só surge depois que sua mãe entra em coma. Enquanto ela permanece em estado quase vegetativo, o mundo ao redor sofre grandes transformações. A principal delas é a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989. Essa queda representa o fim do socialismo, e o começo de uma nova forma de vida na Alemanha, que volta a ser uma só. Quando sua Frau Schäfer desperta do sono profundo, já se tem uma nova realidade operando. E Alex teme pela reação que tamanha novidade possa causar nela, já que sabe que ela é uma pessoa extremamente conservadora. Some-se a isso sua condição de recém-operada, que lhe impede de sofrer grandes baques.
Para contornar a situação delicada, Alex pensa numa solução drástica: fazer com que sua mãe continue acreditando que tudo está exatamente igual a antes de seu ataque cardíaco, para que ela se mantenha sempre tranquila em relação a tudo. Mas essa não é uma tarefa nada fácil, já que obriga o jovem a ficar atento a qualquer detalhe ao seu redor, que pode denunciar a falência do socialismo. Até mesmo com os novos produtos que são incorporados ao cotidiano da família o cuidado deve ser redobrado. Por isso, Alex muda as embalagens de alimentos industrializados, que denunciariam imediatamente o surgimento de uma nova Alemanha. E, assim, vai vivendo na corda bamba, em parte também por seu peso na consciência, já que se sente responsável pelo infarto da mãe.

Como se vê, "Adeus, Lênin!" leva a uma reflexão divertida sobre um dos episódios mais marcantes da História recente, que gera sempre um filme, principalmente dramas densos e pirotécnicos. Mas esse não é o caso do filme, rodado numa Alemanha iluminadam simbolizando o surgimento de novos tempos, que trazem uma modernidade e uma calma que antes não era comum a todo o país. O humor de Becker não cai na vulgaridade, o que é qualidade de seu roteiro muito bem escrito, em parceria com Bernd Lichtenberg, que valoriza pequenas sequências, transformando-as em válvulas para o riso. Um riso não descompromissado, mas sim apoiado em situações algo bizarras em sua verossimilhança. Daniel Brühl ganhou muitos elogios por sua atuação no longa, sendo até hoje bastante lembrado por ela. A cada novo filme que lança, a primeira referência de trabalho anterior que vem é essa. De fato, ele dá a seu Alex uma grande humanidade, mostrando-o como um filho que, acima de tudo, quer o melhor para sua mãe, sendo capaz de sacrificar suas convicções políticas diante dela, se isso for importante para sua saúde.
O longa é recheado de diálogos pontuais sobre questões de ordem prática que advêm da implementação de um novo regime. Agora todos podem comer num fast food, podem comprar roupas de marcas reconhecidamente estadunidenses, já que tudo que vem de outras nações tem liberdade para circular de novo em território alemão. É interessante identificar a crítica social embutida no filme, que usa muitas vezes o humor como arma. Isso faz com a proposta feita por Wolfgang Becker ganhe densidade, já que não fica apenas na sucessão de acontecimentos engraçados ou de tiradas cômicas para reproduzir com os amigos. Ao mesmo tempo, o diretor não se esforça para fazer cinema político, o que é um escolha absolutamente legítima, já que o resultado não é uma produção panfletária, mas sim uma possibilidade de abertura para o debate de uma questão atual, que merece ser sempre revista sob novos ângulos. Grandes filmes têm essa característica dentro de si, entre tantas outras que poderiam aqui ser citadas e comentadas.
Em relação à fotografia, um dado interessante é que a palheta de cores remete quase imediatamente ao universo almodovariano, já que os tons fortes predominam nas cenas. Esse detalhe torna o filme descontraído, a despeito de certas passagens dramáticas que lhe atravessam. E também lhe conferem beleza, já que enchem os olhos com suas nuances bem demarcadas e atraentes. Resumindo, "Adeus, Lênin!" é um filme que convoca toda a família a pensar sobre vários assuntos ao mesmo tempo, sentados no sofá com um balde de pipoca, acompanhando os passos de uma transformação que se processa gradualmente nas vidas de seus personagens. Às belas imagens, Becker adicionou uma história bem contada, que preenche vazios narrativos e reforça a qualidade do cinema alemão atual.

"Melinda e Melinda" e os mil ângulos de observação da vida

Qual gênero melhor representa a vida: a comédia ou a tragédia? Partindo dessa pergunta inquietante, Woody Allen nos apresenta "Melinda e Melinda", seu 35º longa-metragem, pertencente a uma filmografia que já atravessou quatro décadas. Ao contrário do que muitos gostam de propalar, sua produção não está em decadência. Cada novo filme apresentado por ele traz uma nova chance de se observar a vida, e tentar traduzi-la sob uma nova ótica. Ainda que pareça mais do mesmo, e que o diretor introduza sempre certos elementos, há que se prestar mais atenção para se descobrir um prisma diferente em seus filmes. Até porque ninguém consegue continuar rigorosamente igual depois de 44 anos fazendo cinema. E, desde "O que há, tigresa" (1966) até hoje, muita coisa mudou no mundo e em sua própria vida.

A discussão que abre "Melinda e Melinda" se dá em uma cafeteria, e é protagonizada por dois autores teatrais que são muito amigos. Cada um deles defende que a vida é melhor simbolizada por um gênero. Um elege a tragédia, enquanto o outro prefere pensar que é a comédia a tradução perfeita do sentido da vida. No fundo, trata-se de uma questão de gosto pessoal dos dois, mas a máxima "Gosto não se discute" é desonsiderada por ambos. Para ilustrar suas teses, eles se utilizam de uma mesma figura, a misteriosa Melinda (Radha Mitchell), que serve de fio condutor para uma narrativa que se bifurca. Enquanto os amigos vão discutindo, o espectador começa a acompanhar duas tramas protagonizadas pela mesma Melinda, uma cômica e outra trágica. O tempo todo elas vão se alternando na tela, exigindo que o público se mantenha atento, para não perder o foco em nenhuma das duas narrativas. Ambas começam em um jantar de amigos, mas os desdobramentos que surgem a partir dessa ocasião vão diferenciando uma história da outra.

Enquanto na trama cômica Melinda aparece no jantar bêbada e dizendo muitas besteiras, na versão trágica ela está afundada em problemas e não consegue esboçar um sorriso. As diferenças entre cada faceta da vida da personagem idealizada pelos dois amigos ora são bem marcadas, ora são mais sutis. O discurso dos autores, que embasa todo o filme, acaba se aproximando em muitas partes, o que, de alguma maneira, evidencia que ambos os gêneros não são tão estanques assim, podendo se interpenetrar a qualquer momento. Para diferençar uma história da outra, Allen recorre a um recurso um pouco clichê na caracterização da personagem: seu penteado. A Melinda cômica tem fios lisos e muito bem arrumados, ao passo que a Melinda trágica aparece em cena sempre desgrenhada. É um senão do filme que acaba tendo um bom efeito prático. O uso dessa estratégia pantomímica permite que se identifique de qual trama se trata so simples surgimento da personagem. Tal como no teatro grego, a aparência dos atores já denuncia muito do caráter e do estado de espírito das personagens que estão representando, antes mesmo que falem qualquer frase.

Na verdade, a discussão proposta por Woody Allen em "Melinda e Melinda" não é uma novidade. Desde a Grécia Antiga a busca por estabelecer as diferenças entre a comédia e a tragédia está presente entre os homens. Aristóteles dedica páginas e páginas de sua "Poética" ao estabelecimento de características próprias de cada gênero, encarando-os como antagônicos. Por extensão, procura eleger um deles como o mais representativo da vida humana, atribuindo à tragédia a excelência. Na obra do próprio Allen essa questão aparece frequentemente, sendo possível separar sua produção em dois grandes grupos: de um lado estão os dramas mais existencialistas, que tentam investigar o ser humano de uma perspectiva mais séria, e do outro estão as comédias que, longe de se mostrarem escrachadas, trazem o homem rindo de si mesmo.
Como não poderia deixar de ser, os diálogos escritos por Allen estão mais uma vez afiados em "Melinda e Melinda", revelando opiniões divergentes de cada personagem sobre a vida e sua quase completa falta de sentido. O charme de Nova York também está mais uma vez presente, o que torna o filme reconhecível de longe como sendo de quem é. Isso, aliás, desde sua abertura. Outra grande qualidade do filme é sua direção de atores. O elenco está muito bem em cena sob a batuta de Allen, tendo sido muito bem escolhido pelo diretor. A começar por Radha Mitchell, que conduz o enredo, cada um se sai muito bem em seu papel. Um destaque especial é Chlöe Sevigny, que irradia beleza e competência na pele de Laurel, personagem do lado dramático do longa, que enfrente problemas em seu relacionamento. E vale lembrar que, na ausência de Allen como ator, alguém ocupa o posto de alter ego do cineasta. Aqui, o papel foi confiado a Will Ferrell, que incorpora alguns de seus cacoetes.
A conclusão a que se chega perto do final de "Melinda e Melinda" é a de que tanto a comédia como a tragédia representam muito bem a vida. Durante nossas existências, elas se revezam o tempo todo, mostrando-se num encontro casual de antigos amigos que relembram bobagens, e também quando estamos vivendo uma série de desventuras. O que ocorre é que, no segundo caso, só conseguimos enxergar a comicidade depois que passamos pelas situações que parecem trágicas. É comum que se diga em meio a um acontecimento desesperador: "Ainda vamos rir disso tudo". Isso é um indicador de que um mesmo fato pode ser enxergado sob uma perspectiva triste e, tempos depois, de um ângulo alegre. A vida não é estanque, o quente também pode ser frio, e o amargo também pode se revelar doce se provado mais uma vez, ou com um pouco mais de boa vontade. Dito em outras palavras, um mesmo acontecimento pode ser encarado como uma tragédia de tintas cômicas ou como uma comédia de nuances trágicas.

19 de abr. de 2010

A espionagem da essência juvenil de "Elefante"

Muitos diretores, ao longo de suas carreiras, desenvolvem afeição por temas específicos, e acabam por construir suas filmografias praticamente baseadas apenas em determinado assunto. Essa escolha não representa necessariamente um defeito, mas requer talento redobrado para se evitar a repetição. Quando consegue suplantar o mais do mesmo, um diretor se torna consagrado. E vai para uma galeria que já inclui Federico Fellini, com sua visão do vazio da vida, Ingmar Bergman, com sua busca por flagrar o abismo que mora entre os homens, Woody Allen, com sua paixão pelo universo do artista, e outros poucos e bons. Decerto Gus Van Sant merece figurar nesse "clube", já que vem demonstrando, filme após filme, uma grande capacidade de lançar novos olhares acerca do seu tema favorito: a juventude.

"Elefante", dirigido por ele em 2003, confirma perfeitamente essa máxima. O longa é um belo ensaio sobre os colapsos da adolescência retratado ao mesmo tempo com crueza e intimidade. Van Sant mostra que entende de quem está falando. Como se trata de um de seus trabalhos mais famosos, a sinopse já é conhecida por muitos. Trata-se de 24 horas na vida de dois amigos de escola, que dividem seu descontentamento com o mundo e as pessoas ao seu redor. Eles se consideram grandes injustiçados pelo destino, que lhes reservou uma rotina detestável, e colegas de turma que só lhe fazem mal. Por meio dessa simples ideia, o cineasta começa seu filme, no melhor estilo "câmera na mão". Suas lentes procuram captar o íntimo dos personagens, tão próximos do real que o rótulo de personagens parece quase incabível.
Aliado a uma filmagem que está pouco preocupada com o cenário, mas sim atenta ao estado de espírito de seus objetos de estudo, por assim dizer, Van Sant oferece vários pontos de vista para um mesmo acontecimento. Em determinado momento, dois jovens caminham pelos corredores da escola enquanto conversam, e são abordados por um outro amigo em comum, que vem na direção oposta. É uma sequência simples, sem grandes sobressaltos, mas que ganha força pela apresentação, alguns minutos depois, de um novo ângulo. Essa quase repetição permite ao espectador detectar outros aspectos dos diálogos e do estado dos personagens, que podem ter escapado na primeira observação. Tal caracterítica também faz com que tudo o que se vê na tela seja relativizado. A perspectiva de Van Sant nunca é tandenciosa, já que ele se preocupa em desvendar vários lados de uma mesma moeda. Com isso, levanta a questão: quem está certo quando o olhar é sobre um mesmo objeto? Tudo é uma questão de ponto de vista, de vivências particulares e de gostos pessoais.

Para rodar o filme, o cineasta abriu mão de nomes conhecidos, preferindo contar com muitos não-atores, o que confere ainda mais veracidade às sequências vistas. Sabe-se de antemão que os eventos apresentados desencadearão um massacre naquele lugar, o estado do Oregon, no interior dos Estados Unidos. A barbaridade foi impetrada por jovens que se sentiam ridicularizados por seus companheiros de classe, o que alerta para o problema do bullying, uma prática comum a muitos adolescentes em várias partes do mundo. Nesse ponto o cinema de Van Sant também contribui para estender uma discussão para além das fronteiras de seu país. Seus personagens geram forte identificação, porquanto não estão circunscritos a um ambiente específico, ou a uma realidade financeira e de conhecimento restrita. E o mais importante de tudo é que Van Sant consegue construir seu convite ao debate sem soar panfletário, trazendo a consciência de que determinismos e generalizações não representam nenhuma ajuda para entender e procurar possíveis soluções para a inquietude que paira sobre os jovens dos dias atuais. Esse é o grande tema de "Elefante", que se revela através do retrato de uma realidade angustiante, que aturde pela urgência com que pede transformação.
Van Sant está longe de ser manipulador, porque não condena nem passa a mão sobre a cabeça daqueles de quem se ocupa. Interessa muito mais à sua câmera e, por extensão, a ele, espiar, investigar e deduzir possibilidades para o tédio que tomou conta das relações juvenis, e que também é um pouco de todos nós. Com sua maneira de acompanhar o cotidiano de pessoas tão próximas do real, ele abre margem para discussões existencialistas, que muitos adoram enxergar em seus filmes. Seja como for, acima de qualquer coisa o diretor fala de nossas agonias, da grande dificuldade que é existir e se entender. E o caminho escolhido por ele para essa questão é o da imagem, que quase sempre tem mais eficácia de comunicação que longos diálogos. Na falta de palavras, se apoia em silêncios e pequenos gestos, e a escolha pela contemplação tem sempre uma força descomunal.