16 de abr. de 2010

"A partida", um belo conto sobre o medo da morte

O cinema japonês deu o ar de sua graça na festa do Oscar em 2009 em grande estilo. Depois de concorrer ao maior prêmio da área, "A partida" saiu vitorioso, levando a estatueta para sua casa do outro lado do mundo. Importante é salientar que a vitória foi bastante justa, já que o filme tem muitos méritos que justifiquem sua apreciação. O cerne da trama é a história de vida de Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki), um jovem que demonstra ser bastante calmo e sereno em relação à própria vida. No começo do filme, ele faz parte de uma simpática orquestra na qual atua como violoncelista. Aquele é o ofício sobre o qual ele tem certeza de que é o que tem talento para fazer.

Mas logo surge um revés, que será o elemento catalisador das transformações que sucederão ao personagem, tirando-o de sua zona de conforto. A orquestra da qual ele faz parte é dissolvida, devido a questões de ordem financeira. Isso o obriga à partida do título em português, já que ele decide retornar à sua cidade natal junto com a esposa Mika (Ryoko Hirosue). A volta ao lugar onde nasceu é também uma volta para o interior dele mesmo, já que a cidade na qual se cresce é sempre um reservatório de recordações, boas e ruins. Assim também o é para Daigo, que reencontra a família, mais especificamente seus pais, com quem sempre teve uma relação boa, mas um tanto diplomática. Esse retorno forçado leva Daigo a rever suas próprias expectativas, e a lidar com alguns de seus fantasmas.
Uma vez de volta à sua cidade, ele precisa encontrar um novo trabalho, e é quando o jovem finalmente encontra uma ocupação que o filme dá uma guinada importante. Ele chega a um pequeno estabelecimento através de um anúncio no jornal, que informa haver uma vaga para uma ocupação que não exige qualquer experiência, além de pagar muito bem ao funcionário. Interessado nessa combinação perfeita, Daigo encontra o local, e uma simpática atendente lhe explica com vaguidão do que se trata o emprego. Ela diz que ali eles ajudam as pessoas a fazer boas viagens. Com isso, Daigo pensa que irá trabalhar em uma agência de turismo, e se espanta com a dispensabilidade de seu currículo e de uma entrevista formal com o dono do negócio. É essa a ideia que ele passa para a esposa, que até gosta de saber do novo trabalho do marido.

Mas ele acaba descobrindo que não é exatamente viagem em seu sentido corriqueiro que a firma oferece aos seus clientes. Daigo se dá conta de que está trabalhando em uma espécie de escritório funerário, e terá de atuar como preparador de corpos. Cabe ao jovem ajudar seu patrão a arrumar cadáveres antes que eles sejam enterrados, para que tenham um velório digno e sejam transportados para uma outra vida com toda a dignidade. Esse novo trabalho acaba fazendo com que, aos poucos, sua relação com a morte seja modificada. Porém, não é nada fácil para Daigo assimilar logo a sua função. Sua primeira experiência é simplesmente desastrosa, já que ele não demonstra ter estômago para lidar com aquela situação tão surreal para a maioria como se fosse um ato comum. E acaba quase vomitando. Essa atitude quase põe seu emprego a perder, mas ele pede uma segunda chance, pois o salário que recebe por isso é alto, e dali dependerá seu sustento.
Enquanto isso, sua esposa nem faz ideia de que o marido está lidando com mortos. Quando o fato vem ao seu conhecimento, entretanto, sua reação é a pior possível, já que a atividade desempenhada por Daigo é cercada de todos os tipos de preconceitos. Mika exige que ele abandone o trabalho, se quiser continuar casado com ela. Daigo prometa atender seu pedido, mas recua diante da afeição que já adquiriu por seu chefe. De fato, o personagem é muito carismático, e demonstra muita sabedoria e resignação diante dos fatos da vida. Na verdade, é uma característica quase unânime do povo oriental. Além disso, com o passar do tempo em seu trabalho, Daigo percebe que encontrou naquilo que está fazendo sua verdadeira vocação, já que se torna um exímio preparador de corpos, surpreendendo inclusive seu patrão. Até se esquece do quanto amava tocar seu violoncelo. Diante de sua recusa em deixar o emprego, Mika decide sair de casa, abalando, assim, casamento dos dois. Daigo não sei deixa abater pela visão condenatória das pessoas à sua volta, o que evidencia que seu novo trabalho lhe deu mais coragem para encarar a vida.
Partindo desse argumento um tanto quanto dolorido, Yojiro Takita dirige um filme belo e delicado, de cores frias que traduzem um estado de espírito de contemplação e introspecção. É o modo contido, quase legendário, que tipifica muito bem japoneses e outros povos naturais do Oriente. "A partida" não é feito de sobressaltos, e exige de seu espectador uma certa calma, já que seus 144 minutos de duração transcorrem com a fluidez de um pequeno rio. Não significa que seja tedioso, apenas que passa com uma dose de vagarosidade que se encaixa perfeitamente em seu enredo. É um filme feito para mentes que se permitem inclinar para o aprendizado, já que, de certa forma, pode ajudar a rever a relação do público com a morte. O único senão fica por conta de parte da trajetória do protagonista. Colocar um homem diante de uma situação nova, com a qual ele não sabe lidar inicialmente, e depois torná-lo o melhor naquilo, é um pouco clichê. Mas nada que comprometa seriamente a estrutura e o acabamento de uma história pulsante, que sobrevive na memória muito tempo depois da subida de seus créditos.

15 de abr. de 2010

O óbvio ultrapassado pelo bizarro em "Embriagado de amor"

As comédias com inteligência e algo mais a dizer ganharam um grande reforço com o lançamento de "Embriagado de amor". O filme não é simplesmente uma coleção de situações inusitadas que vão sucedendo uma após a outra, mas sim um ótimo exercício de estilo de Paul Thomas Anderson. O jovem diretor, que tinha apenas 32 anos quando dirigiu o filme, em 2002, já havia encantado o mundo com sua estreia no celuloide, que acontecera com curtas-metragens, mas que deslanchou mesmo a partir de 1997, com "Boogie nights - Prazer sem limites". Ali, ele expunha o nascimento da indústria pornográfica por meio da história fictícia de um jovem que conhecia a glória e a desgraça de se viver do próprio corpo. Dois anos mais tarde, ele filmou "Magnólia", mais um trabalho celebrado de sua curta, mas vitoriosa carreira, em que engendrou m mosaico de histórias por vezes um tanto quanto confusas, mas cuja maneira de se entrelaçar encantava o plateia. Não tardou para que seu estilo fosse comparado ao de Robert Altman, que se tornou um especialista em filmes-painel.

Mas o que se vê em "Embrigado de amor" é um pouco diferentes desse paralelismo de histórias. Anderson decidiu focar quase o tempo todo em um único personagem, o frágil Barry Egan. O papel foi confiado a Adam Sandler, que se revela surpreendente ao longo do filme, o que tranquiliza a qualquer um que pudesse pensar que fosse mais um daqueles escandalosos erros de escalação, que, de fato, existem aos montes na história do cinema. Sandler se mostra muito mais contido que o habitual, acertando ao apostar numa economia gestual, que confere ao seu personagem uma certa vulnerabilidade bastante plausível. Barry Egan foi criado junto com sete irmãs, o que o fez assumir involuntariamente o posto de protetor de todas. Mas elas são muito menos dóceis do que possam parecer, e acabaram por exercer suas personalidades dominadoras sobre Barry. Isso, porém, não impediu que ele se tranformasse num sonhador, à sua maneira.
Aos poucos, dados curiosos sobre Barry começam a aparecer: ele tem um desejo bizarro de acumular milhagens aéreas, o que o leva a colecionar freneticamente os cupons de uma marca famosa de sobremesas. Com isso, chega a estocar quantidades impressionantes do produto, para ter o quanto antes o número de milhas tão desejadas. Apenas essa simples informação já denuncia o nível de carência emocional de um homem atravessado pela solidão. Barry tem pouquíssimos amigos, somado a uma grande dificuldade em cultivar suas amizades. Dean Trumbell (Philip Seymour Hoffman) é um desse poucos amigos que ainda mantém proximidade com ele. A rotina insossa de Barry só parece mudar depois de que ele conhece Lena Leonard (Emily Watson, tão rara quanto ótima nas telas). Ela surge em sua vida marcada por abusos desde a infância, os quais o deixaram resistente a paixões. A maneira abrupta com que Lena invade a vida de Barry é um dos elementos pitorescos do roteiro, também a cargo de Thomas Anderson. Aliás, todos os filmes que ele dirigiu até hoje também foram roteirizados por ele.

Na articulação do encontro quase casual entre Barry e Lena, o diretor se filia a uma estirpe de realizadores que se voltam para analisar a vida sobre o prisma do innusitado. Por sua essência, "Embriagado de amor" se assemelha aos longas de Wes Anderson, como "Os excêntricos Tenembaums" e "A vida marinha com Steve Zissou". Talvez não por acaso, os dois são xarás de sobrenome. Ambos gostam de brincar com a falta de sentido para a maioria dos fatos da vida, que nos coloca sempre em contato com situações que nos parecem ilógicas. Assim como eles, os irmãos Ethan e Joel Coen, na maioria de suas produções, gostam de espiar o aspecto surreal de nossas existências, brindando o público com um humor muitas vezes fora dos padrões esperados para uma comédia. "Queime depois de ler", dirigido recentemente pela dupla, é um bom exemplo desse tipo de humor. Por falar em comédia, ela não é exatamente o gênero no qual "Embriagado de amor" melhor se encaixa. O filme, na verdade, foge a rótulos. Minimamente, pode ser lido como um drama de tintas cômicas, mas caminha para além disso. O roteiro, com algumas falas muito bem pontuadas, contribui para despertar essa concepção da obra.
Interessante também é perceber que nem tudo o que se observa na tela necessariamente tem um significado. Nem uma significado exato, nem uma possibilidade de sentido. O filme é polissêmico, e essa riqueza de sentidos é que o torna uma opção inteligente e longe da descartabilidade da maioria de seus contemporâneos. Por outro lado, há um fio condutor atraente para a narrativa, que se desdobra em fatos até engraçados. Uma vez tendo entrado na vida de Barry, Lena fará com que ele empreenda uma viagem até o Havaí, e ainda enfrente um time de mafiosos de dar medo. Esse é o grande valor do encontro dos dois. Lena faz de Barry um homem mais seguro de si, forçando-o a lidar com seus fantasmas interiores. É mais ou menos como faz a descoberta do amor para aqueles que se cobrem de reservas e imagens pré-concebidas. O trabalho de Anderson em cima desse conceitos tão universais é minucioso e, simultaneamente, conciso, por mais que a junção desas duas características soe como um oxímoro. Os diálogos saborosos, temperados por uma trilha sonora da melhor qualidade, são a cereja do bolo que o cineasta nos preparou, por assim dizer.
"Embriagado de amor" carrega consigo uma aura cult, que é fruto, em grande parte, das mãos hábeis de Anderson, tanto na escrita de um roteiro tão bom, sobre um argumento tão interessante, quanto no manuseio de uma câmera que perscruta ângulos nada óbvios da paisagem e dos personagens. Cannes observou bem esse detalhe importante, pois premiou o filme na categoria de melhor direção. Já nos primeiros minutos de projeção, sem aviso prévio, a narrativa se adensa, colocando o espectador num horizonte de expectativas muito amplo. Quem começa a ver o filme acreditando que se trata de mais uma alternativa de riso, entre outras tantas, não tarde irá se surpreender com o que suecede diante dos seus olhos. E, certamente, acompanhará em sua jornada um doce brilho no olhar que não se apagará tão cedo, mesmo depois do fim da sessão.

14 de abr. de 2010

Verdade e ficção embaralhadas em "Jogo de cena"

Um dos maiores achados do cinema nacional recente é, sem sombra de dúvida, "Jogo de cena". Concebido como um documentário, o filme de Eduardo Coutinho é daquelas obras que a crítica tem dificuldade de encaixar em rótulos. Afinal, nunca se sabe ao certo se aquilo a que se está assistindo é realidade ou se se trata de uma ficcionalização do real. É sobre essa temática tão complexa quanto estimulante que se debruça o longa, que marca um passo importante rumo à excelência na procução audiovisual do Brasil.

Nada do que se vê acontecendo em "Jogo de cena" é tão simples como aparenta. Inicialmente, um espectador mais incauto pode acreditar que são apresentadas apenas conversas sobre assuntos corriqueiros, como acontece e, tantos outros documentários. Mas o filme (?) é muito mais do que isso. Para começar, há apenas mulheres em cena, resultado de um garimpo feito pelo diretor ao longo de algumas semanas. Ele colocou um anúncio no jornal convidando mulheres de todas as idades para contar suas histórias de vida, ou algum episódio específico que as tenha marcado. Essa espécie de entrevista quase sem a intervenção de um interlocutor seria filmada por Coutinho no teatro Glauce Rocha, no centro do Rio de Janeiro. Foram aproximadamente 83 mulheres ouvidas durante meses, as quais tocaram nos assuntos mais diversos.
Elas falaram abertamente sobre escolhas, arrependimentos, atitudes que tomaram em momentos de raiva, relacionamentos amorosos e com pais e filhos, sempre com muita coragem e franqueza. Coutinho disse à época do lançamento do filme que tinha certeza de que ele havia dado certo por causa da presença feminina no "elenco". Segundo ele, os homens não teriam a mesma intrepidez para contar com riqueza de detalhes daquilo de que mais se recordam, ou daquilo que mais os aflige. Esse desprendimento para contar a própria história tipifica as mulheres. "Jogo de cena", no entanto, não se resume a uma colagem de depoimentos mostrados uns após os outros. Existe um detalhe absolutamente crucial, que faz do filme uma obra singular.

Aliada à espontaneidade das mulheres comuns, que aceitaram abrir suas vidas sem reservas, há a presença de atrizes de talento, como Andréa Beltrão e Marília Pêra. Elas foram escolhidas a dedo pelo diretor a fim de que desempenhasseum uma função importantíssima para o longa. Cada uma poderia escolher uma das histórias de vida das mulheres que foram entrevistadas, de modo que as recontassem como se fossem elas mesmas a viver aquilo tudo. Somado a isso, Coutinho pediu gentilmente que elas pudessem contar algo que jamais haviam dito na mídia antes, que revelariam no filme. O poonto-chave desse pedido é que essas histórias da vida pessoal das atrizes são contadas em meio àquilo que seria a representação delas da vida das mulheres que elas decidiram interpretar. E é esse detalhe que causa o embaralhamento entre realidade e ficção que caracteriza o filme.
Valendo-se desse recurso engenhoso, Coutinho exige de seu público uma atenção redobrada: afinal, aquilo a que se está assistindo é uma mulher comum falando de sua própria vida, uma atriz fazendo uma representação ou uma mulher simples que está dando ares de ficção ao seu discurso. Essas são apenas três das possibilidades que se levantam na mente do espectador à medida em que o filme prossegue, deixando sempre no ar a incerteza sobre a veracidade, ou mesmo a falsidade, do que se lhe apresenta diante dos olhos. A tese de que todos representamos na vida, emm alguma instância, ganha reforço com a proposta de Coutinho. Assim fica a questão instigante de que há um pouco de ator em cada um de nós, e mesmo nas falas menos elaboradas podemos imprimir uma dose de ficção. Tudo depende de para onde nosso olhar e nossa intenção estão voltados no momento.
Interessante também é acompanhar a reação de Andréa e Marília ao narrar das histórias que escolheram. Além delas, Coutinho também convidou Fernanda Torres e Mary Sheila para falar de si e falar como se fosse outras mulheres. Elas estão espalhadas ao longo do filme, o que contribui para dificultar ainda mais a compreensão daquilo que é fato e daquilo que é ficção. Essa é a grande sacada de "Jogo de cena", que faz do filme um material excelente para se observar o comportamento humano diante da contação de uma história. Há sempre um toque de ficção naquilo que dizemos, pois trata-se de nosso olhar subjetivo acerca do que falamos. E esse olhar faz toda a diferença.

12 de abr. de 2010

"Desejo e perigo" e as armadilhas do querer

Certos diretores merecem o epíteto de artesãos da imagem e da palavra, por seu talento inconfundível e indiscutível para se lançar no ato de contar uma história. Essa alcunha cabe perfeitamente para Ang Lee, um dos mais influentes e famosos cineastas do mundo oriental. Sua carreira é marcada por belíssimos exemplares audiovisuais, como "A arte de viver", "Cavalgada com o diabo" e "Tempestade de gelo". E como não se lembrar do show de imagens coreografadas de "O tigre e o dragão"? O recente "O segredo de Brokeback Mountain" também não pode ficar de fora dessa equação.

Mas o foco dessa crítica está em "Desejo e perigo", longa que concedeu o segundo Leão de Ouro no Festival de Veneza ao diretor, já que fou considerado o melhor filme em 2007. A despeito do prêmio imponente, o atraso com que chegou aos cinemas brasileiros foi de 2 anos. Uma demora injustificável, pois o filme é digno de todas as láureas que a ele possam ser concedidas. Com sua trama que brinca o tempo todo com o engano que as aparências causam, Lee entrega uma obra madura, consistente e que prende a atenção do início ao fim.
O que se vê na tela, ao longo de 157 minutos, é a trajetória da jovem Wang Jiazhi, modificada a partir do momento em que entra para um grupo de teatro. A companhia é formada por outros jovens, que acreditam na arte como um instrumento de resistência contra a barbárie que toma conta de mundo. Esse é um pensamento que acompanha alguns artistas ainda hoje, e não deixa de ter sua validade como tese. Mas na prática muitas vezes pode acabar soando panfletário, sem surtir o efeito desejado. E é exatamente o que acontece com o grupo ao qual Wang se associa. A ocasião na qual eles se encontram é a ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial, um episódio bastante delicado da história recente da China. Wang é chinesa, e o brilho irradiado por ela logo a torna a estrela do grupo teatral de que faz parte.

Seus companheiros de ofício acabam vendo nessa ascensão veloz uma chance única de usá-la como isca para atrair o Sr. Yee, que trabalha para os japoneses. A intenção dos rapazes é assassiná-lo, por tudo aquilo que ele representa.
Esse mote é apenas o pontapé inicial de um jogo que vai ganhando contornos complexos, como uma corrida de gato e rato em que ora um assume o papel de algoz e o outro o de vítima, ora a brincadeira se inverte. Wang tem a função de seduzir Yee, o que a impede de se apaixonar por ele. Mas essa é exatamente a armadilha na qual ela cai: desenvolver um sentimento forte por aquele a quem deveria prejudicar. Um detalhe importante que põe toda a estratégia engendrada pelos membros da companhia teatral em perigo, e formando a díade de sentimentos que nomeia o filme em português e também em seu título original. E são eles que conduzem as reviravoltas que Lee preparou para supreender o espectador. As surpresas, aliás, são fundamentais para a narrativa, que se apoia inicialmente em uma temática já constantemente repisada. A ideia de falar sobre um plano de destruição que fracassa por causa do nascimento da paixão por quem se deveria querer mal aparece em dezenas de filmes. A diferença reside na maneira como o assunto se desenvolve. Em "Desejo e perigo", ele vai muito além das querelas que causam situações pitorescas e que levam ao riso fácil e escancarado. Nada contra meros passatempos para desopilar o fígado. Mas o espaço de refelexão e encantamento que também pertence ao cinema precisa ser igualmente considerado, em que pese a capacidade desse veículo de mexer com as nossas emoções de modo muito sofisticado. Ang Lee demonstra que é plenamente consciente dessa qualidade maravilhosa do cinema, e se utiliza dela com vigor e beleza.
As imagens apresentadas pela direção de fotografia não deixam mentir. Cada sequência do filme é de um deslumbre incontestável, configurando uma atmosfera inebriante que, inclusive, aguça o desejo. O ápice desse movimento em direção ao aflorar da libido está na cena de sexo vivida pelos protagonistas. É uma sequência bastante despudorada, que certamente exigiu bastante desprendimento e intimidade entre os atores para que fosse realizada. De qualquer forma, tudo passa longe da vulgaridade e da gratuidade. Também há uma certa dose de violência, já que em dado momento do filme os jovens quase conseguem atingir o objetivo a que se propuseram. A cena em que os rapazes quase matam Yee revela o quanto o político já está ciente do estratagema que lhe foi preparado. Esses poucos e angustiantes minutos também trazem á uma constatação que se estende para a vida em geral: nunca se é totalmente inocente de nada. Pelo contrário, sempre há uma intenção oculta por trás daquilo que se diz ou se faz. Se boa ou ruim, já é matéria de outra discussão.

9 de abr. de 2010

A efemeridade da vida revisitada em "Memórias"

Ao iniciar da década de 80, Woody Allen decidiu se lançar novamente naquilo que faz com talento incontestável: dialogar com a vida através da metalinguagem. Esse recurso poderoso rende um filme sensacional como "Memórias", de clara inspiração felliniana,e um dos maiores acertos da carreira do cineasta novaiorquino. Aqui, ele mais uma vez assume o papel de protagonista, interpretando Sandy Bates. Ele é um cineasta de sucesso, que está numa fase de rememoração da vida e da carreira bem-sucedida. Apenas essa sucintadescrição já dá conta de mostrar que há muito em comum entre o enredo do filme e o enredo da própria vida de Allen. E é caminhando nessa tênue fronteira, que, ás vezes, parece desaparecer, que o diretor engendra essa pequena pérola. Pequena mesmo, já que toda a trama está condensada em 91 minutos.

Sandy é homenageado com um festival de seus filmes, o que o leva a se confrontar com uma série de lembranças, nem todas tão agradáveis. Esse é o grande tema do filme: a capacidade que o ser humano tem de armazenar dados, fatos, informações, pessoas, cores, texturas e tudo o mais que passa pelo campo das sensações. Um filme que se calca nesse assunto, inveitavelmente tem um quê de afetivo, e é esse o caso de "Memórias". Allen se vale de seu humor bastante peculiar para trazer à tona aquilo de que mais gosta de falar. Seu alter-ego Sandy traduz as angústias que todo ser humano carrega, em maior ou menor escala. Ao rever sua trajetória no cinema, ele também reconsidera os passos que deu na vida pessoal, num reencontro consigo mesmo. A fotografia em preto e branco, que ele já utilizara em "Manhattan" no ano anterior, reforça a ideia de um mergulho no interior da alma e do coração.
Mas a jornada emocional de Sandy é temperada com algumas rodelas de humor, o que tornam o filme uma obra inconfundível. Mesmo quem não é fã do diretor sabe reconhecer de longe quando está diante de um seus longas. Esse aspecto reforça o diálogo que Allen trava com um dos maiores cineastas de todos os tempos: Ingmar Bergman. Ele já confessou várias vezes que o sueco é seu diretot predileto, e aqui faz uma ponte interessante com o Bergman de "Morangos silvestres", que pode ser considerado o filme-símbolo da busca pela identidade através das lembranças. Somos feitos das nossas memórias, e essa constatação pulsa a cada fotograma do filme, que tem em seu elenco outro grande trunfo. A presença de Charlotte Rampling enriquece cada cena, pois a atriz tem um impressionante carisma, que faz com o que o espectador não consiga tirar os olhos dela sempre que aparece. Sua Dorrie é apenas uma das várias mulheres que já cruzaram o caminho de Sandy, mas certamente merece ser sempre relembrada, por irradiar charme.

"Memórias" tem alguns momentos de diálogo direto com o público, que é convidado pelo diretor, tanto o de dentro do filme quanto o próprio Allen, a navegar pelas águas das recordações que fazem parte de sua vida. Não há como não enxergar um certo teor autobiográfico nessa obra, o que não é nem demérito nem grande qualidade. O longa também é marcado por uma estética simples e eficiente, além de uma economia narrativa exemplar. Normalmente prolixo em suas afirmações e piadas, aqui Allen adota um comportamente um pouco mais conciso. É a prova de que também se diz muito com pouco. Por meio de "Memórias", ele traça um inventário sentimental das chagas e das virtudes que acompanham a vida de uma pessoa, e é muito difícil que até o final da sessão pelo menos um pouco de identificação não seja despertada. O cineasta é um esteta da palavra e, por esse seu domínio, consegue traduzir emoções com grande acuidade e talento. São esses traços que demarcam a diferença entre um artista da imagem e um vendedor de uma obra desacaradamente comercial, que ainda é maioria no cinema como um todo.
É um prazer acompanhar o ponto de vista sarcástico do personagem em relação à sua vida. Allen demonstra que o ser humano deve ter consigo uma característica muito importante: a capacidade de debochar de si mesmo em certas situações. Ele relembra que nem tudo na vida pode ser levado totalmente a sério, pois sempre há um toque se absurdo naquilo que vivemos. Nem sempre a vida faz sentido, por mais que tentemos achar um sentido nela. Essa é a tônica dominante de seu cinema, que já atravessou décadas e continua digno de interesse e admiração. E a graça de viver talvez esteja exatamente nisso, como Allen quer nos fazer enxergar.

7 de abr. de 2010

"Obrigado por fumar" ou o humor a serviço da inteligência

Unir humor e inteligência não é uma regra na seara hollywoodiana. Por isso, qualquer bom filme que saiba dosar com perfeição esses dois elementos é digno de grande apreciação. "Obrigado por fumar" está aí para confirmar essa máxima. Sua trama gira em torno de Nick Naylor, vivido por um inspirado Aaron Eckhart, porta-voz de uma influente e poderosa indústria de cigarros. A missão dele é das mais ingratas: dar a cara a tapa para defender o hábito de fumar, que é a fonte de riquezas para seus patrões e, consequentemente, de onde vem o seu salário.

Nick, entretanto, vive um dilema moral: como passar uma boa imagem de pai para o filho em fase adolescente, tão necessitado de um referencial? O garoto não é nada bobo, e sabe muito bem o tipo de vida que o pai leva, não sendo enganado facilmente por ele. Joey, que é como se chama o filho, é daqueles meninos que consegue demonstrar mais maturidade que o próprio pai, trocando muitas vezes de lugar com o genitor. Como se vê, Nick tenta se equilibrar nessa gangorra que é sua vida, a fim de conseguir administrá-la da melhor forma possível. Baseando-se nesse argumento simples, Jason Reitman estreia na direção com um filme maduro e muito interessante, que passa longe da maioria dos longas politicamente corretos que se encontram por aí. O diferencial de "Obrigado por fumar" é tratar de um tema tão espinhoso com muita presença de espírito, sem fazer concessões desnecessárias ao espectador.
Trata-se de um convite instigante para o debate, já que o centro do enredo é uma das indústrias que mais tem responsabilidade sobre a mortalidade populacional em todo o mundo, e que já foi até mesmo proibida de propagandear suas mentiras no meio televisivo. Até que ponto as convicções pessoais podem ser sacrificadas em troca de se manter a estabilidade profissional? Essa indagação perseque Nick, uma vez que ele lida com dois lados de uma mesma moeda o tempo todo. E, para completar, ele ainda é amigo de Poll (Maria Bello) e Lorne (Sam Elliott), que representam outras duas controversas realidades: ela está a serviço da indústria de bebidas, enquanto ele representa uma importante indústria de armas. O teor satírico dessa comédia é reforçado aí, já que um demonstra entender a situação do outro, que é estar sempre na corda bamba. Perto do fim do filme, há uma cena na qual os três discutem qual deles tem o emprego mais perigoso, e cada um apresenta interessantes argumentos para afirmar que é um ou outro. Sob as suas falas, está embutida uma crítica feroz a alguns valores distorcidos que a sociedade aprendeu a aceitar como válidos.
Essa acidez é uma das maiores qualidades do filme, além da presença de um elenco tarimbado, que usa toda sua experiência para interpretar tipos com os quais nos deparamos facilmente pela vida. É o caso do senador Ortolan K. Finistirre, papel de William H. Macy, um homem que não está nem aí para o mal que o cultivo de um vício como o do cigarro pode acarretar. O próprio Nick Naylor também é um desses tipos. Ele sabe, assim como qualquer um, de todos os malefícios causados pelo tabagismo, mas lança-os fora quando precisa conceder uma entrevista em nome da empresa para a qual trabalha. Seu cinismo é tamanho, que ele já aprendeu a acreditar nas mentiras que cria, através das quais sobrevive. Suas tiradas em defesa do ofício são fruto da mente inventiva de Jason Reitman, que logo em seu primeiro filme já mostrava que vinha para fazer a diferença. Ele ainda entregaria dois ótimos filmes, "Juno" e "Amor sem escalas", que formam até agora uma carreira merecedora de acompanhamento. Seus longas sempre têm muito a dizer, com tramas que não mirabolantes, nem precisam de um efeito visual sequer. Reitman também não parece preocupado em defender uma verdade única nem um ponto de vista absoluto. O julgamento moral de seus personagens sempre fica a cargo do espectador, que opta por condená-los ou não. Nick, assim como qualquer outro personagem de sua filmografia, não é nem um coitadinho, nem um canalha. Apenas vive de acordo com as circunstâncias que se lhe impõem. Como qualquer um de nós, afinal.

5 de abr. de 2010

A estética de ultraviolência de "Senhores do crime"

David Cronemberg é conhecido por sua abordagem visceral da violência. Seus filmes quase sempre convergem para a questão, uma vez que essa é a temática predileta do cineasta. Mas poucas vezes sua verve sanguinolenta esteve tão acentuada quanto em "Senhores do crime". No longa de 2007, ele se propõe a abordar os bastidores da máfia russa sob a perspectiva de uma mulher comum e sensível. Ela é Anna (Naomi Watts), uma parteira que consegue salvar um bebê da morte, mas não a mãe da criança. É por causa da busca por mais informações do passado da jovem que Anna acaba esbarrando no submundo extremamente organizado desse segmento criminoso. Ela conhece Nikolai (Viggo Mortensen), um dos homens de confiança de um grande empresário do ramo, que tem relação indireta com o destino fatídico de sua ex-paciente. Afinal, ele trabalha para Semyon, o homem de quem a jovem engravidou, e de quem passou a querer distância ao saber do fato.

Nikolai é motorista da família, e bastante próximo de Kirill (Vincent Cassel), filho de seu chefe. Os dois tem um apreço um tanto doentio um pelo outro, mas há muito mais interesse e ciúme de Kirill por Nikolai do que o contrário. Uma vez tendo cruzado o caminho dessa irmandade do crime, Anna não se intimida, e luta pela elucidação dos fatos que procura. Ela encontra o diário da jovem, e seus escritos a guiam em sua jornada de descoberta, até que percebe que o negócio da família, um agradável restaurante, na verdade é fachada para seus esquemas violentos. Cronemberg, com isso, captura a alma do submundo do crime londrino. Toda aquela aura que tipifica o agir dos criminosos que agem em família está retratada no longa, que não abre mão de muito sangue para contar sua história.

Logo no começo da trama, Nikolai comete um assassinato brutal em uma barbearia, retalhando a garganta de um homem que poderia comprometer os interesses escusos do clã de delinquentes. É uma cena muito forte, através da qual o diretor já mostra a que veio. Como um crítico já disse com muita propriedade, Cronemberg segue uma gramática sensorial e visceral muito intensa, o que não significa dizer que ele se prende a conceitos pré-estabelecidos e faz sempre mais do mesmo. Muito pelo contrário. Ele sempre lança novos olhares para a questão da violência, calcado numa estética de transparência, que não abre mão de toda a crueza da qual se possa dispor. Sua direção de atores também é afiada, já que ele arranca de Viggo Mortensen uma interpretação soberba, digna até mesmo de uma indicação ao Oscar de melhor ator, perdido para Daniel Day-Lewis, que já tinha a láurea pela sua atuação em "Sangue negro" no papo em 2008. Se Mortensen levasse, entretanto, a justiça também teria sido feita.

Ele compõe um personagem cheio de nuances, que tende ora para a ternura, ora para a crueldade. É capaz de se comover com um bebê, mas também pode cortar os dedos de um cadáver para dificultar a identificação do corpo pela Polícia. Também pode se mostrar uma fera indomável quando está sob ameaça. Tem-se a constatação desse fato em uma sequência em especial. Quando está sozinho numa sauna, Nikolai é abordado por uma dupla de bandidos que quer acabar com sua vida. Num átimo, ele demonstra toda sua fúria ao atacá-los, sem qualquer ferramenta nas mãos, literalmente despido de qualquer instrumento que possa auxiliá-lo em sua luta pela vida naqueles instantes. Mortensen faz a cena completamente nu, exibindo todas as tatuagens de seu personagem. Cada desenho ali conta um episódio de sua vida, sendo traduções de sua caminhada pelas veredas criminosas. A sequência brevemente descrita acima já pode ser considerada antológica para o cinema, e inscreve o nome de David Cronemberg no panteão dos grandes realizadores.
Contudo, "Senhores do crime" não é só violência. Com sua fotografia nebulososa, o filme também apresenta uma Londres muito mais plúmbea do que aquela com a qual se está acostumado. As cenas evidenciam cadenciadamente uma atmosfera de embriaguez do crime, que também traz embutida em si uma brecha para a crítica. Em nenhum momento Cronemberg demonstra produzir apenas um espetáculo de entretenimento, mas sim uma imersão em um universo que rende toda sorte de reflexão, e está no âmago da humanidade: a inclinação para o mal, que pode ser dosada para o convívio com o próximo. Mas nada do que adormece está morto.