20 de mar. de 2010

A investigação do nascimento de um mal em "A fita branca"

Nos filmes de Michael Haneke, nota-se que o diretor não parece preocupado em responder a todas as questões que levanta. Como um investigador que está atrás de evidências para comprovar sua teoria, ele imerge em águas por vezes turvas, na tentativa de entender o mal do mundo. Mas seu entendimento não necessariamente coincide com o olhar do espectador. Em "Caché", sua câmera observadora se voltou para o cotidiano de um casal parisiense que tinha a paz abalada pelo envio sistemático de estranhos vídeos que mostravam sua rotina. A partir desse argumento, Haneke falava sobre feridas que carregamos sem nem sempre nos darmos conta, além de demonstrar que a desconfiança pode acometer até as mais sólidas relações, quando menos se espera. Entretanto, sua perscrutação chegava a um suposto fim sem todas as perguntas respondidas.

Esse também é o caso de "A fita branca", mais uma produção que não se importa em dar todas as resoluções de bandeja para o público. Sair com um ponto de interrogação ao final da exibição do filme é quase certo. Para contar uma história que se presta a tentar encontrar as raízes do "mal" na Alemanha, ele usa o preto e branco, resultando numa fotografia belíssima. A trama começa com a narração de um homem cuja voz denuncia sua velhice. Ele conta sobre estranhos acontecimentos que se deram em um vilarejo no começo do século XX, onde habitava. Cenas de que ouviu falar e que guardou na memória, mas das quais ele não tem absoluta certeza. É assim, já envolto em uma névoa de mistério, que o filme prossegue. O ritmo das cenas é lento, adequado à vida de uma comunidade rural de quase cem anos atrás. Tudo acontece vagarosamente, gerando uma prolixidade não em palavras, mas em duração. São mais de duas horas nas quais o público vê expostos pensamentos e atitudes com as quais nem sempre irá concordar.
O narrador dos acontecimentos era o maestro do coral de crianças da localidade e, aos poucos, vai dando sua visão do que se deu por ali. Uma visão que parece pouco tendenciosa, pelo menos à primeira vista. Ali, uma armadilha é colocada para derrubar o médico que vem montado em seu cavalo, um celeiro é incendiado sem explicação aparente e duas crianças passam por tortura depois de terem sido sequestradas. Cada fato parece ser independente um do outro, mas logo eles parecem formar uma unidade, que quem assiste o filme pode encontrar ou não. A maneira quase cientificista com que Haneke apresenta sua história pode soar chocante em alguns momentos, mas isso não é novidade na carreira do diretor. Afinal, ele polemizou com seu "A professora de piano", um de seus filmes mais controversos, e em vários outros, como "Violância gratuita", que ganhou recentemente um refilmagem no sentido mais literal da palavra. Trata-se de um diretor que não busca o meio-termo, o que faz dele mais que um mero contador de histórias. Seu cinema é feito de instigantes convites à reflexão, pautados pela ideia de que há muitas verdades, para a maioria dos fatos ou das suposições, sendo uma questão de ângulo acreditar em uma ou em outra.

A ausência de cores do filme não impede que se note a lividez das crianças, sempre muito resignadas em suas atitudes. Uma cena em especial evidencia essa visão conformista da vida que elas compartilham. A filha do barão local, ao ser perguntada pelo irmão mais novo se a pai deles morrerá, responde que sim, que um dia ele morrerá. O menino prossegue, e pergunta se isso acontecerá também à irmã, ao que ela responde também positivamente. Ele ainda insiste, e pergunta se todos um dia morrerão, e a confirmação da menina o deixa num misto de desolação e desesperança. Muito já se disse a respeito desse comportamento passivo desses personagens, inclusive que aquela seria a geração que apoiaria o nazismo décadas mais tarde, com a ascenção de Hitler ao poder. Mas essa é apenas uma questão, e há muitas outras interpretações possíveis para as atitudes daqueles meninos e meninas.
Haneke não se utiliza de grandes invenções narrativas, preferindo conduzir seu enredo com parcimônia, o que revela um filme muito mais simples do que se possa supor. O foco é na investigação do mal, que parece estar para nascer naquela região. O diretor leva sua câmera a um estágio de observação que se parece muito com a estética naturalista, que descreve a realidade sem fazer grandes julgamentos. Os fatos estão ali, para quem quiser ver e tirar suas próprias conclusões. O maestro, que toma para si a missão de descobrir o que está por trás daqueles acontecimentos sinistros. Ele está certo de que existe uma verdade aterradora escondida naquele vilarejo. Seus alunos, sempre contidos e de poucas falas, parecem carregar culpa pelos atos que cometem. É por causa de um desses atos que o barão decide castigar seus filhos, impondo-lhes o uso de uma fita branca, com o intuito de lhes evocar a necessidade de se preservar a pureza e a inocência. Daí o título da obra ser exatamente esse em bom alemão: "Das weisse band" (A fita branca).
No geral, esse é um filme destinado a pequenas plateias. O discurso de Haneke não é eloquente, a violência apresentada não resvala para a mera espetacularização e não há cenas que buscam a comoção do público a todo custo. O diretor é favorável a dizer muitas coisas com o mínimo possível. A longa duração de "A fita branca" contrasta com sua economia em diálogos e ações, que se traduzem num tipo específico de concisão, para além do que as imagens possam traduzir. Aliás, é nas imagens que reside a grande força do longa, que não demonstra uma intenção de causar impacto. Se acompanhado apenas sob um olhar contemplativo, também despertará muita inquietação e dúvida. Porque ninguém tem as respostas prontas para tudo o que há no mundo. Tudo tem uma esfera de insondável.

18 de mar. de 2010

"Viagem a Darjeeling", uma nova loucura de um grande diretor

A filmografia excelente de Wes Anderson ganhou um novo exemplar em 2007, quando ele rodou "Viagem a Darjeeling". O longa é mais uma comédia inusitada protagonizada por tipos estranhos, com os quais o espectador vai se habituando aos poucos. Se em "Os excêntricos Tenembaums" ele falava de laços familiares sob uma perspectiva algo bizarra, e em "A vida marinha com Steve Zissou" trouxe um olhar diferenciado para um filme de viagem, neste mais recente longa ele volta a exercitar sua visão aquilina para flagrar pequenezas que põem em xeque a normalidade de seus personagens, sempre apenas uma aparência.

Para contar essa nova história, ele reúne Jason Schwartzman, Adrien Brody e Owen Wilson para personificar três irmãos que estão vivendo uma relação deteriorada pelo tempo e pelo afastamento. Eles não se veem dsde que o pai foi enterrado, um ano antes dev seu reencontro. Cada um com seu rumo tomado, eles se dão conta de que não podem mais se manter distantes. Na verdade, a iniciativa parte de Francis (Wilson), que logo no início do filme aparece com o rosto envolto em curativos, resultado de um acidente de moto. Aliás, especulou-se nos bastidores, na época do filme, que Wilson teria tentado se matar na vida real e, portanto, seus curtivos não eram ficção. Verdade ou não, é um assunto que não cabe para determinar a análise do longa. Francis convoca seus dois irmãos, Peter (Brody) e Jack (Schwartzman) para uma jornada espiritual, na qual eles terão um encontro consigo mesmos. A proposta de Francis, em si, já é o primeiro passo para uma série de dados insólitos que acompanharão a trajetória desse trio.
As marcas de Anderson, como seu modo oblíquo de narrar a trama que apresenta, estão evidentes, o que deixa claro logo de cara que não se trata de um filme comum. O tom cômico aparece em várias sequências, mas sempre envolto em uma atmosfera surrealista. Os elementos que evocam esse aspecto incluem a fotografia, que é marcada pelas cores um tanto berrantes, o que revela um quê de Almodóvar. Mas aqui ela parece traduzir uma crítica a artificialidade da vida, um pouco como faz Alain Resnais em seus filmes. A caracterização dos três irmãos também ajuda a mergulhar no clima um tanto soturno que os acompanha na viagem ao lugar do título.

Francis, o autor da ideia da viagem, não é o único com problemas. Peter passa por uma certa crise existencial depois de descobrir a gravidez de sua mulher, e Jack ainda não se refez do fora que levou da namorada, e quer tê-la de volta a todo custo. O rompimento dos dois é mostrado em "Hotel Chevalier", um curta que precede "Viagem a Darjeeling". Ali, o espectador tem a chance de acompanhar as últimas palavras ditas por eles antes do fim da relação. A expressão turbada de Jack resume seu desconsolo pelo fato. A sequência de 13 minutos traz Natalie Portman num esplendor de beleza e frivolidade. Sua personagem sequer é nomeada, é apenas a "namorada de Jack". "Hotel Chevalier" serve como um prólogo para que se comece a assistir aos descaminhos de Francis, Peter e Jack, entendendo-se um pouco melhor como estão suas vidas pouco antes de voltarem a se ver. Ao final da viagem empreendida por eles, chagarão a uma espécie dev retiro espiritual onde se encontra a mãe deles, da qual se perderam pouco a pouco.
O caminho é percorrido dentro do expresso Darjeeling, um trem simpático e pitoresco no qual eles conversam, divagam, discutem, sofrem, lembram-se e se apoiam. Naquela louca jornada, eles só têm um ao outro. Alguns itens incomuns estão presentes na bagagem dos irmãos, como um spray de pimenta que será empregado na hora certa, e uma máquina plastificadora, que parece não ter utilidade alguma naquele périplo. A viagem a Darjeeling é feita de momentos hilariantes, que trazem consigo um teor de reflexão muito interessante. Pode parecer um filme como tantos outros, mas este não é mais um sobre viagem. Anderson tem sempre algo mais a oferecer, com filmes que nunca se contentam apenas com a superfície. Eles sempre vão além disso, do óbvio ululante que reina em nossos dias. Aqui não há fórmular prontas, diálogos débeis e a previsibilidade passa longe do enredo. O diretor se usa de uma premissa banal para falar de dificuldades inerentes a qualquer ser humano. Os problemas de comunicação, que assolam qualquer tipo de relacionamento, não são evitados aqui. Os três irmãos não se odeiam, mas também não morrem de amores um pelo outro e têm problemas em expor o que realmente está se passando com eles.
Há também espaço para que se critique os mundo místico, que a toda hora lança sua novidades e atrai legiões de crédulos. Na busca dos três para um encontro consigo memsmos, eles são confrontados com a validade dos métodos que lhes apresentam diante dos olhos. Até onde não se trata de uma estetização, um embelezamento que torna todos mais plastificados e autocentrados? Em dado momento da história, surge um negociador que lhes faz uma oferta curiosa, que só quem ver o filme saberá qual é. Ele é vivido por Bill Murray, colaborador habitual nas produções de Anderson desde "Três é demais". O ator já parece bastante à vontade no universo particular do cineasta, assim como Owen Wilson, que já escreveu roteiros em parceria com ele, e aqui faz seu terceiro trabalho sob a batuta de Anderson. No fundo, o realizador se debruça sobre os mesmos temas de seus filmes anteriores, mas não se esgota pela repetição. Ele sempre acaba encontrando uma maneira nova de discorrer sobre assuntos que interessam a gregos e troianos, ainda que seu resultado final não goze de uma apreciação unânime.
"Viagem a Darjeeling" chega ao seu fim trazendo a certeza de que escolher um caminho que se desvencilhe do lugar-comum ainda é possível no cinema atual. Essa arte precisa sempre de novas ideias e de novas linguagens para se debater temas recorrentes, ou de novos temas que venham a ser trabalhados com igual originalidade, a fim de que seu fôlego sempre exista. Nesse filme mais recente, Wes Anderson propõe uma viagem no sentido mais amplo da palavra, enveredando por caminhos improváveis e interessantes. Acaba por importar mais o caminho em si do que chegar ao destino final. E é triste ter que se despedir de companheiros de viagem que pareciam tão reais, tamanha a identificação que despertam.

16 de mar. de 2010

A tragédia humana de "Ensaio sobre a cegueira"

Nas lentes de Fernando Meirelles, o livro de José Saramago ganhou uma adaptação fantástica, em todos os sentidos. "Ensaio sobre a ceggueira", mais recente trabalho do diretor brasileiro, é daqueles filmes capazes de arrebatar a plateia indo a fundo em suas consciências, através de uma mensagem urgente. Capitaneado por um elenco que está em perfeita simbiose dramática, ele apresenta uma investigação, assim como acontece no livro, a respeito de uma inexplicável epidemia de cegueira branca que assola uma cidade que nunca é nomeada.

Logo no início da trama, um homem não consegue mais dirigir seu automóvel, pois tudo o que vê é um líquido leitoso, que bloqueia toda a sua capacidade de enxergar, e o faz abandonar o veículo. Dali a pouco, vários outros habitantes da grande metrópole estarão contaminados pelo mesmo mal, sem que se saiba ao certo a razão daquilo. A sensação que se instaura sobre a população é de pânico total, por não saberem como lidar com um problema que não sabem de onde vem e nem como podem solucionar. Aos poucos, os protagonistas, termo um tanto impróprio para designar os papeis defendidos por Mark Ruffalo e Julianne Moore, vão começando suas buscas para entender o que realmente está acontecendo. Assim como a cidade onde se dá a tragédia, os personagens dessa espécie de conto moral não recebem nome. Ruffalo dá vida ao Médico, ao passo que Moore personifica a Mulher do Médico.

Essa ausência de identidade presente tanto no cenário onde se passa a história quanto em seus personagens contribuem para que a realidade apresentada na tela seja interpretada como universal. Qualquer grande cidade e quaisquer pessoas poderiam estar naquela situação escabrosa que surge sem aviso prévio. Um aspecto interessante do filme é que há várias perspectivas mostradas em sua duração. O olhar que nos guia pode ser o de um cego, ou pode ser a visão da única mulher ainda capaz de enxergar. Somente a Mulher do Médico permanece vendo todo o caos que se faz ao seu redor, e sua condição de única que enxerga acaba sendo para ela um grande fardo. Resta a ela acompanhar e ajudar o marido, que tenta encontras a resposta para o mistério que tomou conta não só da cidade onde se passa o filme, mas também do mundo inteiro. O espectador passa a compartilhar da agonia dessa mulher em ver as pessoas dando vazão ao seu instintos mais primitivos, comportando-se como animais em busca de abrigo e comida. O pior do ser humano se aflora, de maneira a nos confrontar com nossa realidade perversa, sempre mascarada por convenções sociais coecirtivas, que garantem o bom funcionamento da vida em estado gregário.
Outros personagens vão sendo apresentados, como uma bela jovem que tenta encontrar um caminho para sua sobrevivência, vivida por um correta Alice Braga. A atriz vem consolidando sua carreira com bastante talento, aparecendo ao lado de outros ótimos atores, e mesmo com sua participação pequena, demonstra segurança e domínio de seu papel. Outro que também acerta em sua composição é Danny Glover. O veterano ator vive o Velho com Venda nos Olhos, e transmite o desalento com o mergulho no abismo da falta de visão. Sua presença no elenco enobrece ainda mais a produção de Fernando Meirelles. Até mesmo Mark Ruffalo, habitué de filmes bobos como "Voando alto" e "De repente 30", transparece maturidade na pele do Médico, servindo de comprovação para a excelente direção de atores de Meirelles. Em sua incapacidade de ver, ele mostra desespero e despreparo para lidar com uma condição que pode ser irreversível. Seu tlento artístico já havia aparecido em outras obras, como é o caso do delicado "Minha vida sem mim", mas parece que somente com "Ensaio sobre a cegueira" ele ganhou mais que notoriedade. Tornou-se um ator mais digno de crédito.

Quando foi exibido em Cannes, o longa causou uma reação um tanto fria na imprensa e nos demais presentes em sua sessão. Esse foi o filme eleito para abrir a 61ª edição do festival, e apesar de certa frieza da parte da alguns, em outros o filme despertou a certeza de que aquela era uma das melhores obras que dava início aos trabalhos na Croisette em muitos anos. O fato é que trata-se de uma obra ante a qual é difícil ficar impassível, tamanha a contundência com a qual os acontecimentos são retratados na tela. Algumas sequências são bastante incômodas, como o momento em que várias pessoas, incluindo a Mulher do Médico, que se finge de cega, estão confinadas em um hospital já sem qualquer condição de higiene, disputando alimento como cães famintos que sequer sabem o que estão comendo. É desolador ver a progressiva transformação de pessoas antes civilizadas(?) em seres sem qualquer senso de humanidade. Eles estão ali abandonados à própria sorte pelo governo, que já não sabe mais o que fazer para conter a epidemia. O personagem de Gael García Bernal reforça esse aspecto doentio do homem, na pele de alguém que não se importa em praticar todo tipo de violência para defender sua porção. Quando exige que as mulheres que estão do outro lado do local de confinamento sejam levadas até ele e aos outros homens dali para que sejam estupradas em troca de comida, o asco é inevitável.
A fotografia em tons esbranquiçados é outro elemento que configura uma importante ferramenta para a potência narrativa do filme de Meirelles. Ela auxilia a enxergar a situação tão difícil que se alastra por toda a população, dando uma sensação forte de não poder fazer absolutamente nada. "Ensaio sobre a cegueira" funciona brilhantemente como um painel da crueldade humana em meio aos tempos hodiernos, em que a compaixão e a generosidade estão diminuindo cada vez mais, sem que muitos se deem conta. A perda da capacidade de enxergar pode refletir isso, tanto física quanto psicologicamente. É uma perda de crédito no homem e em sua sensibilidade. Ao chegar ao seu final, o filme ainda traz uma mensagem de esperança, mas deixa a pergunta no ar: nossa caminhada rumo à própria destruição ainda tem volta?

15 de mar. de 2010

A desconstrução do amor em "(500) dias com ela"

Ano após ano, o amor é objeto central de inúmeros filmes, de nacionalidades diversas. A cada nova aparição, assume um nova (ou renovada) faceta, mas nem sempre dissecada com a devida habilidade. No filme de Marc Webb, contudo, o resultado é bastante acima do satisfatório. Trata-se de uma comédia de tintas dramáticas - ou seria ou drama de tintas cômicas? - sobre as infinitas possibilidades de se viver um amor. Sentimento que muitos hoje condenam a evanescência, é ele que move o cotidiano de Tom (Joseph Gordon-Levitt) a partir do dia em que conhece Summer (Zooey Deschanel), uma garota que vira sua cabeça rapidamente. O nome da jovem é um trocadilho perfeito com a estação mais solar do ano, que simboliza a chegada da luz e da cor para todos. Mas não é bem assim que acontece para Tom.

Em pouco tempo, o rapaz se vê perdidamente apaixonado pela garota, enquanto ela nem pensa em assumir compromisso sério com ninguém nessa vida. Tom acha que essa concepção de Summer sobre relacionamentos pode mudar a qualquer momento, mas não tem coragem de assumir logo a paixão que sente. O filme conta toda a história de amor (?) entre os dois de maneira retroativa, mostrando ao espectador que todo o imbróglio vivido pelo protagonista se arrastou por quinhentos dias, como também informa o título. Mas nada é mostrado dentro a ordem cronológica, o que acaba se tornando um doas grandes achados da trama, que acompanha todas as alterções sofridas por Tom desde o dia em que conhece Summer. Em uma cena, pode-se estar vendo o 287º dia do relacionamento deles, e na sequência seguinte surge o 63º dia, no qual eles ainda não são mais do que bons amigos. É um recurso que injeta dinamismo na história e dá várias rasteiras na obviedade, já que nunca se sabe de qual momento da vida em comum que eles passam a ter Tom se lembrará. Aliás, tudo o que se vê na tela são as lembranças do rapaz a respeito dela, sendo vistas sob a sua perspectiva. Não por acaso, o espectador acaba logo se tornando cúmplice do portagonista, e enxergando as situações apresentadas como ele.

"(500) dias com ela" ainda tem outros diferenciais em relação à maioria das comédias românticas que aportam nos cinemas ano a ano. O próprio rótulo de comédia romântica é limitador, pois Webb vai muito além de qualquer fórmula, apresentando uma história completamente verossímel e a milhas de distância de qualquer chavão presente em outros exemplares do gênero. A escalação de Joseph Gordon-Levitt é um exemplo. O ator não é um modelo de beleza do qual se alimentam as comédias, o que o faz de seu T
om um garoto que pode ser qualquer um de nós. E Summer, apesar de linda, parece-se com qualquer garota de coração gélido que nos despedaça por sua inatingibilidade quando ainda somos meninos sonhadores. Sua convicção prática sobre as relações amorosas são baldes de água fria que ela joga o tempo todo no pobre Tom. Mas, antes que se pense que Webb se utiliza de misoginia, o retrato de Summer é bastante gracioso. Cruéis são suas atitudes.

Outro detalhe curioso o longa é a sequência em que Tom vai a uma festa para a qual Summer o convidou. Na hora em que ele chega ao apartamento dela, a tela é dividida em dois. De um lado, estão as expectativas dele em relação a um encontro tão importante. Do outro, a dura realidade que se lhe apresenta na ocasião. Os acontecimentos de sua expectativa são muito mais interessantes que aqueles que a realidade lhe oferece, e a noite termina da pior maneira possível. Esse truque de justapor dois ângulos opostos de uma mesma situação é verdadeiramente mais uma bela sacada dos roteiristas. A visão de Tom muda também de um dia para o outro. Se primeiro ele enxerga Summer como uma mulher perfeita e ideal, tempos depois ele se irrita com tudo que antes admirava nela. Bastante parecido com a fúria que toma conta de alguns ex-amantes. Até mesmo uma pinta, que ele primeiro vê como um sinal charmoso na garota, depois passa a ser como un incômodo carrapato, tamanho seu despeito por não tê-la. Ou seria uma certa raiva de si mesmo por não conseguir deixar de amá-la? O juízo fica a cargo do público.
A trilha sonora encantadora é outra ótima razão para se assistir a "(500) dias com ela". Repleta de canções que versam sobre o amor, cada uma à sua maneira, elas são o arremate perfeito para uma trama muito bem construída, com suas idas e vindas, fruto de uma narrativa que acompanha a mente, nem sempre tão ordenada em suas lembranças. Esse filme vem se somar a outras excelentes produções contemporâneas que retratam o amor para além de maniqueísmos, como é o caso de "Amor em cinco tempos", "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" e "Canções de amor". Todos eles, e mais alguns outros, trouxeram belas contribuições para que se descubram novos olhares sobre esse tema tão pertinente que é o amor. Os diretores desses longas apresentam um amor que se vive no dia a dia, longe das idealizações e dos previsíveis finais felizes que pertencem a uma realidade paralela, só encontrada nas telas do cinema. Marc Webb vem se juntar a essa estirpe de realizadores com muito mais a dizer, calcados num conteúdo trabalhado com maior elaboração. Essa elaboração vem do acerto no ritmo, nas atuações, nos diálogos e em tantos outros fatores que fazem de "(500) dias com ela" uma pequena obra-prima.

12 de mar. de 2010

"Manhattan" ou a celebração do cotidiano

A simplicidade com que Woody Allen conduz "Manhattan" é um dos grandes atrativos do filme, mas não o único. Aqui, leveza e fluidez se conjugam numa história que atravessa o dia-a-dia de um homem comum, que enxerga a vida de uma forma um tanto pitoresca. Elementos quase sintomáticos de sua filmografia, que, a cada novo item, torna-se mais preciosa. O longa veio apenas dois anos depois do primeiro grande êxito do diretor com o público e a crítica, "Noivo neurótico, noiva nervosa", que levou várias indicações ao Oscar. Entre esse último e "Manhattan", Allen ainda rodou "Interiores", onde buscou lançar mão de sua paixão por Bergman, numa trama soturna.

Para rodar "Manhattan", o cineasta recrutou novamente Diane Keaton, parceira dos dois filmes anteriores, com quem ele foi casado na vida real. É ela quem dá vida a mulher que perturba o sossego de Isaac Davis, vivido pelo próprio Allen. Acostumado a levar uma vida um tanto banal, ele é sacudido pela presença luminosa de Mary Wilkie (Keaton), que vem a ser a namorada de seu grande amigo. A saia justa está formada, mas ela não é a única questão importante a ser retratada no filme. Isaac tem vários outros focos na vida, alguns bem mais preocupantes. O maior dele talvez seja saber que a ex-mulher se revelou lésbica, e pretende, através de um livro biográfico, expor a intimidade dos dois para quem quiser ler. A ex é interpretada com propriedade por Meryl Streep, que nunca faz um trabalho menos do que ótimo. Isaac também detesta a namorada que tem, de apenas 17 anos, e não sabe como terminar o relacionameto com a garota. Seu emprego também não é dos melhores, o que o leva a encarar a vida com certa amargura.

"Manhattan" aperfeiçoa o que Allen já vinha procurando fazer desde seus primeiros filmes: entender o que estamos fazendo aqui e questionar a humanidade de diversas maneiras. O ano ainda era 1979, mas até hoje ele segue, de certa forma, batendo nas mesmas teclas, ainda que busque diferentes mecanismos para levantar essas questões recorrentes. Sua principal alternância é entre o drama e a comédia. O caso de "Manhattan" é o segundo. Ele também aproveita para fazer mais uma vez uma homenagem à cidade que tanto ama, a bela Nova York, colocando-a como muito mais do que um pano de fundo. A cidade é também uma personagem do filme, uma espécie de coadjuvante de luxo para uma trama que arranca risadas graças à habilidade de Allen como contador de histórias. Mesmo em meio a situações que poderiam soar como dramáticas no longa, ele dá um jeito de lê-las sob o prisma do cômico.

Um punhado de referências eruditas aparecem ao longo do enredo, e o espectador não precisa se sentir na obrigação de entender e acompanhar todas elas. O jazz, estilo musical do qual o diretor é amante, está ali também, permeando cada passo dado por seu Isaac, mesmo aqueles em falso. O personagem já não é mais um garoto, passou por fases de muitas dúvidas, mas ainda tem grandes incertezas sobre bastante coisa na vida. É inevitável perceber que, como outras obras allenianas, essa tem um quê autobiográfico. Recentemente, em uma entrevista, o diretor disse que, agora que está mais velho, notou que acumulou muitas vivências e experiências, mas pouca sabedoria. É uma questão com a qual Issac se vê confrontado em "Manhattan", já há três décadas.
Aqui o cineasta também abre mão das cores, como voltaria a fazer em "Memórias", "Zelig", "Celebridades" e outros. A ausência de uma paleta colorida indica um exercício de estilo nos dias de hoje, mas parece que já era o que diretor se propunha a fazer desde então. Para olhares pouco habituados, pode ser incômodo, ainda mais em dias tão tecnológicos, em que filmes como "Avatar" explodem um diversas tonalidades. Mas, com o passar de alguns minutos, essa característica passa a ser mero detalhe, e a concentração fica toda na história. O roteiro do filme, aliás, é perfeitamente elaborado, com vários momentos cruciais em que pequenas fatias de humor corrosivo são colocadas com perícia. Afinal, trata-se de um mestre do humor, arma que serve para desarmar com elegância, se bem utilizada, pode funcionar muito melhor que o drama, assim como ocorre em "Manhattan". Trata-se de um filme que exalta as pequenas coisas, que eleva a instâncias superiores, como o simples ato de conversar em uma mesa de bar. Ali, qualquer assunto pode ganhar uma dimensão enorme, e ser a questão de vida ou morte dos interlocutores. Bebericar qualquer coisa, elogiar a beleza da mulher que passa pela outra calçada, reclamar do governo, gabar-se por uma nova conquista, amorosa ou não... enfim, amenidades que não fazem mal a ninguém.
O discurso de Allen abarca uma série de tópicos, e assistir a eles em forma de filme é saborear um delicioso prato preferido, feito pelas mãos mais hábeis que há. "Manhattan" prova que viver é passar por um dia de cada vez, com a consciência de que nenhum é igual a outro, porque nós mesmos mudamos dia após dia, sem nem mesmo notarmos. E a velha tese de que o extraordinário é o fato de estar vivo ganha reforço, já que nem só de grandes acontecimentos é feita a vida. Uma certa dosagem de acaso, misturada a uma pitada de obstinação, também podem contribuir significamente para dar novos rumos ao curso do rio que é a vida.

10 de mar. de 2010

"Tudo sobre minha mãe", uma declaração de amor à mulher

Nos filmes de Pedro Almodóvar, o sexo feminino tem sempre um lugar cativo, muito mais privilegiado que o masculino. Os homens almodovarianos quase sempre são apagados ou vítimas da força descomunal vinda delas. A exceção até agora tem sido "Má educação", em que ele dá voz a eles. Mas o foco dessa resenha é "Tudo sobre minha mãe", pérola rodada pelo diretor no já distante ano de 1999. Com seu talento inigualável para contar boas histórias, o diretor leva o público a mergulhar numa jornada difícil e densa, guiada pela força de uma protagonista firme e decidida, e por caodjuvantes igualmente destemidas.

Trata-se da vida de Manuela (Cecilia Roth, magnífica), uma mulher madura e atraente que tem um filho de 17 anos, o jovem escritor Esteban (Eloy Azorín), que nunca conheceu o pai. No dia de seu aniversário, seu maior desejo é assistir à apresentação da montagem espanhola de "Um bonde chamado desejo", famosa peça de Tennessee Williams. A protagonista é a renomada atriz Huma Rojo (Marisa Paredes), de quem Esteban sempre ouve maravilhas. Manuela decide atender o pedido do filho, mas aquela noite mudará definitivamente o rumo da sua vida. Tudo devido a um acontecimento tão trágico quanto inesperado. Quando tenta conseguir um autógrafo de Huma, após o espetáculo, Esteban acaba sendo atropelado, e a atriz sequer o vê, partindo velozmente.
Diante do fato, a decisão tomada por Manuela é retomar suas raízes, e tornar a Barcelona, de onde saíra tempos atrás desejosa de jamais voltar. Sua intenção é dar a notícia do falecimento de Esteban para o pai do menino, que se tornou travesti. É uma situação dificultosa, mas que ela decide encarar. A chegada de Manuela à cidade acaba por desencadear uma série de novos conflitos, já que ela reencontra váriso personagens de sua trajetória com os quais não tinha mais contato há muito, e alguns outros que ela vê pela primeira vez. A galeria de tipos de Almodóvar se mostra claramente a partir daí, com seres icônicos e surpreendentes em sua simplicidade e ousadia. O espaço para a polêmica também é aberto, caracaterística que permeia os longas do diretor. Através da jornada de Manuela, o espectador embarca em uma viagem na qual há muito o que se ver e aprender.
Manuela conhece Rosa, uma freira que se descobriu portadora do vírus da AIDS. O papel da jovem é defendido com garra por uma Penélope Cruz ainda anterior ao estrelato e à consagração de hoje, mas já em sua segunda parceria com Almodóvar. Sua freira é uma grande provocação à Igreja Católica, instituição criticada pelo diretor nesse filme e ainda mais ferozmente em "Má educação". Como é possível uma relgiosa como ela estar infectada com o vírus? A indagação surge como um grito de surpresa.
No caminho de Manuela também surge Agrado (Javier Cámara), um transexual que passou a usar seu nome porque sempre tentou agradar a todos que passam pela sua vida, assim como começa a fazer com Manuela, tornando-se um dos seus grandes parceiros. A cena em que ele tenta animar uma plateia depois que Huma não pode apresentar sua peça é uma das mais inesquecíveis de todo o filme, corrosivamente irônica. Como se vê, a presença masculina é praticamente nula. Os poucos homens que existem na trama não assumem sua verdadeira condição, preferindo igualar-se às mulheres. É uma forma de admiração tão grande por um ser, que a ideia é se transformar naquele ser, como fazem esses personagens. Mais uma vez, Almodóvar homenageia o sexo feminino, declarando seu amor a todas elas, de inúmeras formas, inclusive por meio da metalinguagem. Na pele de Huma Rojo, por exemplo, Marisa Paredes é a representação da mulher de talento, que galgou degraus e chegou ao reconhecimento máximo. A homenagem também parte dessa personagem, que dá vida a uma outra personagem, num mecanismo de representação da representação, uma ode às grandes mulheres retratadas pelo cinema e pelo teatro. Logo no início do filme, Esteban e Manuela assistem na televisão ao filme "A malvada", clássico com Bette Davis, cuja tradução do título original é "Tudo sobre Eve". Com a exibição dos créditos iniciais do filme de Almodóvar nesse momento, fica a ideia de que o título do filme foi decalcado dessa obra, o que constitui mais uma homenagem muito bem costurada pelo diretor.
É com essa eficiência que o filme flui, apoiado num roteiro perfeitamente escrito, a cargo do próprio diretor. Ele levou, inclusive, o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2000, coroando a realização de um profissional que sabe como poucos contar uma história forte e comovente. As obsessões de Almodóvar, como o apreço enorme pelas mulheres, e sua paixão incurável pelo cinema, reverberam a cada minuto de projeção, dando à plateia a chance de ser arrebatada por belos entrechos e por uma narrativa exemplar, que envolve e fica por muito tempo na memória.

8 de mar. de 2010

"Chega de saudade", uma obra com ternura e delicadeza

Dona de uma curta carreira, Laís Bodansky já vem mostrando que é uma diretora de muita competência. Sua obra é formada por apenas dois filmes: o contundente "Bicho de sete cabeças" e o doce "Chega de saudade", sendo que, entre o primeiro e o segundo passaram-se sete anos. Mas a espera durante tamanho hiato foi recompensada.
A diretora entrega ao público uma história maravilhosa, com personagens extremamente carismáticos, e transmite sua mensagem com muita delicadeza. No centro dos acontecimentos, está um simpático salão de baile da terceira idade, onde se passam traições, desencontros, descobertas, memórias, tristezas e alegrias, todas musicadas com lindas canções que caem perfeitamente ao desenrolar das ações.
Toda a trama do filme se passa em um único dia, estratégia narrativa que permite à cineasta condensar uma série de momentos em um só, resultando numa obra concisa, mas mesmo assim com muito a dizer. Tudo começa à luz do dia, com os preparativos para mais um dia de muita música e dança no baile. Chegam ao local dois jovens namorados, que estão ali para animar a noite. Ela não gosta muito daquele ambiente, e ele está ali muito mais pelo pagamento que receberá. Aquele é um mundo que não lhes pertence, mas, de alguma forma, eles serão inseridos naquela atmosfera de nostalgia e certo desalento. A princípio relutante, Bel, como se chama a jovem interpretada com graça por Maria Flor, vai se deixando levar pelo que vê e ouve naquela espécie de microcosmos dos desejos universais, de todo ser humano. Como seu namorado, são deslocados num ambiente dominado pelos mais velhos, mas com muito a aprender com eles. Sem nenhum didatismo, Laís conta com um elenco de veteranos, conhecidos das telenovelas, o que não é motivo para tornar seu filme depreciável. Todos estão igualmente impecáveis, dando a sua contribuição para um filme que se revela um painel da eterna busca do homem pela sua felicidade e pelo ideal de completude, tão soterrado em meio à vida fragmentária da contemporaneidade, mas ainda desejável.
Ali se encontram uma mulher que se lamenta a noite inteira por não ser tirada para dançar, e que se sente preterida por isso, uma dama de meia-idade que sofre por
sentir que o homem que ama é atraído pelo frescor jovem de Bel, uma outra mulher que ainda mantém sua libido, mesmo já tendo passado dos 40, e um casal que está junto a vida inteira, e mergulha nas recordações do tempo em que reinavam absolutos na pista de dança do lugar. Hoje, a saúde dos dois já não é mais a mesma, e eles precisam se contentar em assistir ao desempenho de outros dançarinos bem diante de seus olhos. Seus intérpretes, Tonia Carrero e Leonardo Vilar, são a cereja do bolo delicioso que é "Chega de saudade", cujo título é claramente um empréstimo da bela canção da bossa nova. Alice, personagem da grande atriz, vem sendo acometida de falta de memória, o que a torna um tanto tristonha. O marido, por sua vez, está amargo como nunca, sofrendo por não ser mais o pé-de-valsa de antes. A velhice é seu grande fardo, com o qual ele parece não saber lidar bem. O mesmo não se pode dizer de Leonardo Vilar, que defende seu papel com enorme vitalidade. É um prazer inenarrável ver tanta gente boa em cena, formando uma ciranda de pares que gravita lado a lado para formar um belo mosaico dos corações enamorados. A metáfora da dança cabe perfeitamente aqui, já que a diretora conduz seu elenco num ritmo harmonioso, dando espaço para que todos os integrantes do corpo de baile brilhem, cada qual a seu tempo e a seu modo. O resultado final não poderia ser mais inspirador e agradável que esse. "Chega de saudade pode ser visto como um convite a viver plenamente a vida. Mesmo que seja errando, o importante é ter a consciência de buscar acertar sempre, e estar sempre recomeçando.
O lirismo e o carinho com que trata de seu enredo também são acertos de Laís, que sabe dosar corretamente o sentimental, de forma a não torná-lo piegas, uma fronteira muito fácil de ser cruzada. Os personagens reagem aos acontecimentos com muita dignidade, procurando o melhor da vida sempre. A presença de Elza Soares como uma crooner também dá charme ao filme, já que as músicas cantadas pela sua personagem vão pontuando a trajetória de cada um naquela noite. O espectador acaba na posição de observador das ações. Nada muito súbito, não tão contido, mas tudo numa velocidade compatível com a do cotidiano. Com esses ingredientes, fica irresistível de acompanhar os passos dados pelos homens e mulheres que desfilam na tela com sua leveza e suadvidade, perfeitamente sincronizados e filmados por uma câmera paciente. Em tempos de produções cada vez mais focadas em tiros, explosões e voos pelos ares, um filme que fala baixinho ao coração é um regaço para espectadores sedentos de uma história bem contada.