12 de mar. de 2010

"Manhattan" ou a celebração do cotidiano

A simplicidade com que Woody Allen conduz "Manhattan" é um dos grandes atrativos do filme, mas não o único. Aqui, leveza e fluidez se conjugam numa história que atravessa o dia-a-dia de um homem comum, que enxerga a vida de uma forma um tanto pitoresca. Elementos quase sintomáticos de sua filmografia, que, a cada novo item, torna-se mais preciosa. O longa veio apenas dois anos depois do primeiro grande êxito do diretor com o público e a crítica, "Noivo neurótico, noiva nervosa", que levou várias indicações ao Oscar. Entre esse último e "Manhattan", Allen ainda rodou "Interiores", onde buscou lançar mão de sua paixão por Bergman, numa trama soturna.

Para rodar "Manhattan", o cineasta recrutou novamente Diane Keaton, parceira dos dois filmes anteriores, com quem ele foi casado na vida real. É ela quem dá vida a mulher que perturba o sossego de Isaac Davis, vivido pelo próprio Allen. Acostumado a levar uma vida um tanto banal, ele é sacudido pela presença luminosa de Mary Wilkie (Keaton), que vem a ser a namorada de seu grande amigo. A saia justa está formada, mas ela não é a única questão importante a ser retratada no filme. Isaac tem vários outros focos na vida, alguns bem mais preocupantes. O maior dele talvez seja saber que a ex-mulher se revelou lésbica, e pretende, através de um livro biográfico, expor a intimidade dos dois para quem quiser ler. A ex é interpretada com propriedade por Meryl Streep, que nunca faz um trabalho menos do que ótimo. Isaac também detesta a namorada que tem, de apenas 17 anos, e não sabe como terminar o relacionameto com a garota. Seu emprego também não é dos melhores, o que o leva a encarar a vida com certa amargura.

"Manhattan" aperfeiçoa o que Allen já vinha procurando fazer desde seus primeiros filmes: entender o que estamos fazendo aqui e questionar a humanidade de diversas maneiras. O ano ainda era 1979, mas até hoje ele segue, de certa forma, batendo nas mesmas teclas, ainda que busque diferentes mecanismos para levantar essas questões recorrentes. Sua principal alternância é entre o drama e a comédia. O caso de "Manhattan" é o segundo. Ele também aproveita para fazer mais uma vez uma homenagem à cidade que tanto ama, a bela Nova York, colocando-a como muito mais do que um pano de fundo. A cidade é também uma personagem do filme, uma espécie de coadjuvante de luxo para uma trama que arranca risadas graças à habilidade de Allen como contador de histórias. Mesmo em meio a situações que poderiam soar como dramáticas no longa, ele dá um jeito de lê-las sob o prisma do cômico.

Um punhado de referências eruditas aparecem ao longo do enredo, e o espectador não precisa se sentir na obrigação de entender e acompanhar todas elas. O jazz, estilo musical do qual o diretor é amante, está ali também, permeando cada passo dado por seu Isaac, mesmo aqueles em falso. O personagem já não é mais um garoto, passou por fases de muitas dúvidas, mas ainda tem grandes incertezas sobre bastante coisa na vida. É inevitável perceber que, como outras obras allenianas, essa tem um quê autobiográfico. Recentemente, em uma entrevista, o diretor disse que, agora que está mais velho, notou que acumulou muitas vivências e experiências, mas pouca sabedoria. É uma questão com a qual Issac se vê confrontado em "Manhattan", já há três décadas.
Aqui o cineasta também abre mão das cores, como voltaria a fazer em "Memórias", "Zelig", "Celebridades" e outros. A ausência de uma paleta colorida indica um exercício de estilo nos dias de hoje, mas parece que já era o que diretor se propunha a fazer desde então. Para olhares pouco habituados, pode ser incômodo, ainda mais em dias tão tecnológicos, em que filmes como "Avatar" explodem um diversas tonalidades. Mas, com o passar de alguns minutos, essa característica passa a ser mero detalhe, e a concentração fica toda na história. O roteiro do filme, aliás, é perfeitamente elaborado, com vários momentos cruciais em que pequenas fatias de humor corrosivo são colocadas com perícia. Afinal, trata-se de um mestre do humor, arma que serve para desarmar com elegância, se bem utilizada, pode funcionar muito melhor que o drama, assim como ocorre em "Manhattan". Trata-se de um filme que exalta as pequenas coisas, que eleva a instâncias superiores, como o simples ato de conversar em uma mesa de bar. Ali, qualquer assunto pode ganhar uma dimensão enorme, e ser a questão de vida ou morte dos interlocutores. Bebericar qualquer coisa, elogiar a beleza da mulher que passa pela outra calçada, reclamar do governo, gabar-se por uma nova conquista, amorosa ou não... enfim, amenidades que não fazem mal a ninguém.
O discurso de Allen abarca uma série de tópicos, e assistir a eles em forma de filme é saborear um delicioso prato preferido, feito pelas mãos mais hábeis que há. "Manhattan" prova que viver é passar por um dia de cada vez, com a consciência de que nenhum é igual a outro, porque nós mesmos mudamos dia após dia, sem nem mesmo notarmos. E a velha tese de que o extraordinário é o fato de estar vivo ganha reforço, já que nem só de grandes acontecimentos é feita a vida. Uma certa dosagem de acaso, misturada a uma pitada de obstinação, também podem contribuir significamente para dar novos rumos ao curso do rio que é a vida.

10 de mar. de 2010

"Tudo sobre minha mãe", uma declaração de amor à mulher

Nos filmes de Pedro Almodóvar, o sexo feminino tem sempre um lugar cativo, muito mais privilegiado que o masculino. Os homens almodovarianos quase sempre são apagados ou vítimas da força descomunal vinda delas. A exceção até agora tem sido "Má educação", em que ele dá voz a eles. Mas o foco dessa resenha é "Tudo sobre minha mãe", pérola rodada pelo diretor no já distante ano de 1999. Com seu talento inigualável para contar boas histórias, o diretor leva o público a mergulhar numa jornada difícil e densa, guiada pela força de uma protagonista firme e decidida, e por caodjuvantes igualmente destemidas.

Trata-se da vida de Manuela (Cecilia Roth, magnífica), uma mulher madura e atraente que tem um filho de 17 anos, o jovem escritor Esteban (Eloy Azorín), que nunca conheceu o pai. No dia de seu aniversário, seu maior desejo é assistir à apresentação da montagem espanhola de "Um bonde chamado desejo", famosa peça de Tennessee Williams. A protagonista é a renomada atriz Huma Rojo (Marisa Paredes), de quem Esteban sempre ouve maravilhas. Manuela decide atender o pedido do filho, mas aquela noite mudará definitivamente o rumo da sua vida. Tudo devido a um acontecimento tão trágico quanto inesperado. Quando tenta conseguir um autógrafo de Huma, após o espetáculo, Esteban acaba sendo atropelado, e a atriz sequer o vê, partindo velozmente.
Diante do fato, a decisão tomada por Manuela é retomar suas raízes, e tornar a Barcelona, de onde saíra tempos atrás desejosa de jamais voltar. Sua intenção é dar a notícia do falecimento de Esteban para o pai do menino, que se tornou travesti. É uma situação dificultosa, mas que ela decide encarar. A chegada de Manuela à cidade acaba por desencadear uma série de novos conflitos, já que ela reencontra váriso personagens de sua trajetória com os quais não tinha mais contato há muito, e alguns outros que ela vê pela primeira vez. A galeria de tipos de Almodóvar se mostra claramente a partir daí, com seres icônicos e surpreendentes em sua simplicidade e ousadia. O espaço para a polêmica também é aberto, caracaterística que permeia os longas do diretor. Através da jornada de Manuela, o espectador embarca em uma viagem na qual há muito o que se ver e aprender.
Manuela conhece Rosa, uma freira que se descobriu portadora do vírus da AIDS. O papel da jovem é defendido com garra por uma Penélope Cruz ainda anterior ao estrelato e à consagração de hoje, mas já em sua segunda parceria com Almodóvar. Sua freira é uma grande provocação à Igreja Católica, instituição criticada pelo diretor nesse filme e ainda mais ferozmente em "Má educação". Como é possível uma relgiosa como ela estar infectada com o vírus? A indagação surge como um grito de surpresa.
No caminho de Manuela também surge Agrado (Javier Cámara), um transexual que passou a usar seu nome porque sempre tentou agradar a todos que passam pela sua vida, assim como começa a fazer com Manuela, tornando-se um dos seus grandes parceiros. A cena em que ele tenta animar uma plateia depois que Huma não pode apresentar sua peça é uma das mais inesquecíveis de todo o filme, corrosivamente irônica. Como se vê, a presença masculina é praticamente nula. Os poucos homens que existem na trama não assumem sua verdadeira condição, preferindo igualar-se às mulheres. É uma forma de admiração tão grande por um ser, que a ideia é se transformar naquele ser, como fazem esses personagens. Mais uma vez, Almodóvar homenageia o sexo feminino, declarando seu amor a todas elas, de inúmeras formas, inclusive por meio da metalinguagem. Na pele de Huma Rojo, por exemplo, Marisa Paredes é a representação da mulher de talento, que galgou degraus e chegou ao reconhecimento máximo. A homenagem também parte dessa personagem, que dá vida a uma outra personagem, num mecanismo de representação da representação, uma ode às grandes mulheres retratadas pelo cinema e pelo teatro. Logo no início do filme, Esteban e Manuela assistem na televisão ao filme "A malvada", clássico com Bette Davis, cuja tradução do título original é "Tudo sobre Eve". Com a exibição dos créditos iniciais do filme de Almodóvar nesse momento, fica a ideia de que o título do filme foi decalcado dessa obra, o que constitui mais uma homenagem muito bem costurada pelo diretor.
É com essa eficiência que o filme flui, apoiado num roteiro perfeitamente escrito, a cargo do próprio diretor. Ele levou, inclusive, o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2000, coroando a realização de um profissional que sabe como poucos contar uma história forte e comovente. As obsessões de Almodóvar, como o apreço enorme pelas mulheres, e sua paixão incurável pelo cinema, reverberam a cada minuto de projeção, dando à plateia a chance de ser arrebatada por belos entrechos e por uma narrativa exemplar, que envolve e fica por muito tempo na memória.

8 de mar. de 2010

"Chega de saudade", uma obra com ternura e delicadeza

Dona de uma curta carreira, Laís Bodansky já vem mostrando que é uma diretora de muita competência. Sua obra é formada por apenas dois filmes: o contundente "Bicho de sete cabeças" e o doce "Chega de saudade", sendo que, entre o primeiro e o segundo passaram-se sete anos. Mas a espera durante tamanho hiato foi recompensada.
A diretora entrega ao público uma história maravilhosa, com personagens extremamente carismáticos, e transmite sua mensagem com muita delicadeza. No centro dos acontecimentos, está um simpático salão de baile da terceira idade, onde se passam traições, desencontros, descobertas, memórias, tristezas e alegrias, todas musicadas com lindas canções que caem perfeitamente ao desenrolar das ações.
Toda a trama do filme se passa em um único dia, estratégia narrativa que permite à cineasta condensar uma série de momentos em um só, resultando numa obra concisa, mas mesmo assim com muito a dizer. Tudo começa à luz do dia, com os preparativos para mais um dia de muita música e dança no baile. Chegam ao local dois jovens namorados, que estão ali para animar a noite. Ela não gosta muito daquele ambiente, e ele está ali muito mais pelo pagamento que receberá. Aquele é um mundo que não lhes pertence, mas, de alguma forma, eles serão inseridos naquela atmosfera de nostalgia e certo desalento. A princípio relutante, Bel, como se chama a jovem interpretada com graça por Maria Flor, vai se deixando levar pelo que vê e ouve naquela espécie de microcosmos dos desejos universais, de todo ser humano. Como seu namorado, são deslocados num ambiente dominado pelos mais velhos, mas com muito a aprender com eles. Sem nenhum didatismo, Laís conta com um elenco de veteranos, conhecidos das telenovelas, o que não é motivo para tornar seu filme depreciável. Todos estão igualmente impecáveis, dando a sua contribuição para um filme que se revela um painel da eterna busca do homem pela sua felicidade e pelo ideal de completude, tão soterrado em meio à vida fragmentária da contemporaneidade, mas ainda desejável.
Ali se encontram uma mulher que se lamenta a noite inteira por não ser tirada para dançar, e que se sente preterida por isso, uma dama de meia-idade que sofre por
sentir que o homem que ama é atraído pelo frescor jovem de Bel, uma outra mulher que ainda mantém sua libido, mesmo já tendo passado dos 40, e um casal que está junto a vida inteira, e mergulha nas recordações do tempo em que reinavam absolutos na pista de dança do lugar. Hoje, a saúde dos dois já não é mais a mesma, e eles precisam se contentar em assistir ao desempenho de outros dançarinos bem diante de seus olhos. Seus intérpretes, Tonia Carrero e Leonardo Vilar, são a cereja do bolo delicioso que é "Chega de saudade", cujo título é claramente um empréstimo da bela canção da bossa nova. Alice, personagem da grande atriz, vem sendo acometida de falta de memória, o que a torna um tanto tristonha. O marido, por sua vez, está amargo como nunca, sofrendo por não ser mais o pé-de-valsa de antes. A velhice é seu grande fardo, com o qual ele parece não saber lidar bem. O mesmo não se pode dizer de Leonardo Vilar, que defende seu papel com enorme vitalidade. É um prazer inenarrável ver tanta gente boa em cena, formando uma ciranda de pares que gravita lado a lado para formar um belo mosaico dos corações enamorados. A metáfora da dança cabe perfeitamente aqui, já que a diretora conduz seu elenco num ritmo harmonioso, dando espaço para que todos os integrantes do corpo de baile brilhem, cada qual a seu tempo e a seu modo. O resultado final não poderia ser mais inspirador e agradável que esse. "Chega de saudade pode ser visto como um convite a viver plenamente a vida. Mesmo que seja errando, o importante é ter a consciência de buscar acertar sempre, e estar sempre recomeçando.
O lirismo e o carinho com que trata de seu enredo também são acertos de Laís, que sabe dosar corretamente o sentimental, de forma a não torná-lo piegas, uma fronteira muito fácil de ser cruzada. Os personagens reagem aos acontecimentos com muita dignidade, procurando o melhor da vida sempre. A presença de Elza Soares como uma crooner também dá charme ao filme, já que as músicas cantadas pela sua personagem vão pontuando a trajetória de cada um naquela noite. O espectador acaba na posição de observador das ações. Nada muito súbito, não tão contido, mas tudo numa velocidade compatível com a do cotidiano. Com esses ingredientes, fica irresistível de acompanhar os passos dados pelos homens e mulheres que desfilam na tela com sua leveza e suadvidade, perfeitamente sincronizados e filmados por uma câmera paciente. Em tempos de produções cada vez mais focadas em tiros, explosões e voos pelos ares, um filme que fala baixinho ao coração é um regaço para espectadores sedentos de uma história bem contada.

5 de mar. de 2010

Uma possibilidade de futuro em "Código 46"

Considerado por muitos como um cineasta experimentalista, Michael Winterbottom é dono de uma filmografia marcadamente heterogênea. Não faz filmes para grandes públicos, o que pode explicar um certo desconhecimento à simples citação de títulos como "Desejo você", "Neste mundo" e "A festa nunca termina". Há, só nesses três filmes, um exemplar de romance, um de drama e um quase musical. O desconhecimento também é o caso de "Código 46", uma fábula intimista sobre um futuro próximo e suas características. É a incursão do diretor no terreno da ficção científica. E ele se sai muito bem na empreitada.

O filme narra a história de William (Tim Robbins), um funcionário do governo que leva uma vida comum para o seu tempo, como a de milhares de outros homens. Mas, para entender seus dilemas e sua mente, é preciso entender o ambiente que o cerca. Daqui a alguns anos, numa data não determinada, é impossível o deslocamento de uma cidade ou de de um país para o outro sem a apresentação do papelle. Trata-se de uma espécie de salvo-conduto que a assegura o direito de qualquer cidadão se locomover para um destino específico. Quando ocorre um caso de falsificação na emissão dos papelles, logo William é recrutado para solucionar o crime, tarefa na qual ele não encontra muitas dificuldades, já que logo desvenda a culpada. Ela é Maria, uma mulher que desperta nele um fascínio que evolui para uma paixão, e acarreta a vontade de William de protegê-la. Está aí o dilema do protagonista, a ser superado.
A trama de "Código 46" não é muito inovadora e, por si só, não motiva a se assistir ao filme. Mas Winterbottom tem mais a oferecer ao seu espectador. Mesmo transitando pela ficção científica, o diretor não se vale de efeitos visuais para contar sua história. Ele investe no drama interior de seus protagonistas, e apresenta um olhar algo pessimista sobre o futuro. Em seu diagnóstico, prevê níveis elevadíssimos de globalização, que irão resultar numa língua híbrida de inglês, português e espanhol, mas quase ininteligível para os seres humanos de hoje. A paisagem fora dos grandes centros urbanos é desértica, bastante desalentadora. Como Alfonso Cuarón em "Filhos da esperança", Winterbottom parece acreditar que dias piores virão. Nada de carros voadores ou outras altas tecnologias para turvar a visão dos personagens centrais.
Interessa enxergar o lado humano de William e Maria, que se mostram como camaleões adaptados as circunstâncias que a vida lhes impôs.
O título é uma menção ao código que os personagens violam, tanto Maria, que comete a fraude, quanto William, que decide acobertá-la. Uma lei inventada no roteiro do filme, que expressa parte de sua dose de criatividade. O destaque do longa é Samantha Morton, uma atriz ainda a ser descoberta pela maior parte da crítica e das plateias. Ela já apareceu em pequenos papéis, em filmes como "Minority report - A nova lei" (curiosamente, também uma ficção científica), além de já ter sido dirigida pela lenda Woody Allen em "Poucas e boas". Seu trabalho de composição é notável, e ela passa a dimensão exata dos conflitos vividos por sua Maria ao longo da projeção. A aparência andrógina da personagem a torna enigmática e instigante, não apenas para William. Vale lembrar que o enredo de "Código 46" se desenvolve em enxutos 92 minutos, demonstrando a economia narrativa de Winterbottom.
O mérito do diretor é apresentar um olhar diferente e dolorido sobre um tema já tão batido, e que assumiu há tempos feições descaradamente comerciais, impulsionadas por Spielbergs, Schummachers e afins. O resultado final está mais para o Godard de "Alphaville" que para diretores menos experimentais do grande circuito. Pode não ser uma grande obra-prima, mas tem qualidades para ser não ser mais apenas mais um filme sobre o futuro.

"Foi apenas um sonho": incongruências no viver lado a lado

Com um curta carreira no cinema, Sam Mendes mostrou logo a que veio. Sua estreia, com "Beleza americana", arremessou-o ao Oscar em pouco tempo, tornando-o um dos nomes mais promissores do cinema do final do século XX. A filmografia do diretor prosseguiu com "Estrada para a perdição", em que sua câmera focou os dilemas de um homem de vida dupla diante do filho pequeno. Em seguida, lanço se olhar sobre a segunda Guerra do Golfo no mediano "Soldado anônimo".

Um de seus filmes mais recentes, "Foi apenas um sonho", parece marcar um retorno de Mendes às origens. Como na primeira obra, seu olhar se volta para o cotidiano de um casal comum, e enxerga além do óbvio a partir de uma dissecação dos conflitos que se superpõem em sua vida, a cada novo passo que tentam dar. A trama é baseada no romance de Richard Yates (Revolutionary road, mesmo título original do filme), e é um tratado profundo sobre as progressivas desconexões que vão minando um casamento, mas que pode ser estendido para outras relações amorosas.
Passada nos glamourosos anos 50, já espiados por nomes como Todd Haynes (no recente "Longe do paraíso"), a história do casal que tenta levar uma vida digna, apesar dos intemperismos de ordens diversas que se abatem sobre seu relacionamento é tocante em mais de uma instância. Nos papéis centrais, Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, parceiros de cena onze anos antes no já legendário "Titanic". Se no filme de James Cameron eles eram o arquétipo do par romântico que se interrompe por uma tragédia da natureza, aqui eles reeditam a praceria para falar de uma outra tragédia, dessa vez particular e quase silenciosa e igualmente letal, que vai se desenhando a pequenos passos no cotidiano a dois.
Os atores dão vida a Frank e April Wheeler, dois apaixonados com ambições que têm plena certeza de que serão alcançadas em pouco tempo. Eles não encontram a completude naquilo que fazem, e na maneira como o fazem. Enquanto ela deseja se tornar uma atriz de renome, ele odeia ferozmente o emprego burocrático no qual trabalha e do qual depende para viver. Empenham-se para sair da mesmice, e de comodismo não podem ser acusados. Mas a rotina, por si só, já é uma espécie de catalisadora de suas discódias. Ela surge como uma entidade implacável, que cobra um alto preço para ser suplantada. E na expressão facial de Winslet e DiCaprio fica transparente o descontentamento com o que ambos se tornaram com o decorrer do tempo.

Nesse âmbito, Sam Mendes acerta em cheio, dirigindo a esposa e DiCaprio com maestria, arrancando interpretações memoráveis da dupla de atores. "Foi apenas um sonho" é um filme difícil, que escava as emoções mais contidas de um ser humano, camufladas pela coerção de toda a sorte de convencionalismo. Mas os intérpretes demonstram pleno domínio da dosagem certa de emoção e conflito que perpassa seus personagens. Tanto ele quanto ela estão no auge de sua maturidade profissional. DiCaprio vem colecionando papéis ótimos em filmes igualmente bons, principalmente os realizados sob a direção de Martin Scorsese, com quem já rodou quatro produções até agora. Winslet, por sua vez, já provou que é uma atriz completa, algo que o Oscar ignorava até 2009, quando lhe concedeu a estatueta de melhor atriz por seu desempenho em "O leitor", filme igualmente maravilhoso no qual ela se despe de grande parte de sua vaidade, atitude que é sempre louvada pela Academia (vide Charlize Theron e sua vitória por "Monster - Desejo assassino", em que estava inegavelmente horrenda). Mas sua performance como April merecia ser igualmente laureada, o que não aconteceu. O filme como um todo, aliás, foi posto de lado pelo Oscar, recebendo apenas 3 indicações. Ao menos o Globo de Ouro foi endereçado à atriz, semanas antes, com justiça.
Correndo por fora, surge o papel defendido com talento por Michael Shannon, ator desconhecido do grande público, que faz uma pequena e decisiva participação no longa como um jovem emocionalmente instável, que lança verdades na cara de Frank e April sem a menor cerimômia. É uma única sequência, mas com diálogos fortes o bastante para se tornar antológica.
Em resumo, Sam Mendes revela mais uma vez seu olhar aguçado para as mazelas humanas interiores, na figura do casal de protagonistas. Em sua necessidade de avanço, eles sentem que o mundo tem muito mais a oferecer, e essa disparidade se refleta num afastamento cada vez maior entre o casal. É impressionante observar como dois amantes que parecem almas gêmeas tornam-se, com o passar do tempo, inimigos íntimos. Nuances que são captadas com argúcia pela visão certeira do diretor.

4 de mar. de 2010

Alegrias e dissabores em "Canções de amor"

O tema amor é novamente revisitado no recente "Canções de amor", filme dirigido por Christophe Honoré, considerado como um dos mais importantes do cinema francês atual. De fato, seus longas têm um grau considerável de relevância, dada a forma como buscam apresentar as tramas, já que o conteúdo, em si, não é uma grande novidade.
Falar sobre o que muitos já se propuseram a discorrer é uma jogada um tanto arriscada, já que implica uma necessidade de inovação, mínima que seja. É preciso que se traga alguma novidade, alguma contribuição ao gênero. E a cada novo filme sobre o amor, essa responsabilidade aumenta. Ainda assim, Honoré parece não se intimidar, e lança seu olhar sobre o sentimento mais corriqueiro e passível de identificação imdediata entre homens e mulheres.

No caso de "Canções de amor", que é um drama musical sobre as venturas e desencatamentos proporcionados pelo amor, as canções surgiram antes do filme. Elas vieram de um material preexistente, sobre o qual o diretor escreveu o roteiro. O que se vê na tela, a partir dessas músicas, é uma filmagem poética sobre alguns encontros, dois desenlaces e um novo começo, temperados com rodelas de melodrama, e algumas pequenas doses de comédia. Talvez seja um prototípico caso de filme "ame-o ou deixe-o". Não é uma trama que agrade integralmente a todos. Mas unanimidades não podem ser parâmetro para medir a qualidade de um filme. Por isso, esse é digno de grande atenção.
Contar seu enredo também dá a falsa impressão de que é mais uma história dentre tantas outras. Na verdade, é isso mesmo. Mas é uma história muito bem contada, com personagens vividos com grande precisão por seus respectivos intérpretes. Estrelando o longa está Louis Garrel, um dos atores mais requisitados do cinema francês da atualidade. Na pele de Ismaël, ele é o centro de uma relação triádica levada a contento por todas as partes envolvidas. Sim, ele namora duas jovens ao mesmo tempo, essa situação é perfeitamente natural para os três. Aí já começa o discurso sobre a validade de outras formas de amar além das mais convencionais. Mas algo fará com que esse trio não vá à frente. Circunstâncias que escapam à sua vontade, e os arrastam para um fim inexorável.
Desde o começo, as canções que embalam esse delicioso filme se mostram exatamente encaixadas à narrativa, dando todo o sentido às ações dos personagens, embora elas não sejam lá muito coerentes. Mas quem se guia pela coerência diante do amor? Quando scometidos por esse sentimento, sabe-se bem, somos capazes de flertar com a mais completa ausência de lógica, movidos por um sentimento potencialmente bestificador. e
Nas tentativas mal-ajambradas do trio central de encontrar a felicidade plena por meio do amor, essa tese parece ser corroborada. Na primeira meia hora, o espectador já tem vontade de cantarolar as estrofes de "Des bonnes raisons pour te aimer", uma música sobre o comportamento evasivo dos amantes, e que se propõe a tratar, de maneira racional (será possível?) dos motivos que levam o amor por alguém a nascer em uma pessoa. É um assunto que se presta às mais variadas teorias, mesmo as que não vão chegar a lugar algum. Afinal, esse é um dos mistérios da vida. E, enquanto não se encontra a resposta definitiva para essa questão pertinente, parece bastante interessante ir buuscando por diversos meios, assim como Honoré faz. Sua pescrutação, no entanto, não é inteiramente nova. O cineasta trava um diálogo, ainda que involuntário, com o Shakespeare de "Sonho de uma noite de verão", que narra uma ciranda de encontros e desencontros amorosos para falar da instabilidade e da finitude do amor. A cada momento, o que se sente por alguém pode se transformar, e essa mutabilidade permanente é sempre fonte geradora de conflitos e dissabores.
À diferença de Shakespeare, porém, Honoré parece um pouco mais pessimista, quando, antes da metade do filme, mata um dos personagens, levando a um rearranjo na relação que Ismaël mantinha. "Canções de amor" passa a versar sobre os novos rumos tomados pelo protagonista em sua jornada à procura da pessoa amada. E, a partir do encontro que o personagem tem, a tese sobre a multiplicidade de facetas do amor se reforça. No fundo, o longa pode até ser definido como mais do mesmo. Não é uma tese totalmente refutável, mas também não constitui um demérito. Pode apenas ser um discurso com o qual se concorda ou ao qual se tem oposição. Subjetividades, como tudo o que se refere ao apreço e ao desdém no universo amplo da arte.

2 de mar. de 2010

As regras de Hollywood em "Dirigindo no escuro"

Os exercícios de metalinguagem propostos por Woody Allen são sempre, no mínimo, instigantes e dignos de alguma atenção. Com "Dirigindo no escuro" não é diferente. O diretor volta a falar do cinema dentro do cinema, como fizera brilhantemente na década de 80 em "A rosa púrpura do Cairo" nesse filme rodado em 2002, e lançado com atraso de um ano em terras brasileiras, como de hábito com as suas produções.

Se em "A rosa púrpura..." Allen tratava do fascínio que o cinema exerce na vida de uma pessoa comum com maestria indiscutível, em "Dirigindo no escuro" ele trata com cinismo das "regras" que fazem de Hollywood um terreno fértil para filmes que não primam tanto pela transmissão de um conteúdo, mas sim por ignorar a inteligência do espectador com tramas mirabolantes e imbecis. Seu discurso contra essa prática casa vez mais usual é calcado no humor, área que domina há tempos. Para fazer sua crítica com consistência, ele assume novamente o papel de protagonista, personificando Val Waxman, um diretor famoso que já produziu uma série de ótimos filmes, tendo sido muitas vezes aclamado pelo público e pelos especialistas. Mas já faz tempo desde que sua última obra foi lançada e, desde então, ele sente muitas dificuldades em conseguir um novo emprego.

A chance do retorno aparece na figura de sua ex-mulher Ellie (Téa Leoni, um tanto histriônica), que atualmente está casada com um poderoso dono de um estúdio cinematográfico, e lhe oferecer a oportunidade de dirigir um longa com o orçamento de 60 milhões de dólares. Parece ser a solução de seu problema de ego ferido e desejo de novo reconhecimento, e, de fato, o é. Mas ele logo trata de encontrar outro contratempo. Sua ansiedade de voltar a fazer o que ama o leva a adquirir cxegueira psicológica, exatamente às vésperas de recomeçar. Eis aí a grande sacada de Allen, que torna o filme ainda mais interessante. Não só o filme em si (Dirigindo no escuro), mas também o filme dentro do filme. Decidido a não deixar essa chance passar, Val esconde de todos sua cegueira, e se lança ao desafio de comandar os atores mesmo sem enxergar um palmo à frente de seu nariz. Asituação insólita, enquanto dura, rende as melhores cenas do filme, garantindo um equilíbrio perfeito no binômio diversão e reflexão.
Por meio dessa ideia simples, Woody Allen dá sua visão (sem trocadilhos) a respeito do que vem se transformando a indústria do cinema na atualidade. A cegueira do personagem pode ser lida tanto como literal quanto como metafórica, já que muitas produções lançadas recentemente, vindas diretamente da "fábrica de sonhos", parecem realizadas por comandantes destituídos da capacidade de enxergar o que é um bom filme. E em "Dirigindo no escuro" essa crítica é feita com muita argúcia e um roteiro muito bem escrito, com as pontas bem amarradinhas, e elementos que já são reconhecidos de longe na filmografia alleniana. A cidade de Nova York, que pode ser considerada uma personagem da história, aparece em graça e esplendor, em cenários belos e abertos, apesar de não exatamente inéditos. Mas nem so de ineditismos deve viver um bom filme, mas também de um talento notório para a condução do enredo que foi selecionado. Aqui, tudo é tratado com um misto de sofisticação e leveza, temperados pelo jazz, outra presença marcante e recorrente nas trilhas sonoras de seus filmes.

O longa de Allen também é uma bela homenagem a uma era de Hollywood que já não existe mais. O diretor evoca um tempo de astros que tinham muito mais que uma fina estampa, e exibindo dotes de ator que convenciam e encantavam, assim como muitas atrizes. Hoje, mistura-se a nomes competentes uma quantidade quase igual de supostos intérpretes, que se sustentam por exercer nas plateias um outro tipo de apelo, que não o de sede de arte genuína, conceito esse que também é passível de controvérsias, e que mereceria vários parágrafos e páginas. O fato é que "Dirigindo no escuro" levanta a questão da crise do cinema, que é diagnosticada de tempos em tempos por aí, como muita inteligência. Allen sabe muito bem do que está falando e, embora possa parecer, não está brincando em serviço. Sua arma é o riso, capaz de desarmar o alvo com muito mais eficácia que uma palavra ofensiva em sua aparência.
O diretor também aproveita para filosofar mais um pouco, como faz a cada filme. Entre os vácuos propositais na narrativa, ele discursa sobre o nada, sobre a frivolidade do cotidiano, as as agruras de envelhecer e outros assuntos que, de tão corriqueiros, acabam sendo bastante pertinentes. Principalmente porque são debatidos em diálogos hilários, sempre presentes nas comédias deliciosas desse veterano da sétima arte. Como se vê, é em um pouco menos de duas horas que o diretor se utiliza com propriedade de um veículo do qual entende muito, o que traduz um estilo enxuto em sua verborragia, por mais paradoxal que a afirmativa venha soar. É válida sua proposta, que deve ser estudada com acuidade.