5 de mar. de 2010

Uma possibilidade de futuro em "Código 46"

Considerado por muitos como um cineasta experimentalista, Michael Winterbottom é dono de uma filmografia marcadamente heterogênea. Não faz filmes para grandes públicos, o que pode explicar um certo desconhecimento à simples citação de títulos como "Desejo você", "Neste mundo" e "A festa nunca termina". Há, só nesses três filmes, um exemplar de romance, um de drama e um quase musical. O desconhecimento também é o caso de "Código 46", uma fábula intimista sobre um futuro próximo e suas características. É a incursão do diretor no terreno da ficção científica. E ele se sai muito bem na empreitada.

O filme narra a história de William (Tim Robbins), um funcionário do governo que leva uma vida comum para o seu tempo, como a de milhares de outros homens. Mas, para entender seus dilemas e sua mente, é preciso entender o ambiente que o cerca. Daqui a alguns anos, numa data não determinada, é impossível o deslocamento de uma cidade ou de de um país para o outro sem a apresentação do papelle. Trata-se de uma espécie de salvo-conduto que a assegura o direito de qualquer cidadão se locomover para um destino específico. Quando ocorre um caso de falsificação na emissão dos papelles, logo William é recrutado para solucionar o crime, tarefa na qual ele não encontra muitas dificuldades, já que logo desvenda a culpada. Ela é Maria, uma mulher que desperta nele um fascínio que evolui para uma paixão, e acarreta a vontade de William de protegê-la. Está aí o dilema do protagonista, a ser superado.
A trama de "Código 46" não é muito inovadora e, por si só, não motiva a se assistir ao filme. Mas Winterbottom tem mais a oferecer ao seu espectador. Mesmo transitando pela ficção científica, o diretor não se vale de efeitos visuais para contar sua história. Ele investe no drama interior de seus protagonistas, e apresenta um olhar algo pessimista sobre o futuro. Em seu diagnóstico, prevê níveis elevadíssimos de globalização, que irão resultar numa língua híbrida de inglês, português e espanhol, mas quase ininteligível para os seres humanos de hoje. A paisagem fora dos grandes centros urbanos é desértica, bastante desalentadora. Como Alfonso Cuarón em "Filhos da esperança", Winterbottom parece acreditar que dias piores virão. Nada de carros voadores ou outras altas tecnologias para turvar a visão dos personagens centrais.
Interessa enxergar o lado humano de William e Maria, que se mostram como camaleões adaptados as circunstâncias que a vida lhes impôs.
O título é uma menção ao código que os personagens violam, tanto Maria, que comete a fraude, quanto William, que decide acobertá-la. Uma lei inventada no roteiro do filme, que expressa parte de sua dose de criatividade. O destaque do longa é Samantha Morton, uma atriz ainda a ser descoberta pela maior parte da crítica e das plateias. Ela já apareceu em pequenos papéis, em filmes como "Minority report - A nova lei" (curiosamente, também uma ficção científica), além de já ter sido dirigida pela lenda Woody Allen em "Poucas e boas". Seu trabalho de composição é notável, e ela passa a dimensão exata dos conflitos vividos por sua Maria ao longo da projeção. A aparência andrógina da personagem a torna enigmática e instigante, não apenas para William. Vale lembrar que o enredo de "Código 46" se desenvolve em enxutos 92 minutos, demonstrando a economia narrativa de Winterbottom.
O mérito do diretor é apresentar um olhar diferente e dolorido sobre um tema já tão batido, e que assumiu há tempos feições descaradamente comerciais, impulsionadas por Spielbergs, Schummachers e afins. O resultado final está mais para o Godard de "Alphaville" que para diretores menos experimentais do grande circuito. Pode não ser uma grande obra-prima, mas tem qualidades para ser não ser mais apenas mais um filme sobre o futuro.

"Foi apenas um sonho": incongruências no viver lado a lado

Com um curta carreira no cinema, Sam Mendes mostrou logo a que veio. Sua estreia, com "Beleza americana", arremessou-o ao Oscar em pouco tempo, tornando-o um dos nomes mais promissores do cinema do final do século XX. A filmografia do diretor prosseguiu com "Estrada para a perdição", em que sua câmera focou os dilemas de um homem de vida dupla diante do filho pequeno. Em seguida, lanço se olhar sobre a segunda Guerra do Golfo no mediano "Soldado anônimo".

Um de seus filmes mais recentes, "Foi apenas um sonho", parece marcar um retorno de Mendes às origens. Como na primeira obra, seu olhar se volta para o cotidiano de um casal comum, e enxerga além do óbvio a partir de uma dissecação dos conflitos que se superpõem em sua vida, a cada novo passo que tentam dar. A trama é baseada no romance de Richard Yates (Revolutionary road, mesmo título original do filme), e é um tratado profundo sobre as progressivas desconexões que vão minando um casamento, mas que pode ser estendido para outras relações amorosas.
Passada nos glamourosos anos 50, já espiados por nomes como Todd Haynes (no recente "Longe do paraíso"), a história do casal que tenta levar uma vida digna, apesar dos intemperismos de ordens diversas que se abatem sobre seu relacionamento é tocante em mais de uma instância. Nos papéis centrais, Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, parceiros de cena onze anos antes no já legendário "Titanic". Se no filme de James Cameron eles eram o arquétipo do par romântico que se interrompe por uma tragédia da natureza, aqui eles reeditam a praceria para falar de uma outra tragédia, dessa vez particular e quase silenciosa e igualmente letal, que vai se desenhando a pequenos passos no cotidiano a dois.
Os atores dão vida a Frank e April Wheeler, dois apaixonados com ambições que têm plena certeza de que serão alcançadas em pouco tempo. Eles não encontram a completude naquilo que fazem, e na maneira como o fazem. Enquanto ela deseja se tornar uma atriz de renome, ele odeia ferozmente o emprego burocrático no qual trabalha e do qual depende para viver. Empenham-se para sair da mesmice, e de comodismo não podem ser acusados. Mas a rotina, por si só, já é uma espécie de catalisadora de suas discódias. Ela surge como uma entidade implacável, que cobra um alto preço para ser suplantada. E na expressão facial de Winslet e DiCaprio fica transparente o descontentamento com o que ambos se tornaram com o decorrer do tempo.

Nesse âmbito, Sam Mendes acerta em cheio, dirigindo a esposa e DiCaprio com maestria, arrancando interpretações memoráveis da dupla de atores. "Foi apenas um sonho" é um filme difícil, que escava as emoções mais contidas de um ser humano, camufladas pela coerção de toda a sorte de convencionalismo. Mas os intérpretes demonstram pleno domínio da dosagem certa de emoção e conflito que perpassa seus personagens. Tanto ele quanto ela estão no auge de sua maturidade profissional. DiCaprio vem colecionando papéis ótimos em filmes igualmente bons, principalmente os realizados sob a direção de Martin Scorsese, com quem já rodou quatro produções até agora. Winslet, por sua vez, já provou que é uma atriz completa, algo que o Oscar ignorava até 2009, quando lhe concedeu a estatueta de melhor atriz por seu desempenho em "O leitor", filme igualmente maravilhoso no qual ela se despe de grande parte de sua vaidade, atitude que é sempre louvada pela Academia (vide Charlize Theron e sua vitória por "Monster - Desejo assassino", em que estava inegavelmente horrenda). Mas sua performance como April merecia ser igualmente laureada, o que não aconteceu. O filme como um todo, aliás, foi posto de lado pelo Oscar, recebendo apenas 3 indicações. Ao menos o Globo de Ouro foi endereçado à atriz, semanas antes, com justiça.
Correndo por fora, surge o papel defendido com talento por Michael Shannon, ator desconhecido do grande público, que faz uma pequena e decisiva participação no longa como um jovem emocionalmente instável, que lança verdades na cara de Frank e April sem a menor cerimômia. É uma única sequência, mas com diálogos fortes o bastante para se tornar antológica.
Em resumo, Sam Mendes revela mais uma vez seu olhar aguçado para as mazelas humanas interiores, na figura do casal de protagonistas. Em sua necessidade de avanço, eles sentem que o mundo tem muito mais a oferecer, e essa disparidade se refleta num afastamento cada vez maior entre o casal. É impressionante observar como dois amantes que parecem almas gêmeas tornam-se, com o passar do tempo, inimigos íntimos. Nuances que são captadas com argúcia pela visão certeira do diretor.

4 de mar. de 2010

Alegrias e dissabores em "Canções de amor"

O tema amor é novamente revisitado no recente "Canções de amor", filme dirigido por Christophe Honoré, considerado como um dos mais importantes do cinema francês atual. De fato, seus longas têm um grau considerável de relevância, dada a forma como buscam apresentar as tramas, já que o conteúdo, em si, não é uma grande novidade.
Falar sobre o que muitos já se propuseram a discorrer é uma jogada um tanto arriscada, já que implica uma necessidade de inovação, mínima que seja. É preciso que se traga alguma novidade, alguma contribuição ao gênero. E a cada novo filme sobre o amor, essa responsabilidade aumenta. Ainda assim, Honoré parece não se intimidar, e lança seu olhar sobre o sentimento mais corriqueiro e passível de identificação imdediata entre homens e mulheres.

No caso de "Canções de amor", que é um drama musical sobre as venturas e desencatamentos proporcionados pelo amor, as canções surgiram antes do filme. Elas vieram de um material preexistente, sobre o qual o diretor escreveu o roteiro. O que se vê na tela, a partir dessas músicas, é uma filmagem poética sobre alguns encontros, dois desenlaces e um novo começo, temperados com rodelas de melodrama, e algumas pequenas doses de comédia. Talvez seja um prototípico caso de filme "ame-o ou deixe-o". Não é uma trama que agrade integralmente a todos. Mas unanimidades não podem ser parâmetro para medir a qualidade de um filme. Por isso, esse é digno de grande atenção.
Contar seu enredo também dá a falsa impressão de que é mais uma história dentre tantas outras. Na verdade, é isso mesmo. Mas é uma história muito bem contada, com personagens vividos com grande precisão por seus respectivos intérpretes. Estrelando o longa está Louis Garrel, um dos atores mais requisitados do cinema francês da atualidade. Na pele de Ismaël, ele é o centro de uma relação triádica levada a contento por todas as partes envolvidas. Sim, ele namora duas jovens ao mesmo tempo, essa situação é perfeitamente natural para os três. Aí já começa o discurso sobre a validade de outras formas de amar além das mais convencionais. Mas algo fará com que esse trio não vá à frente. Circunstâncias que escapam à sua vontade, e os arrastam para um fim inexorável.
Desde o começo, as canções que embalam esse delicioso filme se mostram exatamente encaixadas à narrativa, dando todo o sentido às ações dos personagens, embora elas não sejam lá muito coerentes. Mas quem se guia pela coerência diante do amor? Quando scometidos por esse sentimento, sabe-se bem, somos capazes de flertar com a mais completa ausência de lógica, movidos por um sentimento potencialmente bestificador. e
Nas tentativas mal-ajambradas do trio central de encontrar a felicidade plena por meio do amor, essa tese parece ser corroborada. Na primeira meia hora, o espectador já tem vontade de cantarolar as estrofes de "Des bonnes raisons pour te aimer", uma música sobre o comportamento evasivo dos amantes, e que se propõe a tratar, de maneira racional (será possível?) dos motivos que levam o amor por alguém a nascer em uma pessoa. É um assunto que se presta às mais variadas teorias, mesmo as que não vão chegar a lugar algum. Afinal, esse é um dos mistérios da vida. E, enquanto não se encontra a resposta definitiva para essa questão pertinente, parece bastante interessante ir buuscando por diversos meios, assim como Honoré faz. Sua pescrutação, no entanto, não é inteiramente nova. O cineasta trava um diálogo, ainda que involuntário, com o Shakespeare de "Sonho de uma noite de verão", que narra uma ciranda de encontros e desencontros amorosos para falar da instabilidade e da finitude do amor. A cada momento, o que se sente por alguém pode se transformar, e essa mutabilidade permanente é sempre fonte geradora de conflitos e dissabores.
À diferença de Shakespeare, porém, Honoré parece um pouco mais pessimista, quando, antes da metade do filme, mata um dos personagens, levando a um rearranjo na relação que Ismaël mantinha. "Canções de amor" passa a versar sobre os novos rumos tomados pelo protagonista em sua jornada à procura da pessoa amada. E, a partir do encontro que o personagem tem, a tese sobre a multiplicidade de facetas do amor se reforça. No fundo, o longa pode até ser definido como mais do mesmo. Não é uma tese totalmente refutável, mas também não constitui um demérito. Pode apenas ser um discurso com o qual se concorda ou ao qual se tem oposição. Subjetividades, como tudo o que se refere ao apreço e ao desdém no universo amplo da arte.

2 de mar. de 2010

As regras de Hollywood em "Dirigindo no escuro"

Os exercícios de metalinguagem propostos por Woody Allen são sempre, no mínimo, instigantes e dignos de alguma atenção. Com "Dirigindo no escuro" não é diferente. O diretor volta a falar do cinema dentro do cinema, como fizera brilhantemente na década de 80 em "A rosa púrpura do Cairo" nesse filme rodado em 2002, e lançado com atraso de um ano em terras brasileiras, como de hábito com as suas produções.

Se em "A rosa púrpura..." Allen tratava do fascínio que o cinema exerce na vida de uma pessoa comum com maestria indiscutível, em "Dirigindo no escuro" ele trata com cinismo das "regras" que fazem de Hollywood um terreno fértil para filmes que não primam tanto pela transmissão de um conteúdo, mas sim por ignorar a inteligência do espectador com tramas mirabolantes e imbecis. Seu discurso contra essa prática casa vez mais usual é calcado no humor, área que domina há tempos. Para fazer sua crítica com consistência, ele assume novamente o papel de protagonista, personificando Val Waxman, um diretor famoso que já produziu uma série de ótimos filmes, tendo sido muitas vezes aclamado pelo público e pelos especialistas. Mas já faz tempo desde que sua última obra foi lançada e, desde então, ele sente muitas dificuldades em conseguir um novo emprego.

A chance do retorno aparece na figura de sua ex-mulher Ellie (Téa Leoni, um tanto histriônica), que atualmente está casada com um poderoso dono de um estúdio cinematográfico, e lhe oferecer a oportunidade de dirigir um longa com o orçamento de 60 milhões de dólares. Parece ser a solução de seu problema de ego ferido e desejo de novo reconhecimento, e, de fato, o é. Mas ele logo trata de encontrar outro contratempo. Sua ansiedade de voltar a fazer o que ama o leva a adquirir cxegueira psicológica, exatamente às vésperas de recomeçar. Eis aí a grande sacada de Allen, que torna o filme ainda mais interessante. Não só o filme em si (Dirigindo no escuro), mas também o filme dentro do filme. Decidido a não deixar essa chance passar, Val esconde de todos sua cegueira, e se lança ao desafio de comandar os atores mesmo sem enxergar um palmo à frente de seu nariz. Asituação insólita, enquanto dura, rende as melhores cenas do filme, garantindo um equilíbrio perfeito no binômio diversão e reflexão.
Por meio dessa ideia simples, Woody Allen dá sua visão (sem trocadilhos) a respeito do que vem se transformando a indústria do cinema na atualidade. A cegueira do personagem pode ser lida tanto como literal quanto como metafórica, já que muitas produções lançadas recentemente, vindas diretamente da "fábrica de sonhos", parecem realizadas por comandantes destituídos da capacidade de enxergar o que é um bom filme. E em "Dirigindo no escuro" essa crítica é feita com muita argúcia e um roteiro muito bem escrito, com as pontas bem amarradinhas, e elementos que já são reconhecidos de longe na filmografia alleniana. A cidade de Nova York, que pode ser considerada uma personagem da história, aparece em graça e esplendor, em cenários belos e abertos, apesar de não exatamente inéditos. Mas nem so de ineditismos deve viver um bom filme, mas também de um talento notório para a condução do enredo que foi selecionado. Aqui, tudo é tratado com um misto de sofisticação e leveza, temperados pelo jazz, outra presença marcante e recorrente nas trilhas sonoras de seus filmes.

O longa de Allen também é uma bela homenagem a uma era de Hollywood que já não existe mais. O diretor evoca um tempo de astros que tinham muito mais que uma fina estampa, e exibindo dotes de ator que convenciam e encantavam, assim como muitas atrizes. Hoje, mistura-se a nomes competentes uma quantidade quase igual de supostos intérpretes, que se sustentam por exercer nas plateias um outro tipo de apelo, que não o de sede de arte genuína, conceito esse que também é passível de controvérsias, e que mereceria vários parágrafos e páginas. O fato é que "Dirigindo no escuro" levanta a questão da crise do cinema, que é diagnosticada de tempos em tempos por aí, como muita inteligência. Allen sabe muito bem do que está falando e, embora possa parecer, não está brincando em serviço. Sua arma é o riso, capaz de desarmar o alvo com muito mais eficácia que uma palavra ofensiva em sua aparência.
O diretor também aproveita para filosofar mais um pouco, como faz a cada filme. Entre os vácuos propositais na narrativa, ele discursa sobre o nada, sobre a frivolidade do cotidiano, as as agruras de envelhecer e outros assuntos que, de tão corriqueiros, acabam sendo bastante pertinentes. Principalmente porque são debatidos em diálogos hilários, sempre presentes nas comédias deliciosas desse veterano da sétima arte. Como se vê, é em um pouco menos de duas horas que o diretor se utiliza com propriedade de um veículo do qual entende muito, o que traduz um estilo enxuto em sua verborragia, por mais paradoxal que a afirmativa venha soar. É válida sua proposta, que deve ser estudada com acuidade.

1 de mar. de 2010

O faroeste intimista de "Onde os fracos não têm vez"

Depois de uma carreira marcada por diversos exemplares de comédia, com uma boa dose de humor negro, os irmãos Ethan e Joel Coen decidiram enveredar por caminhos mais obscuros em "Onde os fracos não têm vez". O filme é uma adaptação do romance de Cormac McCarthy, e apresenta um teor de violência bastante elevado para os padrões da dupla de cineastas.

A trama desse filme gira em torno de dois homens e uma busca implacável pela fortuna encontrada em uma picape onde ha vários corpos. Um deles é Llewelyn Moss (Josh Brolin), que encontra a quantia de dois milhões de dólares no dito veículo. O que poderia ser sua tábua de salvação se transforma na razão de seu desassossego, já que o dinheiro é alvo da cobiça de ninguém menos que Anton Chigurh (Javier Bardem, impecável), um perigoso bandido que não livra a cara de nunguém. Ele é o terror da cidadezinha onde se passa o filme, por conta de seu espírito sanguinário. Logo na primeira cena em que o personagem aparece, o espectador é apresentado ao alto grau de crueldade do qual Chigurh é capaz: ele estrangula um homem com um misto de fúria e satisfação, estampados em sua face algo bizarra. Aliás, a interpretação de Javier Bardem é simplesmente fenomenal, desde o primeiro momento em que irrompe na tela. É um trabalho árduo e impressionante o de dar vida a um homem tão despido de compaixão e amabilidade. A cena em que ele dialoga com o dono de uma pequena loja de beira de estrada já é antológica. No cara ou coroa, ele decide se irá acabar ou não com a vida do senhor. Depois de instantes de respiração presa, o destino do personagem é decidido por esse simples mecanismo.

Um dos grandes detalhes do longa, além da perfeita composição de Bardem, é a ausência de trilha sonora nas sequências. De alguma maneira, esse recurso permite que a atenção e a tensão estejam totalmente voltadas apenas para os acontecimentos que se desenrolam diante do olhar do público, que pode sentir, entre outras coisas, adrnalina correndo nas veias e constantes sobressaltos. Em vários momentos, surge o inesparado, fazendo com que as expectativas de quem assiste sejam quebradas. Eis mais um ponto que pode ser destacado como indicador da qualidade desse filme.
Não por acaso, "Onde os fracos não têm vez" abocanhou metade dos prêmios aos quais estava indicado na edição 2008 do Oscar: nada menos do que quatro prêmios, entre eles o de filme e de direção. De fato, os Coen fazem um excelente trabalho atrás das câmeras, demonstrando segurança no comando de uma trama que se revela, cada vez mais, uma devastadora espiral de violência. Tudo evolui para um crescente de desespero e luta pela sobrevivência. Mossa sabe perfeitamente que não pode ser alcançado por Chigurh, ou será um homem morto. Com a fama do assassino já consolidada, ele também tem ciência de que dificilmente escapará do furor venenoso desse homem. Torna-se quase inevitável não torcer para que Moss escape.

Enqudrar o filme em um único gênero não é tão fácil. Ao longo de suas duas horas de duração, ele se apresenta como uma espécie de faroeste, protagonizado por dois homens que lançam suas vidas na perseguição de um objetivo. Mas a forma como é conduzido lhe dá contornos intimistas, com uma câmera que vislumbra de perto o rosto dos personagens, como uma forma de dissecar o que se passa no interior desses homens. Por mais que se procure, é quase impossível achar algum traço de humanidade em Anton Chigurh. A cada nova atitude tomada pelo personagem, essa tese é reforçada. Moss, por outro lado, ainda parece conservar, sob a carapaça de homem forte, temor e comedimento. Ele sabe com quem está lidando.
O elenco ainda tem a presença marcante de Tommy Lee Jones, na pele de um xerife quejá perdeu há muito o controle do local que deveria reger com mãos férreas. Sua desolação encontra motivo na situação caótica em que a região mergulhou desde que o tráfico de drogas passou a dar as cartas. A desesperança do personagem se alia a certeza de que não há mais nada a fazer, e que aquela agora é uma terra de ninguém.
Por todas essas características, "Onde os fracos não têm vez" é um filme que merece ser visto e revisto. Os diretores também permitem uma abertura para o diálogo com a questão da violência desenfreada no mundo contemporâneo, em que se afirma que um ato violento levará a outro, e assim sucessivamente. Com o alto teor de cenas desse tipo, em que hpa inclusive sangue, fica aberto o debate: há solução para isso?

25 de fev. de 2010

O fim do sonho em "Um dia perfeito"

Ao longo de várias décadas do século XX, o cinema italiano ofereceu a todo o mundo uma série de obras legendárias, criadas por nomes igualmente famosos: Visconti, Pasolini, Fellini, entre outros. Na atualidade, porém, não há mais o brilho de outrora. Afora um ou outro realizador,como Nanni Moretti, a Itália produz filmes inesquecíves e encantadores com pouca frequência.
Entre os nomes que podem ser associados a competência e talento está também Ferzan Özpetek. Esse diretor de ascendência turca é o responsável por "Um dia perfeito", adaptação do romance de Melania Mazzucco para o cinema. Com uma sensibilidade tocante, ele conduz uma obra de muitas ressonâncias, que fica na memória mesmo depois do acender das luzes da sala de exibição ou do fim de uma sessão em casa no DVD.

A câmera de Özpetek espia o cotidiano de um casal que se separou, e todas as consequências terríveis advindas desse fato, que poderia ser mais um, banal entre tantos outros, mas não é. Eles são Antonio e Emma, um dia já foram muito felizes, mas algo os atrapalhou na continuidade dessa caminhada lado a lado. A história já começa com um acontecimento trágico, um incidente que afeta várias pessoas. Para que o espectador entenda as razões que fizeram com que o fato se desencadeasse, a trama recua vinte e quatro horas no tempo, apresentando calmamente os personagens que, de alguma maneira, estarão envolvidos no fatídico dia seguinte.
Ao suceder das cenas, começa a suegir a compreensão dos fatores que geraram a tragédia. Antonio nunca se conformou com o fim de seu casamento com Emma, com quem teve dois filhos, e não a deixa em paz um só dia. As crianças insistem para que ela perdoe o pai deles, mas é em vão. Logo, a personalidade violenta de Antonio se impõe, numa perturbadora sequência de quase estupro entre ele e a ex-mulher. Essa passagem é carregada de tensão, e mexe com os nervos de espectadores mais sensíveis. Tem-se vontade de vê-la conseguindo se desvencilhar da perversidade do ex-marido. Daí para a frente, os filhos do ex-casal logo ganham a empatia do público, sendo vividos com muito talento por dois jovens atores.

O drama de Özpetek é apresentado como uma espécie de quebra-cabeças, em que as pontas, aparentemente soltas, vão se unindo e se entrelaçando, permitindo que se chegue a uma conclusão a respeito de seu final. Sim, o enredo é um tanto previsível, mas não a ponto de tirar o brilho das excelentes atuações nem o impacto das cenas que aparecem. Cada fotograma de "Um dia perfeito" é uma ode à beleza, e o filme, em si, carrega uma certa ironia de mau gosto do destino. Afinal, se o público não soubesse, de antemão, que algo terrível aconteceria, certamente iria pensar que tudo correria sempre às mil maravilhas. Com exceção da canhestra tentativa de reconciliação de Antonio com Emma, aquelas 24 horas haviam sido absolutamente agradáveis. Então, como não é o que verdadeiramente permanecerá, o filme transcorre atravessado pelo prenúncio de algo muito ruim no ar.
Vale a pena assistir a "Um dia perfeito" porque o cineasta conta muito bem a história. Nem sempre é preciso que haja originalidade para prender e conquistar o espectador. O relato de um drama humano, possível, como é o caso do filme, também pode interessar. Além disso, o filme ressalta que o cinema italiano não está agonizante, como se pode pensar. Ainda há muita vida pulsando nos diretores, que levam para as telas obras de grande valor. Cabe citar aqui, além do já citado Nanni Moretti, as mentes talentosas de Gianni Amelio e Kim Rossi Stuart, este último também ator, como responsáveis por uma boa safra de filmes vindos dessa terra. Finalmente, ratificando, acompanhar o desenvolvimento da trama de "Um dia perfeito" é maravilhoso, mesmo que o pesar tome conta depois do fim da sessão.

23 de fev. de 2010

"O sétimo selo" e a crise da fé

O cinema de Ingmar Bergman é feito de questionamentos. A principal fonte das histórias filmadas pelo sueco são os interiores dos seres humanos, que geraram pérolas de valor inenarrável ao longo de sua profícua carreira nesse importante veículo artístico de comunicação. "O sétimo selo" não deixa mentir, já que também está fundamentado nessa tentativa de se entender os meandros da natureza do homem, pela via da imagem simbólica.

Na trama do filme de 1957, um cavaleiro volta à sua vila de origem depois de lutar nas Cruzadas com ferocidade. Seu nome é Antonius Block (Max Von Sydow), e o cenário por ele encontrado é de profunda desolação. A época é o século XIV, e parte da devastação é por conta da peste negra, doença mortal que dizimou milhões de vidas em várias partes do mundo conhecido até então. Do contato com essa realidade tão perversa, surge em Antonius um sentimento de enorme dúvida sobre a existência de Deus em meio a tamanho desalento. É essa busca incessante por desvendar o que, para ele, é um mistério, que norteia seus passos e palavras.
Nesse aspecto, o filme se apresenta com um teor realista muito forte. Mas também ganha tintas mais fantásticas quando surge para o protagonista uma estranha figura: a Morte, que lhe diz que sua hora é chegada. A imagem desse ser sinistro é acachapante para Antonius, mas ele desafia aquela entidade com uma proposta ousada. Por meio de um jogo de xadrez, ele pode ganhar uma sobrevida no caso de vencer, e é a partir desse encontro com a mais temida das horas que a trama ganha contornos existencialistas. Como em vários outros filmes de sua carreira, Bergman se utiliza do cinema para mergulhar nos fantasmas que o atormentam desde sua infância, entregando um verdadeiro tratado sobre a inquietude do homem diante do que o destino lhe impõe através de "O sétimo selo". Antonius é uma pessoa que não tem medo de questionar, e vai a fundo para se entender e entender a humanidade e o mundo. Isso o leva a um patamar de reflexão elevado, o que não significa, necessariamente, que ele encontre todas as respostas que procura.
Bergman lança as sementes da dúvida o tempo todo, sem se preocupar em dar explicações para tudo o que se vê na tela. Em certa medida, "O sétimo selo" pode ser entendido como uma parábola sobre a condição humana. Estamos sempre fadados a um destino, mas dificilmente o aceitamos resignados. Na verdade, não sabemos exatamente qual ele é, mas quando nos damos conta do que pode estar se tornando nossa vida, a eterna insatisfação que nos move clama por uma mudança de direção. Trata-se do mesmo sentimento que dilacera as expectativas de Antonius Bolock, e que alimenta sua angústia por não entender a realidade que o cerca, e muito menos o plano abstrato que o acompanha. Qual a razão daquela mortandade toda? Revolta divina? Castigo para os homens? Se Deus não existe, então estamos abandonados à própria sorte? Se Ele é real, somos peças de um tabuleiro de xadrez que ele move a seu gosto? São muitas as incertezas que assomam no coração de Antonius, todas derivadas de sua visão da morte e da desesperança que gritaram aos seus olhos no início do filme, e que perduram pelo resto da narrativa.

Em dado momento, diante de tantas perguntas que Antonius faz, um dos personagens lhe diz: "Você nunca para de questionar?", e ouve a resposta negativa dele. Na sua trajetória errante, Antonius ainda encontra um casal de artistas de circo com um filho pequeno, e é nas aparições quase fugidias desse núcleo que o filme, mesmo continuando em preto e branco, parece ganhar mais cor e luz. É como se Bergman quisesse nos dizer que a salvação do mundo estivesse na arte, em sua expressão mais bela e simples. As mazelas desse mundo já são tantas que é preciso encontrar uma maneira de deixá-lo mais palatável. É através da arte que o ser humano busca entender e compreender o mundo, e o cineasta parece ir ao encontro dessa afirmativa em "O sétimo selo". E faz isso com um talento incontestável, justificando o prêmio que o filme recebeu: o Urso de Ouro em Berlim no ano de 1957. Mesmo tão distante no tempo, afinal, já são mais de cinco décadas, o longa não ficou datado. Pelo contrário: permanece atual e inquietante, como uma autêntica e atemporal obra de arte.
O realizador não faz seu discurso pela via da gradiloquência, mas sim por meio da investigação do íntimo da fragilidade humana, detectando as pequenas agruras que nos consomem internamente, e nos levam muitas vezes a ter a existência por dolorida. Não à toa, o filme conquistou um lugar de honra na ribalta dos melhores do todos os tempos. É praticamente impossível elaborar uma lista de clássicos ou de filmes indispensáveis sem incluir "O sétimo selo". Para sempre, ele será lembrado como um poderoso instrumento de reflexão e de imersão na alma. Sua visão é voltada para a tentativa de entendimento do desconcerto do mundo, tão evidente quanto inquietante.